terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O dia em que me esqueceram

– Vamos entrar aqui… – disse JFL, não parecendo muito ter a certeza sobre a escolha do bar, apesar de já lá termos estado mais de uma dúzia de vezes.
Era noite e fazia um calor de rachar. Eu não tinha jantado e sentia a cabeça andar à roda por entre as luzes de New York. Mas não queria desagradar a JFL, por isso, mantive-me na sua companhia.
Descemos para uma cave onde tínhamos o hábito de ouvir blues.
Havia gente conversando em pé, balançando os corpos ao som da música ambiente e bebendo animadamente. Os blues só viriam lá mais para a meia-noite.
– Está-se bem aqui… – disse JFL no seu jeito de parecer sempre de mão dada com a indecisão. – Se quiseres, tomamos uma cerveja – prosseguiu, fazendo-me pensar que uma cerveja era o menos aconselhável para quem como eu não tinha jantado.
Mas eu não conseguia dizer que não a JFL. Tudo o que vinha da sua boca tinha o meu acordo, mesmo que intimamente nada do que dizia tivesse a ver comigo ou com a minha disposição do momento.
– Talvez mais tarde apareça por cá uma pessoa amiga… – acrescentou JFL, sublinhando a importância de continuar comigo.
Quando JFL me estendeu a cerveja, só fui capaz de desatar a rir, deixando passar um estado de espírito que estava longe de corresponder aos meus sentimentos. Eu não tinha paciência para estar ali e, contudo, estava.
Conhecia JFL há anos e sabia que me estava a usar para preencher o tempo enquanto não chegasse a pessoa de que estava à espera. Mas nem assim me fui embora.
Por volta das três da manhã, chegou ZT. Sentou-se, cumprimentou-nos, JFL apresentou-me por entre notas de música estridente e deixou de conversar comigo, dedicando toda a sua atenção a ZT a partir daquele momento.
O dia já clareava quando saímos do bar. JFL agarrava-se a ZT, cambaleando e enrolando a língua em conversas que já não valia a pena tentar perceber. À viva força, quis que ZT ficasse em sua casa. Por entre garantias de que no outro dia não teriam horas de acordar, entraram e perderam-se na escuridão do prédio, cuja luz das escadas JFL nem se deu ao trabalho de acender.
Fiquei no passeio, com a leve esperança de que se lembrassem de mim. Ao fim de mais de cinco minutos... tomei consciência de que nem me tinham dado as boas-noites.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Ruínas

Havia ruínas por toda a parte e um cheiro a rosas frescas no ar. Não tinham caído bombas, que eu soubesse. Não ouvira notícias de guerra, nem de sangue, nem de nada que se parecesse.
Andei a vaguear por ali algum tempo, a ver se entendia o que se passava à minha volta. Ninguém se meteu comigo, ninguém me procurou, ninguém me olhou.
Via-se gente em passo acelerado pelas ruas. Gente sem nome, sem rosto, sem medo.
E as ruínas? Como explicá-las? Onde começava e acabava Roma?
O dia estava riscado nas vidraças. Eu ainda nem tivera oportunidade de tomar um café revigorante. Nem sabia se encontraria um lugar onde pudesse aquecer a alma.
Tentei pedir indicações a quem passava. Todos me viraram a cara sem hesitações, como se receassem que eu lhes fizesse mal. Afastei-me, incapaz de dizer alguma coisa ou de insistir no pedido. As pessoas pareciam-me familiares, mas eu não conseguia recordar-me de onde as conhecia.
Dirigi-me para a estação de comboios, com a sensação de ter as pernas atadas por cordas invisíveis.
Logo que vi um assento, sentei-me num espaço apertado entre dois vultos, duas sombras, dois borrões, um que cheirava a tabaco e outro que tresandava a cebola.
Deixei-me estar, sem mexer um dedo, pensando vagamente onde me encontraria na manhã seguinte.
Quando chegou a hora de partir, não tive forças de me levantar. Havia uma cola que me prendia à cadeira, desligando-me de tudo, entregando-me às garras de um sono fundo que me corroía a vontade.
O comboio arrancou e eu fiquei. Entre ruínas.