Andavam pela cidade arrastando os pés, falando, procurando coisas (por vezes, pessoas), tentando descobrir lugares, amuando, separando-se, juntando-se ao fim de dois ou três dias, envolvendo-se em novas conversas, esquecendo zangas, rindo.
De vez em quando, MIS pedia a HR que fizesse alguma coisa, que reagisse, mas os seus apelos não surtiam efeito. HR baixava a voz e sugeria que MIS se aproximasse, enquanto olhava a noite com rosto enigmático. MIS obedecia e deixava-se levar por pensamentos cuja origem ignorava. A sua amizade parecia durar desde sempre. Que tinha acontecido para que se encontrassem? Como se tinha gerado tal possibilidade? Até quando resistiriam os factores que os uniam?
- Não tenho visto JLO... - resmungou MIS, dando a ideia de que o silêncio lhe dava mais trabalho do que duas ou três palavras pronunciadas com dificuldade.
HR não respondeu, mas esboçou um sorriso cúmplice.
- Deve estar preparando alguma - acrescentou MIS entre dentes, na tentativa de encontrar o tom de voz adequado para inibir a réplica de HR. E ficou a matutar nas suas reflexões, sem ter a mínima dúvida de que fossem elas quais fossem valiam tanto como a própria realidade.
- JLO há-de aparecer... - disse HR ao fim de quase cinco minutos, como se considerasse que já tinha passado tempo suficiente para MIS não levar a mal a sua reacção.
- Quem te disse? - perguntou MIS, com um assomo de troça na voz.
- Verás...
MIS já sabia que não valia a pena insistir e aproveitava para fazer contas ao que vinha sucedendo nos últimos dias, aos rumores que se ouviam sobre as medidas de protecção que poderiam vir a ser tomadas. Não tinha a certeza de compreender o que estava em preparação, por isso não sabia bem como proceder. O regresso de JLO poderia constituir uma achega.
- Não me resta muito tempo... - disse MIS, ante a aparente passividade de HR. - Não valeram a pena todos estes amos - continuou, de olhos cravados no chão. - Pode ser que tenhas mais sorte do que eu. Vê se arranjas qualquer coisa com que te entreter. Oxalá te chegue uma resposta antes do Natal.
HR afastou-se uns metros como se não desejasse chamar a atenção. Não acreditava em promessas. Se houvesse mesmo vontade, já teria recebido um sinal.
- Não te esqueças de que a minha camisa vermelha é para JLO - disse MIS.
Em redor, ouvia-se pouco do que diziam e os transeuntes pareciam apenas preocupar-se em não ser atropelados pelas centenas de carros que circulavam sem interrupção.
- Olha quem vai ali?,,, - disse MIS, de súbito, apontando com o dedo. Vai perguntar-lhe se há novidades.
Mas HR tinha-se afastado tanto que já não ouviu as palavras de MIS. Sentou-se no degrau de uma porta e deixou-se estar. Já tinham passado dois anos desde que desaparecera de casa e nunca teve provas de que alguém se tivesse interessado por saber o que lhe sucedera. Encontrara MIS ao segundo dia e jamais se haviam separado, com excepção dos períodos em que amuavam ou embirravam por qualquer razão sem importância.
MIS não queria que HR apanhasse chuva, mas HR não se importava. Preferia ser livre do que andar a esconder-se aqui e acolá. Um dia, talvez lhe acontecesse o que há tanto esperava. Seria no Verão, o tempo do calor, quando toda a gente andava quase despida na rua por entre as espumas do vapor com que os carros enchiam as avenidas.
- O importante é saber o que vem aí... - disse HR a meia voz, enquanto MIS assentia com a cabeça, como se ouvisse nitidamente o que havia escondido por detrás de cada palavra proferida.
sábado, 19 de Dezembro de 2009
terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
O rosto que nenhuma faca atravessara na boca
Estava no tempo das caras mortas, das pessoas que não têm caminhos para fugir e que são apanhadas pelo vento traiçoeiro das esquinas. Não sei explicar esse tempo das caras mortas. E também desconheço por que razão se diz o tempo das caras mortas e não simplesmente o tempo dos mortos. Mas sei que o tempo das caras mortas significa qualquer coisa que está acima do pensável ou imaginável. É uma espécie de divagação que não se sabe onde acaba, nem quando. Na minha terra de infância dizia-se tempo das caras mortas quando nada havia para fazer nas tardes que adormeciam sob o voo dolente das moscas. Se passava alguém nessas horas despidas de racionalidade, gerava-se de imediato uma possibilidade infinda de pensamentos e visões.
Também era verdade que no tempo das caras mortas partia mais gente que o habitual. Talvez de tédio ou esgotamento, inchaço ou palidez.
Nessa época, houve um dia em que eu vinha descendo a rua onde morava, quando ouço dizer atrás de mim: “Não vás! Não vás! Não olhes!”. Fez-me confusão ouvir aquela voz e quando procurei identificar quem me seguia e falava, dei-me conta de que estava tão só como quando saíra da escola. Não havia ninguém a seguir-me. Atrás de mim só havia nada e mais nada.
Tempos depois, voltei a ouvir o mesmo apelo: “Não vás!... Não olhes!...” E na semana seguinte a situação repetiu-se. Passei a fazer o percurso entre a escola e a casa onde vivia numa franja de nervos, à espera de que me dissessem para não ir, para não olhar. Eu não sabia que pensar, porque fazia rotineiramente aquele percurso sem qualquer hesitação ou desvio. Que sentido faria, por isso, estarem a dizer-me aquilo, a insistir, a matraquear?
Certa tarde, estava a rua com um grande movimento de povo que entrava e saía, em conversas baixas, quase secretas, quando me apercebi de que me tinha quedado mesmo à porta de uma casa onde havia uma cara morta.
Pus-me à espera de algo que não conseguia identificar, de algum dado que me pudesse elucidar sobre o que se passava, enquanto entrava e saía gente que nem dava pela minha presença. Por isso, deixei-me ficar, até que a luz me ferisse os olhos. E, como quem não quer a coisa, fui entrando, pé ante pé, ciente de que estava a invadir um espaço que, por qualquer motivo, me era vedado. Porém, mesmo assim, não desistia do meu suave discorrer de pés sobre o soalho que me havia de conduzir algures.
À medida que ia entrando, fui ouvindo choros abafados e dei-me conta de um cheiro intenso a flores frescas acabadas de arrancar das terras húmidas.
Não recuei porque ninguém me deu instruções nesse sentido. Nem a voz que me costumava avisar dava sinais de se preocupar com o que me sucedia daquela vez.
Naquele dia, tinha apanhado uma valente bofetada na escola por me ter enganado numa conta de multiplicar e não me apetecia chegar a casa porque receava que ainda fossem visíveis as marcas dos dedos na minha bochecha. Ainda tinha nítida na mente a mão levantada que desabara sobre mim, enquanto eu recebia a advertência de que devia pensar melhor antes de errar. Mas o erro era o meu caminho, eu nada tinha a ver com a perfeição e a sua rigorosa austeridade. Nunca havia de ter. Por isso, fora-me dado aceder ao tempo das caras mortas e, por isso, também, eu ouvia aquela voz que me seguia e ordenava para não ir, para não olhar…
Por fim, quando me encontrava bem dentro da casa onde tudo acontecia, mesmo junto à porta do primeiro quarto que se me deparou, não resisti e olhei. Olhei e vi a cara morta estendida na cama com o seu olhar arregalado para o tempo desprovido de lógica. Olhei e não consegui pensar em nada. Mas compreendi que não devia ter entrado e que não devia ter olhado. Porque ainda hoje trago comigo aquele rosto de palidez sem forma cuja boca nenhuma faca atravessara.
Também era verdade que no tempo das caras mortas partia mais gente que o habitual. Talvez de tédio ou esgotamento, inchaço ou palidez.
Nessa época, houve um dia em que eu vinha descendo a rua onde morava, quando ouço dizer atrás de mim: “Não vás! Não vás! Não olhes!”. Fez-me confusão ouvir aquela voz e quando procurei identificar quem me seguia e falava, dei-me conta de que estava tão só como quando saíra da escola. Não havia ninguém a seguir-me. Atrás de mim só havia nada e mais nada.
Tempos depois, voltei a ouvir o mesmo apelo: “Não vás!... Não olhes!...” E na semana seguinte a situação repetiu-se. Passei a fazer o percurso entre a escola e a casa onde vivia numa franja de nervos, à espera de que me dissessem para não ir, para não olhar. Eu não sabia que pensar, porque fazia rotineiramente aquele percurso sem qualquer hesitação ou desvio. Que sentido faria, por isso, estarem a dizer-me aquilo, a insistir, a matraquear?
Certa tarde, estava a rua com um grande movimento de povo que entrava e saía, em conversas baixas, quase secretas, quando me apercebi de que me tinha quedado mesmo à porta de uma casa onde havia uma cara morta.
Pus-me à espera de algo que não conseguia identificar, de algum dado que me pudesse elucidar sobre o que se passava, enquanto entrava e saía gente que nem dava pela minha presença. Por isso, deixei-me ficar, até que a luz me ferisse os olhos. E, como quem não quer a coisa, fui entrando, pé ante pé, ciente de que estava a invadir um espaço que, por qualquer motivo, me era vedado. Porém, mesmo assim, não desistia do meu suave discorrer de pés sobre o soalho que me havia de conduzir algures.
À medida que ia entrando, fui ouvindo choros abafados e dei-me conta de um cheiro intenso a flores frescas acabadas de arrancar das terras húmidas.
Não recuei porque ninguém me deu instruções nesse sentido. Nem a voz que me costumava avisar dava sinais de se preocupar com o que me sucedia daquela vez.
Naquele dia, tinha apanhado uma valente bofetada na escola por me ter enganado numa conta de multiplicar e não me apetecia chegar a casa porque receava que ainda fossem visíveis as marcas dos dedos na minha bochecha. Ainda tinha nítida na mente a mão levantada que desabara sobre mim, enquanto eu recebia a advertência de que devia pensar melhor antes de errar. Mas o erro era o meu caminho, eu nada tinha a ver com a perfeição e a sua rigorosa austeridade. Nunca havia de ter. Por isso, fora-me dado aceder ao tempo das caras mortas e, por isso, também, eu ouvia aquela voz que me seguia e ordenava para não ir, para não olhar…
Por fim, quando me encontrava bem dentro da casa onde tudo acontecia, mesmo junto à porta do primeiro quarto que se me deparou, não resisti e olhei. Olhei e vi a cara morta estendida na cama com o seu olhar arregalado para o tempo desprovido de lógica. Olhei e não consegui pensar em nada. Mas compreendi que não devia ter entrado e que não devia ter olhado. Porque ainda hoje trago comigo aquele rosto de palidez sem forma cuja boca nenhuma faca atravessara.
domingo, 22 de Novembro de 2009
Da sombra
Anos depois, voltei ao local onde as coisas aconteceram. Há alguns meses que pensava fazê-lo, mas fui adiando sempre a decisão. Até que chegou o dia.
O sol caía na estrada em forma de tromba de água e eu avançava como se fosse aquela a primeira vez que me dirigia a uma cidade onde fora razoavelmente feliz, mas onde não deixara sequer uma amizade.
Demorei mais de uma hora a acertar com o sítio. Havia árvores novas na zona e quase me ia perdendo. Procurei uma sombra no pequeno parque de estacionamento que ficava nas traseiras da casa e deixei-me estar uns momentos a sorver as brisas que batiam contra as paredes brancas à minha volta.
Por mais que tentasse recordar-me do contexto em que tudo sucedera, não o conseguia. Havia uma nuvem que me perseguia, dançando como uma tarântula diante dos meus olhos.
Tenho ideia de me ter quedado uns momentos à porta do quarto e de me ter posto a olhar aquelas duas monstruosidades ao comprido na cama. Um dos corpos estava de barriga para o ar e dava-me a impressão de já ter visto a sua cara. Mas não fiz grande esforço para tentar saber de quem se tratava. Senti que não valia a pena.
Quando avancei, certifiquei-me primeiro com o pé, depois com o joelho e, por fim, com a ponta dos dedos. Mas foi um esforço em vão. Nem parecia estarem ali duas vidas.
Na cozinha, havia gente a jogar às cartas, por entre olhares pesados que se movimentavam nas sombras. Creio que não havia mais ninguém nos outros quartos. A esta distância no tempo, é difícil recordar pormenores.
Eu andava por ali, a ver em que paravam as modas, porque não tinha mais nada com que me entreter. Só me restava esperar.
Mas o serão prolongou-se e, a certa altura, achei melhor ir dar uma volta. Saí pela porta das traseiras e, quando me dirigia para o carro, reparei que havia uma janela aberta com um ar convidativo a que não resisti. Aproximei-me e vi os tais dois montes de carne deformados sobre a cama, na mesmíssima posição de antes.
Não pensei duas vezes. Entrei pela janela e resolvi o caso com os travesseiros. Não foi difícil porque não houve tempo para hesitações. A dado momento, pareceu-me ter ouvido uns gemidos, mas decidi que se tratava de ilusão minha e não voltei a pensar no assunto.
Não senti remorsos porque nunca soube exactamente quem eram as pessoas, onde tinham nascido, qual a sua idade e profissão.
Saltei pela janela, enfiei-me no carro e desapareci.
De regresso ao sítio, anos depois, respirei tranquilamente antes de bater à porta. Ao fim de uns momentos, insisti. A campainha retinia desesperada. Pelo intercomunicador, disseram-me para entrar e esperar. Obedeci e fui andando na direcção da cozinha. Estava tudo diferente. Só o chão não fora substituído.
Como demoravam a atender-me, atrevi-me a dar mais uns passos no corredor e a espreitar para o quarto que, este sim, eu recordava com nitidez cirúrgica. Tinha sido transformado em sala de estar. Deitada na alcatifa, uma criança rechonchuda e loira via televisão e chupava um pequeno carro de metal. Ao ver-me, sorriu como um pássaro. E tossiu. Depois, levantou-se, cambaleante, por entre resmungos, e avançou para mim com cara de quem se aprontava para me agredir.
Sem tempo para me recompor da surpresa, recuei e procurei refúgio na cozinha, escondendo-me num dos vãos do frigorífico. Esperei. Sem me mexer. Enquanto ia ouvindo, cada vez mais perto, a uma velocidade estrepitosa, os passos da criança e os seus intermináveis impropérios…
O sol caía na estrada em forma de tromba de água e eu avançava como se fosse aquela a primeira vez que me dirigia a uma cidade onde fora razoavelmente feliz, mas onde não deixara sequer uma amizade.
Demorei mais de uma hora a acertar com o sítio. Havia árvores novas na zona e quase me ia perdendo. Procurei uma sombra no pequeno parque de estacionamento que ficava nas traseiras da casa e deixei-me estar uns momentos a sorver as brisas que batiam contra as paredes brancas à minha volta.
Por mais que tentasse recordar-me do contexto em que tudo sucedera, não o conseguia. Havia uma nuvem que me perseguia, dançando como uma tarântula diante dos meus olhos.
Tenho ideia de me ter quedado uns momentos à porta do quarto e de me ter posto a olhar aquelas duas monstruosidades ao comprido na cama. Um dos corpos estava de barriga para o ar e dava-me a impressão de já ter visto a sua cara. Mas não fiz grande esforço para tentar saber de quem se tratava. Senti que não valia a pena.
Quando avancei, certifiquei-me primeiro com o pé, depois com o joelho e, por fim, com a ponta dos dedos. Mas foi um esforço em vão. Nem parecia estarem ali duas vidas.
Na cozinha, havia gente a jogar às cartas, por entre olhares pesados que se movimentavam nas sombras. Creio que não havia mais ninguém nos outros quartos. A esta distância no tempo, é difícil recordar pormenores.
Eu andava por ali, a ver em que paravam as modas, porque não tinha mais nada com que me entreter. Só me restava esperar.
Mas o serão prolongou-se e, a certa altura, achei melhor ir dar uma volta. Saí pela porta das traseiras e, quando me dirigia para o carro, reparei que havia uma janela aberta com um ar convidativo a que não resisti. Aproximei-me e vi os tais dois montes de carne deformados sobre a cama, na mesmíssima posição de antes.
Não pensei duas vezes. Entrei pela janela e resolvi o caso com os travesseiros. Não foi difícil porque não houve tempo para hesitações. A dado momento, pareceu-me ter ouvido uns gemidos, mas decidi que se tratava de ilusão minha e não voltei a pensar no assunto.
Não senti remorsos porque nunca soube exactamente quem eram as pessoas, onde tinham nascido, qual a sua idade e profissão.
Saltei pela janela, enfiei-me no carro e desapareci.
De regresso ao sítio, anos depois, respirei tranquilamente antes de bater à porta. Ao fim de uns momentos, insisti. A campainha retinia desesperada. Pelo intercomunicador, disseram-me para entrar e esperar. Obedeci e fui andando na direcção da cozinha. Estava tudo diferente. Só o chão não fora substituído.
Como demoravam a atender-me, atrevi-me a dar mais uns passos no corredor e a espreitar para o quarto que, este sim, eu recordava com nitidez cirúrgica. Tinha sido transformado em sala de estar. Deitada na alcatifa, uma criança rechonchuda e loira via televisão e chupava um pequeno carro de metal. Ao ver-me, sorriu como um pássaro. E tossiu. Depois, levantou-se, cambaleante, por entre resmungos, e avançou para mim com cara de quem se aprontava para me agredir.
Sem tempo para me recompor da surpresa, recuei e procurei refúgio na cozinha, escondendo-me num dos vãos do frigorífico. Esperei. Sem me mexer. Enquanto ia ouvindo, cada vez mais perto, a uma velocidade estrepitosa, os passos da criança e os seus intermináveis impropérios…
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Corpo sem pátria
Ao chegar a um aeroporto, detenho-me a olhar táxis afogueados que despejam passageiros, portas de vidro que abrem e fecham à medida de quem entra e sai, agentes de segurança, empregados de companhias aéreas, agências de viagem e carros de aluguer, carrinhos de transporte de bagagem, quadros electrónicos informando sobre horas e destinos.
A seguir, entro… e avanço para a primeira tabacaria que encontro, pondo-me a ler títulos de jornais enfileirados nos expositores, nas mais diversas línguas, umas que me são perceptíveis, outras que não. Vejo revistas (de arte, moda, carros, natureza, arquitectura…), malas de bagagem, livros, prendas de ocasião, enquanto ao mesmo tempo observo pessoas que vagueiam por entre prateleiras e conjecturo acerca de quem serão e do que pensarão conforme os objectos diante dos quais se detêm. Há quem olhe à distância e há quem se aproxime e toque nos artigos, como se quisesse apurar se têm vida, ou não.
Quando considero que já estou ao corrente do que se passa no mundo, das tendências do design e das modas, procuro um bar, onde tomo o primeiro café do dia, essencial para a minha revitalização. Peço também uma sandes e poiso a mochila, que encosto a um dos pés, para ter a certeza de que não desaparecerá.
Dali, sigo para a zona das lojas, onde, geralmente sem passar da porta, me ponho a mirar o que têm à venda. Nunca gostei de entrar num estabelecimento comercial sem intenções de comprar, para não criar falsas expectativas em quem lá trabalha. Além disso, detesto que me abordem e perguntem com voz melosa se preciso de ajuda. Por isso, muitas vezes, olho apenas à distância, para que fique claro que não tenciono adquirir o que quer que seja.
Quando me canso de ver sabonetes, gravatas, perfumes, chocolates, sento-me numa mesa, com uma garrafa de água na frente, e ponho-me a ler um livro, ou a estudar rostos que desfilam a caminho deste ou daquele país. São sempre imprevisíveis os rumos que levam as pessoas num aeroporto. Há as que avançam com olhos de ansiedade e as que empurram malas de todos os tamanhos e cores pelos corredores amplos, enquanto procuram informação sobre algum pormenor ou um simples transporte que as conduza a um hotel, ou a casa de alguém. Num aeroporto, o mundo inteiro passa à nossa frente: árabes, japoneses, africanos, coreanos, ingleses, italianos, americanos, brasileiros, gente de todas as latitudes, em silêncio ou falando pelos cotovelos, em passo apressado para chegar ao seu destino, ou em ritmo de passeio para sentir o ar da cidade, ou apenas dormitando nas cadeiras.
Sempre que passo num aeroporto, procuro descobrir recantos e espaços que me possam acolher, caso, um dia, venha a ter oportunidade de viver na fronteira de todos os países. É uma hipótese que me persegue. E que me alicia.
Já ouvi falar de alguém que vive num aeroporto não sei de que país, alguém que perdeu o passaporte, salvo erro, e que por ali se deixou ficar. Li a reportagem da primeira à última linha. Nunca consegui deixar de me projectar nesse caso. Penso que cheguei a guardar o jornal. Muitas vezes, invejei essa pessoa e sonhei apoderar-me do seu corpo sem pátria a viver no meio de gente desconhecida, gente tão próxima, tão semelhante, tão fugaz.
Não interessa onde seja o aeroporto que me queira receber. Na Austrália, no Peru, na Islândia, tanto se me dá. O que quero é ter à minha volta seres de todas as nacionalidades, línguas e feitios, para que, através deles, eu possa estar sempre em toda a parte e não estar em nenhuma.
A seguir, entro… e avanço para a primeira tabacaria que encontro, pondo-me a ler títulos de jornais enfileirados nos expositores, nas mais diversas línguas, umas que me são perceptíveis, outras que não. Vejo revistas (de arte, moda, carros, natureza, arquitectura…), malas de bagagem, livros, prendas de ocasião, enquanto ao mesmo tempo observo pessoas que vagueiam por entre prateleiras e conjecturo acerca de quem serão e do que pensarão conforme os objectos diante dos quais se detêm. Há quem olhe à distância e há quem se aproxime e toque nos artigos, como se quisesse apurar se têm vida, ou não.
Quando considero que já estou ao corrente do que se passa no mundo, das tendências do design e das modas, procuro um bar, onde tomo o primeiro café do dia, essencial para a minha revitalização. Peço também uma sandes e poiso a mochila, que encosto a um dos pés, para ter a certeza de que não desaparecerá.
Dali, sigo para a zona das lojas, onde, geralmente sem passar da porta, me ponho a mirar o que têm à venda. Nunca gostei de entrar num estabelecimento comercial sem intenções de comprar, para não criar falsas expectativas em quem lá trabalha. Além disso, detesto que me abordem e perguntem com voz melosa se preciso de ajuda. Por isso, muitas vezes, olho apenas à distância, para que fique claro que não tenciono adquirir o que quer que seja.
Quando me canso de ver sabonetes, gravatas, perfumes, chocolates, sento-me numa mesa, com uma garrafa de água na frente, e ponho-me a ler um livro, ou a estudar rostos que desfilam a caminho deste ou daquele país. São sempre imprevisíveis os rumos que levam as pessoas num aeroporto. Há as que avançam com olhos de ansiedade e as que empurram malas de todos os tamanhos e cores pelos corredores amplos, enquanto procuram informação sobre algum pormenor ou um simples transporte que as conduza a um hotel, ou a casa de alguém. Num aeroporto, o mundo inteiro passa à nossa frente: árabes, japoneses, africanos, coreanos, ingleses, italianos, americanos, brasileiros, gente de todas as latitudes, em silêncio ou falando pelos cotovelos, em passo apressado para chegar ao seu destino, ou em ritmo de passeio para sentir o ar da cidade, ou apenas dormitando nas cadeiras.
Sempre que passo num aeroporto, procuro descobrir recantos e espaços que me possam acolher, caso, um dia, venha a ter oportunidade de viver na fronteira de todos os países. É uma hipótese que me persegue. E que me alicia.
Já ouvi falar de alguém que vive num aeroporto não sei de que país, alguém que perdeu o passaporte, salvo erro, e que por ali se deixou ficar. Li a reportagem da primeira à última linha. Nunca consegui deixar de me projectar nesse caso. Penso que cheguei a guardar o jornal. Muitas vezes, invejei essa pessoa e sonhei apoderar-me do seu corpo sem pátria a viver no meio de gente desconhecida, gente tão próxima, tão semelhante, tão fugaz.
Não interessa onde seja o aeroporto que me queira receber. Na Austrália, no Peru, na Islândia, tanto se me dá. O que quero é ter à minha volta seres de todas as nacionalidades, línguas e feitios, para que, através deles, eu possa estar sempre em toda a parte e não estar em nenhuma.
sábado, 24 de Outubro de 2009
Transição
Paro numa estação de combustível para saber o que vai no ar, para desentorpecer. O vento segue-me desde que saí de casa e preciso de espairecer, embora só tenha conduzido cerca de dez minutos. Mesmo assim, decido parar, para quebrar a rotina, o que já significa muito.
É pouco provável encontrar alguém conhecido. Mas, se tal suceder, limitar-me-ei a cumprimentar vagamente como quem não vê bem… como quem está de passagem, e eu estou.
A estrada é a minha liberdade, nem que seja por meia dúzia de minutos.
Quando me aborreço, meto-me no carro e vou dar uma volta, para apreciar bermas de ruas, prédios, árvores, sombras que o vento agita. Enquanto isso, paro numa bomba de gasolina e recupero espírito.
Quando me meto à estrada, esqueço tudo o que me aconteceu naquele dia e em todos os anos que vivi. É como se começasse uma nova vida, cuja lógica tem a ver com o que encontro nas estações de combustível.
Basta-me entrar e verificar que tenho ao meu dispor café, sandes, pastilhas elásticas, jornais, revistas, máquina de dinheiro… O mundo todo resume-se ao que refulge ante os meus olhos.
Mesmo quando vou a caminho de alguma tarefa, ou reunião, com hora marcada, não resisto a deter-me por rápidos minutos na primeira bomba de gasolina que se me depara, correndo o risco de me atrasar para o compromisso, eu que por nenhuma razão deste mundo deixo de chegar a horas, onde quer que vá.
Parar numa estação é dispor do meu direito a interromper a vida e não pensar em nada. Esquivo-me por detrás de umas prateleiras, consulto a minha conta bancária, bebo um café bem amargo e é como se entrasse noutra dimensão.
É um intervalo no curso do dia. Quando não sei o que escolher, o que comprar, trago uma garrafa de água e isso basta para me fazer sentir outra pessoa. O simples facto de ter uma garrafa de água na mão dá-me alento para enfrentar as coisas com que me depararei nos minutos seguintes, dá-me a noção de ser mais pessoa.
Não compro jornais, mas não resisto a passar os olhos pelas primeiras páginas, para ficar a saber o que vai acontecendo aqui e ali.
Quem reparar em mim numa estação de combustível verá, decerto, o meu olhar perdido na paisagem de vidro e dispensar-se-á de tentar apurar quem sou e o que faço num sítio daqueles. Olhar-me-á e não terá qualquer necessidade de se aproximar, não sentirá qualquer atracção.
Uma estação de combustível marca a minha distância dos acontecimentos e das pessoas. Permite-me interromper uma qualquer viagem. É uma suspensão que adia tudo. Se eu ficar em casa, a velhice toma conta de mim e torna-me frágil, enterra-me no silêncio do tempo. Se for a conduzir na estrada, o tempo corre veloz e tudo se precipita.
Numa bomba de gasolina, nada me afecta. Tudo o que acontece, bom ou mau, é transitório. Um momento breve, sem história. Como se eu vá durar apenas mais uns dias…
É pouco provável encontrar alguém conhecido. Mas, se tal suceder, limitar-me-ei a cumprimentar vagamente como quem não vê bem… como quem está de passagem, e eu estou.
A estrada é a minha liberdade, nem que seja por meia dúzia de minutos.
Quando me aborreço, meto-me no carro e vou dar uma volta, para apreciar bermas de ruas, prédios, árvores, sombras que o vento agita. Enquanto isso, paro numa bomba de gasolina e recupero espírito.
Quando me meto à estrada, esqueço tudo o que me aconteceu naquele dia e em todos os anos que vivi. É como se começasse uma nova vida, cuja lógica tem a ver com o que encontro nas estações de combustível.
Basta-me entrar e verificar que tenho ao meu dispor café, sandes, pastilhas elásticas, jornais, revistas, máquina de dinheiro… O mundo todo resume-se ao que refulge ante os meus olhos.
Mesmo quando vou a caminho de alguma tarefa, ou reunião, com hora marcada, não resisto a deter-me por rápidos minutos na primeira bomba de gasolina que se me depara, correndo o risco de me atrasar para o compromisso, eu que por nenhuma razão deste mundo deixo de chegar a horas, onde quer que vá.
Parar numa estação é dispor do meu direito a interromper a vida e não pensar em nada. Esquivo-me por detrás de umas prateleiras, consulto a minha conta bancária, bebo um café bem amargo e é como se entrasse noutra dimensão.
É um intervalo no curso do dia. Quando não sei o que escolher, o que comprar, trago uma garrafa de água e isso basta para me fazer sentir outra pessoa. O simples facto de ter uma garrafa de água na mão dá-me alento para enfrentar as coisas com que me depararei nos minutos seguintes, dá-me a noção de ser mais pessoa.
Não compro jornais, mas não resisto a passar os olhos pelas primeiras páginas, para ficar a saber o que vai acontecendo aqui e ali.
Quem reparar em mim numa estação de combustível verá, decerto, o meu olhar perdido na paisagem de vidro e dispensar-se-á de tentar apurar quem sou e o que faço num sítio daqueles. Olhar-me-á e não terá qualquer necessidade de se aproximar, não sentirá qualquer atracção.
Uma estação de combustível marca a minha distância dos acontecimentos e das pessoas. Permite-me interromper uma qualquer viagem. É uma suspensão que adia tudo. Se eu ficar em casa, a velhice toma conta de mim e torna-me frágil, enterra-me no silêncio do tempo. Se for a conduzir na estrada, o tempo corre veloz e tudo se precipita.
Numa bomba de gasolina, nada me afecta. Tudo o que acontece, bom ou mau, é transitório. Um momento breve, sem história. Como se eu vá durar apenas mais uns dias…
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
Regresso com mala pesada
Quando saí do avião, mal pus o nariz de fora, tive a impressão de não ter chegado à minha terra. Mas estava longe de imaginar o que me esperava. Calculei que ao fim de mais de vinte anos nem tudo se encontraria na mesma. Mas alguma coisa havia de ter permanecido. Por mais gente que se tivesse ido embora, eu acalentava a esperança de abraçar alguém do meu tempo de juventude.
Peguei na mala e avancei para a fila de táxis. Ainda pus a hipótese de me deparar com um rosto familiar, mas depressa me desiludi.
Sentei-me no banco traseiro e disse para onde pretendia seguir. O motorista resmungou qualquer coisa entre dentes e carregou no acelerador como se tivesse pressa de me despejar.
Havia agora uma nova estrada que conduzia à freguesia onde eu nascera. Ao fim de cerca de um quarto de hora de caminho, entrámos na aldeia e pude reparar nas casas atarracadas que tombavam de velhas sobre as ruas.
Pedi para descer diante da igreja. Paguei, saí do carro e, de mala na mão, pus-me a olhar a manhã cinzenta e fresca. Algumas pessoas, que mal me olharam, de faces rebaixadas, pareciam ter medo de enfrentar os torvelinhos do dia.
Orientei-me pela memória e segui para a rua onde morava JED, uma das minhas amizades de infância, cujo rasto eu perdera há anos. Recordava a sua casa com nitidez e até podia calcular quantos passos precisaria de dar para chegar à sua porta. Mas só quando estendi o dedo para a campainha é que me dei conta da podridão e das teias de aranha que infestavam frinchas e gretas. Fiquei de braço no ar, olhando em volta, para as casas vizinhas, onde não se via vivalma. Nesse preciso instante, passou um carro, que abrandou ao passar por mim, mas quando fiz sinal de perguntar alguma coisa, desapareceu num ápice.
Encaminhei-me para a casa de HV, na esperança de ter mais sorte. Recebera notícias suas havia cerca de dois anos, por isso não contava com nova desilusão. Mas, ao dobrar a esquina da rua onde HV sempre vivera, vi que a sua casa simplesmente desaparecera. Bati na porta do lado e consegui que um nariz adunco espreitasse por uma nesga e me informasse que HV tinha falecido há cerca de seis meses e que a casa fora vendida e demolida, prevendo-se que ali fosse construída uma loja de mobílias.
Desci a rua e entrei num dos cafés em outros tempos frequentado por gente conhecida. O espaço estava obscurecido por um peso invisível. Duas sombras jogavam dominó, ante o olhar de uma terceira e, ao balcão, não se via ninguém.
Não abri a boca, para não distrair quem jogava, e esperei que me atendessem. Quando finalmente surgiu alguém que se pôs a mexer na caixa do dinheiro e me perguntou o que pretendia, fiquei sem palavras. Pareceu-me conhecer o seu rosto redondo e macilento. Tentei identificá-lo, mas as suas esquivas eram metódica e persistentes. Pensei que poderia tratar-se de alguém com feições parecidas e também considerei a possibilidade de haver confusão da minha parte. Acabei por comprar uma caixa de fósforos e sair sem querer saber de mais nada.
Fui sentar-me à porta da igreja, tentando organizar as ideias. A mala pesava e o que eu sentia na alma pesava mais do que a mala. Ao fim de uns minutos, entrei no templo e deixei-me levar pela leveza esmagadora do incenso que enchia a massa de ar obscurecida pelas paredes grossas e frias. Ajoelhei para dizer umas rezas, mas depressa me desconcentrei porque, a poucos centímetros de mim, havia um murganho a observar-me. Senti um ligeiro arrepio, mas logo a seguir reflecti que o pequeno roedor estaria apenas a interrogar-se sobre quem eu era, de onde vinha, ao que vinha. A sua aparência frágil acabou por me cativar. No fim de contas, aquele fora o único ser vivo que ocupara uns breves minutos do seu dia a olhar-me com intenção e perspicácia. E fê-lo com tamanha devoção que, no fundo dos seus olhos minúsculos, creio mesmo ter chegado a divisar uma réstia de calor quase humano…
Peguei na mala e avancei para a fila de táxis. Ainda pus a hipótese de me deparar com um rosto familiar, mas depressa me desiludi.
Sentei-me no banco traseiro e disse para onde pretendia seguir. O motorista resmungou qualquer coisa entre dentes e carregou no acelerador como se tivesse pressa de me despejar.
Havia agora uma nova estrada que conduzia à freguesia onde eu nascera. Ao fim de cerca de um quarto de hora de caminho, entrámos na aldeia e pude reparar nas casas atarracadas que tombavam de velhas sobre as ruas.
Pedi para descer diante da igreja. Paguei, saí do carro e, de mala na mão, pus-me a olhar a manhã cinzenta e fresca. Algumas pessoas, que mal me olharam, de faces rebaixadas, pareciam ter medo de enfrentar os torvelinhos do dia.
Orientei-me pela memória e segui para a rua onde morava JED, uma das minhas amizades de infância, cujo rasto eu perdera há anos. Recordava a sua casa com nitidez e até podia calcular quantos passos precisaria de dar para chegar à sua porta. Mas só quando estendi o dedo para a campainha é que me dei conta da podridão e das teias de aranha que infestavam frinchas e gretas. Fiquei de braço no ar, olhando em volta, para as casas vizinhas, onde não se via vivalma. Nesse preciso instante, passou um carro, que abrandou ao passar por mim, mas quando fiz sinal de perguntar alguma coisa, desapareceu num ápice.
Encaminhei-me para a casa de HV, na esperança de ter mais sorte. Recebera notícias suas havia cerca de dois anos, por isso não contava com nova desilusão. Mas, ao dobrar a esquina da rua onde HV sempre vivera, vi que a sua casa simplesmente desaparecera. Bati na porta do lado e consegui que um nariz adunco espreitasse por uma nesga e me informasse que HV tinha falecido há cerca de seis meses e que a casa fora vendida e demolida, prevendo-se que ali fosse construída uma loja de mobílias.
Desci a rua e entrei num dos cafés em outros tempos frequentado por gente conhecida. O espaço estava obscurecido por um peso invisível. Duas sombras jogavam dominó, ante o olhar de uma terceira e, ao balcão, não se via ninguém.
Não abri a boca, para não distrair quem jogava, e esperei que me atendessem. Quando finalmente surgiu alguém que se pôs a mexer na caixa do dinheiro e me perguntou o que pretendia, fiquei sem palavras. Pareceu-me conhecer o seu rosto redondo e macilento. Tentei identificá-lo, mas as suas esquivas eram metódica e persistentes. Pensei que poderia tratar-se de alguém com feições parecidas e também considerei a possibilidade de haver confusão da minha parte. Acabei por comprar uma caixa de fósforos e sair sem querer saber de mais nada.
Fui sentar-me à porta da igreja, tentando organizar as ideias. A mala pesava e o que eu sentia na alma pesava mais do que a mala. Ao fim de uns minutos, entrei no templo e deixei-me levar pela leveza esmagadora do incenso que enchia a massa de ar obscurecida pelas paredes grossas e frias. Ajoelhei para dizer umas rezas, mas depressa me desconcentrei porque, a poucos centímetros de mim, havia um murganho a observar-me. Senti um ligeiro arrepio, mas logo a seguir reflecti que o pequeno roedor estaria apenas a interrogar-se sobre quem eu era, de onde vinha, ao que vinha. A sua aparência frágil acabou por me cativar. No fim de contas, aquele fora o único ser vivo que ocupara uns breves minutos do seu dia a olhar-me com intenção e perspicácia. E fê-lo com tamanha devoção que, no fundo dos seus olhos minúsculos, creio mesmo ter chegado a divisar uma réstia de calor quase humano…
sábado, 19 de Setembro de 2009
O chão que piso
O que aqui vou escrevendo constitui quase exclusivamente o mundo em que vivo. Publico neste espaço dois textos por mês, mas antes de os escrever e finalizar ocupo uns dias a pensar nos temas que poderei abordar. Não me empenho muito, nem me preocupo. Deixo correr as coisas. Mas estou sempre alerta com o que acontece, a ver se surge algo que me alimente uma prosa.
Por vezes, não me ocorre nada que eu considere válido. As ideias parecem-me ocas e sensaboronas, o que me leva a deixar passar umas horas, ou até dias. Fecho a página e entretenho-me com qualquer coisa. Outras vezes, quando menos espero, vou a conduzir na estrada e salta-me uma ideia que considero digna e detentora de potencial. Para não a esquecer, encosto o carro à berma e anoto as linhas gerais na agenda electrónica. Mais tarde, escrevo sobre as notas que tomei, leio e releio, até me parecer que o texto está publicável. Enquanto não o dou por terminado, comprazo-me a geri-lo, moldá-lo, ajeitá-lo às circunstâncias e exigências.
O terreno sobre o qual assenta boa parte do meu quotidiano é feito das reflexões vagas e ligeiras que dão corpo ao que escrevo. E quanto mais tempo decorre sobre o dia em que dei início a esta experiência, quanto mais textos acumulo, mais consistente se torna o chão que piso.
Há ocasiões em que me deparo com um problema e em vez de o resolver, afasto-o, pondo-me a pensar num texto para incluir neste conjunto. Envolvo-me, evado-me, supero a realidade, passo adiante. Faço-o com gosto. Intencionalmente. E verifico depois que o problema nem sequer era particularmente complexo.
Um romance não tem o mesmo efeito destes textos curtos e não calculados. Nem tem o mesmo poder sobre o dia a dia. É possível alguém desaparecer nas páginas de um romance, mas corre o risco de, mais tarde, não encontrar o caminho de volta à realidade. Um romance é demasiado vertiginoso, demasiado absorvente. Não permite que se entre e saia com facilidade. Exige entrega total por dias, semanas, meses. Pode tornar-se uma vivência perigosa.
Estes textos curtos, não. São um estímulo sem consequências. Vêm e vão depressa. Confundem-se com a realidade. Não têm temática, são imprevisíveis, livres, despretensiosos e acabam por materializar um solo, uma ilha, uma cidade, com uma série de feitos, ideias, pessoas/personagens, projectos, visões, expectativas.
Neste espaço geográfico a que dei o nome de Digressão, nunca sei o que vai acontecer, se já aconteceu ou se está a acontecer. É tudo demasiado volátil para valer a pena apurar. Nada é programado. Os acontecimentos são vividos ao correr da pena.
Quando comecei este processo, não imaginava a importância que o mesmo teria na minha organização mental quotidiana. É como se estes textos fossem pedras de calçada, cápsulas vitamínicas. Obrigam-me a reflectir, observar, seguir o destino de ocorrências, divagações sensíveis, surpresas labirínticas. O que escrevo aqui tornou-se o caminho palpável das minhas horas.
Hoje, discorro sobre o próprio sentido destas prosas porque a sua lógica global não me impede de explorar seja que caminho for. Esmiuçar esta digressão é uma maneira de me situar no universo que habito, uma oportunidade de me balizar e orientar em cada passo que vou dando...
Por vezes, não me ocorre nada que eu considere válido. As ideias parecem-me ocas e sensaboronas, o que me leva a deixar passar umas horas, ou até dias. Fecho a página e entretenho-me com qualquer coisa. Outras vezes, quando menos espero, vou a conduzir na estrada e salta-me uma ideia que considero digna e detentora de potencial. Para não a esquecer, encosto o carro à berma e anoto as linhas gerais na agenda electrónica. Mais tarde, escrevo sobre as notas que tomei, leio e releio, até me parecer que o texto está publicável. Enquanto não o dou por terminado, comprazo-me a geri-lo, moldá-lo, ajeitá-lo às circunstâncias e exigências.
O terreno sobre o qual assenta boa parte do meu quotidiano é feito das reflexões vagas e ligeiras que dão corpo ao que escrevo. E quanto mais tempo decorre sobre o dia em que dei início a esta experiência, quanto mais textos acumulo, mais consistente se torna o chão que piso.
Há ocasiões em que me deparo com um problema e em vez de o resolver, afasto-o, pondo-me a pensar num texto para incluir neste conjunto. Envolvo-me, evado-me, supero a realidade, passo adiante. Faço-o com gosto. Intencionalmente. E verifico depois que o problema nem sequer era particularmente complexo.
Um romance não tem o mesmo efeito destes textos curtos e não calculados. Nem tem o mesmo poder sobre o dia a dia. É possível alguém desaparecer nas páginas de um romance, mas corre o risco de, mais tarde, não encontrar o caminho de volta à realidade. Um romance é demasiado vertiginoso, demasiado absorvente. Não permite que se entre e saia com facilidade. Exige entrega total por dias, semanas, meses. Pode tornar-se uma vivência perigosa.
Estes textos curtos, não. São um estímulo sem consequências. Vêm e vão depressa. Confundem-se com a realidade. Não têm temática, são imprevisíveis, livres, despretensiosos e acabam por materializar um solo, uma ilha, uma cidade, com uma série de feitos, ideias, pessoas/personagens, projectos, visões, expectativas.
Neste espaço geográfico a que dei o nome de Digressão, nunca sei o que vai acontecer, se já aconteceu ou se está a acontecer. É tudo demasiado volátil para valer a pena apurar. Nada é programado. Os acontecimentos são vividos ao correr da pena.
Quando comecei este processo, não imaginava a importância que o mesmo teria na minha organização mental quotidiana. É como se estes textos fossem pedras de calçada, cápsulas vitamínicas. Obrigam-me a reflectir, observar, seguir o destino de ocorrências, divagações sensíveis, surpresas labirínticas. O que escrevo aqui tornou-se o caminho palpável das minhas horas.
Hoje, discorro sobre o próprio sentido destas prosas porque a sua lógica global não me impede de explorar seja que caminho for. Esmiuçar esta digressão é uma maneira de me situar no universo que habito, uma oportunidade de me balizar e orientar em cada passo que vou dando...
quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
Terror
Deviam ser onze e tal da noite. Talvez onze e vinte. A esta distância no tempo, não posso recordar com exactidão, mas sei que faltava qualquer coisa para as onze e meia. Por isso, o mais certo é dizer que deviam ser onze e vinte, onze e vinte e três no máximo.
Lembro-me de vir a correr pela rua abaixo, sob uma iluminação deficiente, olhando para trás, a ver se me safava. Quanto mais olhava para trás, mais corria, na ânsia de me livrar daquela perseguição.
O filme acabara pouco depois das onze da noite. Naquele dia, JES e eu conseguíramos autorização para ir ao cinema. A custo, e debaixo de uma chuva de avisos, obtivemos o “sim” que nos fez sair de casa aos pulos, com um sentimento de autonomia que estava longe de corresponder à nossa realidade de todos os dias.
Seguimos para o cinema, confiantes, na esperança de uma noite bem passada. Sabíamos que íamos ver um filme de terror, mas não tínhamos ideia do que isso significava.
Por ter mais idade, foi JES quem comprou os bilhetes. Sentámo-nos na segunda ou terceira fila do balcão e esperámos que as luzes se apagassem.
Não consigo recordar pormenores da película. Perdeu-se tudo com o tempo, menos aquele rosto que me infundiu um terror tal que ainda hoje me arrepio só de o recordar.
Durante a exibição do filme, JES não deu sinais de amedrontamento. Manteve-se em sossego no assento, sem que se lhe ouvisse o mínimo rumor. Talvez estivesse em pânico, mas eu não tinha maneira de o saber.
Eu só rezava para que a fita terminasse. Desconhecia que podia abandonar a sala a qualquer momento. E mesmo que não o desconhecesse, seria incapaz de me ir embora sem a companhia de alguém. E a verdade é que sempre que olhava pelo canto do olho via JES em total imobilidade na cadeira, o que me fazia desanimar por completo e desistir de qualquer tentativa de fuga.
Suportei o tormento até ao fim. Mas quando as luzes da sala se acenderam o que me veio à cabeça foi o percurso que me faltava fazer para chegar a casa. Enquanto as pessoas iam abandonando a sala lentamente, eu ainda tinha o conforto da sua companhia, que era suficiente para afastar o medo. O pior viria depois.
Logo que dei comigo na rua, olhei para JES, com vista a observar a sua reacção e decidir o que faria.
Não demorei a ver esclarecida a minha curiosidade: sem dizer palavra, JES desatou a correr com todas as suas forças pela rua adiante, obrigando-me a seguir-lhe os passos.
Era noite escura, noite de breu, noite sem lua nem estrelas. Desatei a correr tanto, ou mais, do que JES. Não sei onde arranjei alento, mas corri como se Deus me tivesse dado mil pernas para calcorrear a distância que me separava de casa. Era curto o trajecto, mas pareceu-me o mais longo que alguma vez percorri.
Por mais rápida que fosse a nossa fuga, dava a sensação de estarmos sempre no mesmo lugar. Por vezes, eu seguia ligeiramente à frente de JES, outras vezes seguia ligeiramente atrás. Mas não havia maneira de chegarmos à porta da casa onde vivíamos, para podermos entrar, acender a luz do nosso quarto de dormir e respirar de alívio.
Durante a infindável corrida, nunca deixei de sentir a perseguição daquele rosto cadavérico envolto em teias de aranha que insistia em manter-se dois ou três metros atrás de mim. Perseguiu-me sempre essa caveira descarnada, lisa, sorridente. Perseguiu-me durante dezenas de anos, como se pode comprovar por este texto que, ainda hoje, aos cinquenta e cinco anos de idade, tive necessidade de escrever…
Lembro-me de vir a correr pela rua abaixo, sob uma iluminação deficiente, olhando para trás, a ver se me safava. Quanto mais olhava para trás, mais corria, na ânsia de me livrar daquela perseguição.
O filme acabara pouco depois das onze da noite. Naquele dia, JES e eu conseguíramos autorização para ir ao cinema. A custo, e debaixo de uma chuva de avisos, obtivemos o “sim” que nos fez sair de casa aos pulos, com um sentimento de autonomia que estava longe de corresponder à nossa realidade de todos os dias.
Seguimos para o cinema, confiantes, na esperança de uma noite bem passada. Sabíamos que íamos ver um filme de terror, mas não tínhamos ideia do que isso significava.
Por ter mais idade, foi JES quem comprou os bilhetes. Sentámo-nos na segunda ou terceira fila do balcão e esperámos que as luzes se apagassem.
Não consigo recordar pormenores da película. Perdeu-se tudo com o tempo, menos aquele rosto que me infundiu um terror tal que ainda hoje me arrepio só de o recordar.
Durante a exibição do filme, JES não deu sinais de amedrontamento. Manteve-se em sossego no assento, sem que se lhe ouvisse o mínimo rumor. Talvez estivesse em pânico, mas eu não tinha maneira de o saber.
Eu só rezava para que a fita terminasse. Desconhecia que podia abandonar a sala a qualquer momento. E mesmo que não o desconhecesse, seria incapaz de me ir embora sem a companhia de alguém. E a verdade é que sempre que olhava pelo canto do olho via JES em total imobilidade na cadeira, o que me fazia desanimar por completo e desistir de qualquer tentativa de fuga.
Suportei o tormento até ao fim. Mas quando as luzes da sala se acenderam o que me veio à cabeça foi o percurso que me faltava fazer para chegar a casa. Enquanto as pessoas iam abandonando a sala lentamente, eu ainda tinha o conforto da sua companhia, que era suficiente para afastar o medo. O pior viria depois.
Logo que dei comigo na rua, olhei para JES, com vista a observar a sua reacção e decidir o que faria.
Não demorei a ver esclarecida a minha curiosidade: sem dizer palavra, JES desatou a correr com todas as suas forças pela rua adiante, obrigando-me a seguir-lhe os passos.
Era noite escura, noite de breu, noite sem lua nem estrelas. Desatei a correr tanto, ou mais, do que JES. Não sei onde arranjei alento, mas corri como se Deus me tivesse dado mil pernas para calcorrear a distância que me separava de casa. Era curto o trajecto, mas pareceu-me o mais longo que alguma vez percorri.
Por mais rápida que fosse a nossa fuga, dava a sensação de estarmos sempre no mesmo lugar. Por vezes, eu seguia ligeiramente à frente de JES, outras vezes seguia ligeiramente atrás. Mas não havia maneira de chegarmos à porta da casa onde vivíamos, para podermos entrar, acender a luz do nosso quarto de dormir e respirar de alívio.
Durante a infindável corrida, nunca deixei de sentir a perseguição daquele rosto cadavérico envolto em teias de aranha que insistia em manter-se dois ou três metros atrás de mim. Perseguiu-me sempre essa caveira descarnada, lisa, sorridente. Perseguiu-me durante dezenas de anos, como se pode comprovar por este texto que, ainda hoje, aos cinquenta e cinco anos de idade, tive necessidade de escrever…
quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
Cremação
Quando cheguei à porta da sua casa, soube que iríamos jantar num restaurante ao virar da esquina. E pus-me a caminhar lentamente, pelo passeio, a seu lado. Mas AM parou, olhou-me e disse:
- Vamos de carro!
Por um momento, cheguei a pensar que precisasse de ir a qualquer lado antes do jantar, mas não. AM queria ir de carro para o restaurante, do qual não distávamos mais de duzentos ou trezentos metros.
Fiz-lhe a vontade. AM ajeitou o boné na cabeça, entrou, sentou-se a meu lado e lá fomos conversando, ao som da lentidão do motor.
Menos de um minuto depois, chegámos ao restaurante. Ficámos cá fora a falar mais uns minutos como se para dar a ideia de que valera a pena termos vindo de automóvel.
A seguir, demorámo-nos ainda a conversar no passeio, atravessámos a rua calmamente, fizemos um compasso de espera à porta do estabelecimento, entrámos, subimos ao primeiro andar e sentámo-nos numa das muitas mesas vagas.
Ficámos a olhar-nos, avaliando o estado das nossas almas. AM estava mais alerta do que o habitual. Os seus olhos eram pequenos e afiados, como se não pudesse perder uma vírgula do que estava a suceder.
Quando nos vieram perguntar o que pretendíamos comer, AM já começara a desfiar a sua história. Ostentava nos olhos uma acutilância que parecia premeditada.
Contou-me perseguições de que fora vítima na juventude, humilhações, desencantos, raivas, mortes, a morte de M. que o destroçou. Explicou, lembrou, pormenorizou. Olhou-me e reolhou-me, a ver se eu seguia as suas palavras.
Ainda oiço a sua voz, por entre o barulho de fundo do movimento de tachos e talheres na cozinha. A sua voz fina e delicada, esmiuçando-se em cada frase.
AM era apenas sofrimento. Demasiado sensível, tinha sentimento em excesso a fervilhar dentro de si. Não me recordo do que comemos naquele dia. Nem sei se comemos. Talvez peixe. Ou outra coisa.
A voz de AM chorava sem chorar. Inquiria-me, pedia-me opiniões. E voltava à carga.
Já tínhamos jantado em outras ocasiões, mas por causa da sua má audição, ou por qualquer outro motivo, ficava-me sempre a sensação de algo ter sido deixado a meio.
Naquele dia, não. Naquele dia, AM disse tudo e ouviu tudo, mesmo quando da minha boca não saía qualquer palavra. Era como se, ao falar, a sua voz tivesse o condão de ouvir os meus pensamentos.
AM falava como se rolando por uma escada sobre cujos degraus a vida se esboroava. O que dizia era uma tempestade incontrolável e mansa.
Não pensei se aquela seria a última vez que nos veríamos. Nem me perguntei se estaria a suceder alguma coisa que me passava à margem.
Mesmo agora, AM está aqui a meu lado, acenando afirmativamente com a cabeça, como quem diz: – Vês? Eu não te dizia? – E mudando de conversa: – Olha, vou ser cremado! As minhas cinzas hão-de ficar lá por casa. Depois, não te esqueças de ir aparecendo…
- Vamos de carro!
Por um momento, cheguei a pensar que precisasse de ir a qualquer lado antes do jantar, mas não. AM queria ir de carro para o restaurante, do qual não distávamos mais de duzentos ou trezentos metros.
Fiz-lhe a vontade. AM ajeitou o boné na cabeça, entrou, sentou-se a meu lado e lá fomos conversando, ao som da lentidão do motor.
Menos de um minuto depois, chegámos ao restaurante. Ficámos cá fora a falar mais uns minutos como se para dar a ideia de que valera a pena termos vindo de automóvel.
A seguir, demorámo-nos ainda a conversar no passeio, atravessámos a rua calmamente, fizemos um compasso de espera à porta do estabelecimento, entrámos, subimos ao primeiro andar e sentámo-nos numa das muitas mesas vagas.
Ficámos a olhar-nos, avaliando o estado das nossas almas. AM estava mais alerta do que o habitual. Os seus olhos eram pequenos e afiados, como se não pudesse perder uma vírgula do que estava a suceder.
Quando nos vieram perguntar o que pretendíamos comer, AM já começara a desfiar a sua história. Ostentava nos olhos uma acutilância que parecia premeditada.
Contou-me perseguições de que fora vítima na juventude, humilhações, desencantos, raivas, mortes, a morte de M. que o destroçou. Explicou, lembrou, pormenorizou. Olhou-me e reolhou-me, a ver se eu seguia as suas palavras.
Ainda oiço a sua voz, por entre o barulho de fundo do movimento de tachos e talheres na cozinha. A sua voz fina e delicada, esmiuçando-se em cada frase.
AM era apenas sofrimento. Demasiado sensível, tinha sentimento em excesso a fervilhar dentro de si. Não me recordo do que comemos naquele dia. Nem sei se comemos. Talvez peixe. Ou outra coisa.
A voz de AM chorava sem chorar. Inquiria-me, pedia-me opiniões. E voltava à carga.
Já tínhamos jantado em outras ocasiões, mas por causa da sua má audição, ou por qualquer outro motivo, ficava-me sempre a sensação de algo ter sido deixado a meio.
Naquele dia, não. Naquele dia, AM disse tudo e ouviu tudo, mesmo quando da minha boca não saía qualquer palavra. Era como se, ao falar, a sua voz tivesse o condão de ouvir os meus pensamentos.
AM falava como se rolando por uma escada sobre cujos degraus a vida se esboroava. O que dizia era uma tempestade incontrolável e mansa.
Não pensei se aquela seria a última vez que nos veríamos. Nem me perguntei se estaria a suceder alguma coisa que me passava à margem.
Mesmo agora, AM está aqui a meu lado, acenando afirmativamente com a cabeça, como quem diz: – Vês? Eu não te dizia? – E mudando de conversa: – Olha, vou ser cremado! As minhas cinzas hão-de ficar lá por casa. Depois, não te esqueças de ir aparecendo…
sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
Obrigação
Deviam ser quatro da tarde quando percebi que o meu corpo estava bastante maior do que o habitual. Os objectos à minha volta eram de dimensão reduzida e pareciam vistos do alto, o que significava que eu devia estar do tamanho de um elefante ou de uma girafa.
Não me preocupei, nem me assustei. Pareceu-me normal aquela sensação de ver tudo reduzido em meu redor. Em outras ocasiões, já tinha acontecido sentir-me do tamanho de um rato ou de uma formiga, cirandando por entre objectos gigantescos e ameaçadores.
Dirigi-me à cozinha, aos apertões por entre móveis, procurando não bater com a cabeça no tecto, e tentei fazer um café. Mas nem consegui abrir a embalagem para vazar o pó na máquina. Muito menos fui capaz de preparar o filtro. Os meus dedos estavam perros e largos como tubos de canalização.
Deixei-me cair no chão e fiquei a olhar para as coisas, sem fazer qualquer esforço para me libertar. Eu tinha a certeza de que estava tudo normal com a minha saúde (havia feito exames há pouco tempo) e nunca duvidei de que se houvera em mim alguma mudança fora apenas no plano psicológico. Por qualquer motivo que não sabia explicar, o meu corpo ganhava, por vezes, um volume extraordinário e eu já começava a habituar-me a isso.
Pensei em telefonar a alguém, mas lembrei-me de que praticamente não conhecia vivalma em Berlim. Contactar as autoridades não adiantaria muito porque eu não entendia uma palavra de alemão. E com o inglês também não iria longe.
Ao fim de cerca de uma hora, já me sentia bastante melhor, embora as pernas continuassem a denotar dificuldades, provavelmente devido ao inchaço.
Levantei-me, abri o frigorífico (um dos meus locais preferidos nas fugas à rotina), retirei uma embalagem de leite, enchi um copo e meti-lhe o dedo dentro, que depois levei à boca, para lhe sentir o gosto. Estava demasiado frio. Não bebi.
Pensei no que faria durante o resto do dia e acabei por concluir que talvez não fosse má ideia tentar adquirir o tamanho de uma minhoca, ou de um percevejo, a fim de observar o que me rodeava numa perspectiva diferente.
Mas não tive êxito. O meu corpo recusou-se a encolher. Não levei, porém, o assunto a sério. Vendo bem as coisas, nunca seria possível saber exactamente o tamanho do que quer que fosse. Uma sombra deslizando na parede poderia ser uma parte de mim a acudir a uma necessidade. Se me telefonassem, o que era bastante improvável, conseguiria eu galgar a distância que me separava dessa voz? Dias antes, lembrara-me de algo que sucedera há vinte anos e percebi que o meu corpo ocupara o espaço do tempo que desde então decorrera. Nunca me senti tão descomunal.
Deixei o copo de leite em cima da mesa e fui à janela ver os carros que passavam na rua. Compreendi que o meu corpo seguia em todos eles, independentemente dos lugares para onde se dirigiam. Eu viajava em todos os veículos que a minha vista alcançava, naquele preciso momento, conversando, calando, olhando, pensando, ao lado de alguém que me era familiar, com crianças aos pulos nos assentos de trás, ou sob o efeito tranquilizante do sono de algum animal de estimação.
A minha obrigação consistia em ser do tamanho do que me rodeava, do que se relacionava comigo, do que me alimentava, do que me justificava…
Não me preocupei, nem me assustei. Pareceu-me normal aquela sensação de ver tudo reduzido em meu redor. Em outras ocasiões, já tinha acontecido sentir-me do tamanho de um rato ou de uma formiga, cirandando por entre objectos gigantescos e ameaçadores.
Dirigi-me à cozinha, aos apertões por entre móveis, procurando não bater com a cabeça no tecto, e tentei fazer um café. Mas nem consegui abrir a embalagem para vazar o pó na máquina. Muito menos fui capaz de preparar o filtro. Os meus dedos estavam perros e largos como tubos de canalização.
Deixei-me cair no chão e fiquei a olhar para as coisas, sem fazer qualquer esforço para me libertar. Eu tinha a certeza de que estava tudo normal com a minha saúde (havia feito exames há pouco tempo) e nunca duvidei de que se houvera em mim alguma mudança fora apenas no plano psicológico. Por qualquer motivo que não sabia explicar, o meu corpo ganhava, por vezes, um volume extraordinário e eu já começava a habituar-me a isso.
Pensei em telefonar a alguém, mas lembrei-me de que praticamente não conhecia vivalma em Berlim. Contactar as autoridades não adiantaria muito porque eu não entendia uma palavra de alemão. E com o inglês também não iria longe.
Ao fim de cerca de uma hora, já me sentia bastante melhor, embora as pernas continuassem a denotar dificuldades, provavelmente devido ao inchaço.
Levantei-me, abri o frigorífico (um dos meus locais preferidos nas fugas à rotina), retirei uma embalagem de leite, enchi um copo e meti-lhe o dedo dentro, que depois levei à boca, para lhe sentir o gosto. Estava demasiado frio. Não bebi.
Pensei no que faria durante o resto do dia e acabei por concluir que talvez não fosse má ideia tentar adquirir o tamanho de uma minhoca, ou de um percevejo, a fim de observar o que me rodeava numa perspectiva diferente.
Mas não tive êxito. O meu corpo recusou-se a encolher. Não levei, porém, o assunto a sério. Vendo bem as coisas, nunca seria possível saber exactamente o tamanho do que quer que fosse. Uma sombra deslizando na parede poderia ser uma parte de mim a acudir a uma necessidade. Se me telefonassem, o que era bastante improvável, conseguiria eu galgar a distância que me separava dessa voz? Dias antes, lembrara-me de algo que sucedera há vinte anos e percebi que o meu corpo ocupara o espaço do tempo que desde então decorrera. Nunca me senti tão descomunal.
Deixei o copo de leite em cima da mesa e fui à janela ver os carros que passavam na rua. Compreendi que o meu corpo seguia em todos eles, independentemente dos lugares para onde se dirigiam. Eu viajava em todos os veículos que a minha vista alcançava, naquele preciso momento, conversando, calando, olhando, pensando, ao lado de alguém que me era familiar, com crianças aos pulos nos assentos de trás, ou sob o efeito tranquilizante do sono de algum animal de estimação.
A minha obrigação consistia em ser do tamanho do que me rodeava, do que se relacionava comigo, do que me alimentava, do que me justificava…