De um lado, havia o brilho, o fulgor, o movimento, a excitação. Do outro, tudo era cinzento, triste, morto, apagado, como se ali tivessem sido enterradas milhões de almas. Mas entre os dois lados nada os separava. Nenhum muro, nem palanque, nem rio, nem mar. Talvez apenas uma sombra, não sei bem, uma ideia, um anjo fugaz. O certo é que havia uma diferença demoníaca entre um lado e o outro.
O lado do movimento era o lado do dia, o lado cinzento era o lado da noite. Como o Sol e a Lua quando dividem entre si a rotação da Terra.
Os transeuntes seguiam indiferentes em direcção aos seus destinos, mas quando se aproximavam do limite de um dos lados, afastavam-se, respeitando a divisão imaginária entre a luz e a sombra.
Também as formas de vestir eram diferentes de um lado e do outro. No lado do brilho as roupas eram coloridas e cheias de ar, no lado da tristeza eram escuras e mirradas.
No lado da morte, havia um canto no ar, um canto distante e débil que penetrava nos corações e os partia em bocados; no lado das tropelias e das correrias para os empregos, para as compras, para os namoros, para as visitas aos museus, havia um coaxar de vidro que a todo o instante estalava.
Eu acabara de chegar e só percebia o que via, o que acontecia ante os meus olhos como um véu de chuva. Não havia maneira de descortinar alguma coisa, algum sentido, algum significado por detrás do que deslizava à minha frente, em meu redor.
De súbito, tocaram-me no ombro. Antes de olhar, estremeci. Tinha razão para o meu alerta. Um polícia fazia-me sinais, procurando dar a entender qualquer coisa.
Pus-me a procurar nos bolsos, com embaraço, os meus documentos, mas verifiquei que não os tinha comigo.
O guarda olhou-me com cara de poucos amigos, disse uma série de palavras que não entendi e afastou-se de seguida.
“Devo ter pisado a linha que divide os dois lados”, pensei.
terça-feira, 25 de março de 2008
sexta-feira, 14 de março de 2008
Inconsolável
– Anda depressa, anda ver! – parecia dizer CF, de braço levantado no ar, junto a uma montra alguns metros à frente de mim.
A minha primeira reacção foi fazer-lhe a vontade, mas esbarrei numa quantidade de gente que seguia nas mais variadas direcções. Dava a ideia de que todos precisavam de chocar comigo para chegarem aos seus destinos como se eu fosse o ponto onde se cruzavam múltiplos caminhos. As pessoas detinham-se a poucos centímetros do sítio onde eu me encontrava, olhavam-me espantadas, interrogativas, surpresas e a seguir desviavam-se, seguindo o seu rumo.
De longe, CF olhava-me como se eu estivesse prestes a desaparecer no meio daquele mar de gente. Já nem ouvia a sua voz. Devia estar a dizer “mexe-te, despacha-te”, mas isso talvez fosse imaginação minha.
Tentei esquivar-me à onda humana que me envolvia e dificultava o andamento, levei empurrões de todos os lados e consegui finalmente escapar ao cerco frenético.
Ainda antes de chegar à montra, já CF vinha ao meu encontro querendo saber se eu me magoara, se estava bem, como me sentia.
Respondi-lhe que não se preocupasse, que não era nada, que me encontrava melhor do que nunca, mas no fundo sentia que me acontecera qualquer coisa…
Momentos antes, eu vivera uma situação aparentemente banal, mas que me angustiara e me fragilizara de uma maneira que eu ainda não fora capaz de entender.
– Deixa-me descansar uns momentos – disse eu, enquanto me encostava a uma parede e via tudo a rodar à minha volta.
– Sentes-te bem? – perguntou CF, ao notar que havia em mim algo de estranho. – Estás irreconhecível!
Fiz-lhe sinal negativo com a mão, fixei os olhos no vazio do céu por cima das cabeças que atordoavam o ar e procurei normalizar o ritmo da respiração.
As pessoas paravam e perguntavam o que se passava comigo, mas CF não era capaz de esclarecer ninguém. Só procurava mostrar simpatia, pedindo que não me tocassem.
Por um momento, tentei dizer-lhe que não dramatizasse, que tudo ia ficar bem, mas o meu gesto só aumentou o seu desespero.
Antes de desfalecer contra a parede, levantei os olhos e vi que CF chorava inconsolavelmente.
A minha primeira reacção foi fazer-lhe a vontade, mas esbarrei numa quantidade de gente que seguia nas mais variadas direcções. Dava a ideia de que todos precisavam de chocar comigo para chegarem aos seus destinos como se eu fosse o ponto onde se cruzavam múltiplos caminhos. As pessoas detinham-se a poucos centímetros do sítio onde eu me encontrava, olhavam-me espantadas, interrogativas, surpresas e a seguir desviavam-se, seguindo o seu rumo.
De longe, CF olhava-me como se eu estivesse prestes a desaparecer no meio daquele mar de gente. Já nem ouvia a sua voz. Devia estar a dizer “mexe-te, despacha-te”, mas isso talvez fosse imaginação minha.
Tentei esquivar-me à onda humana que me envolvia e dificultava o andamento, levei empurrões de todos os lados e consegui finalmente escapar ao cerco frenético.
Ainda antes de chegar à montra, já CF vinha ao meu encontro querendo saber se eu me magoara, se estava bem, como me sentia.
Respondi-lhe que não se preocupasse, que não era nada, que me encontrava melhor do que nunca, mas no fundo sentia que me acontecera qualquer coisa…
Momentos antes, eu vivera uma situação aparentemente banal, mas que me angustiara e me fragilizara de uma maneira que eu ainda não fora capaz de entender.
– Deixa-me descansar uns momentos – disse eu, enquanto me encostava a uma parede e via tudo a rodar à minha volta.
– Sentes-te bem? – perguntou CF, ao notar que havia em mim algo de estranho. – Estás irreconhecível!
Fiz-lhe sinal negativo com a mão, fixei os olhos no vazio do céu por cima das cabeças que atordoavam o ar e procurei normalizar o ritmo da respiração.
As pessoas paravam e perguntavam o que se passava comigo, mas CF não era capaz de esclarecer ninguém. Só procurava mostrar simpatia, pedindo que não me tocassem.
Por um momento, tentei dizer-lhe que não dramatizasse, que tudo ia ficar bem, mas o meu gesto só aumentou o seu desespero.
Antes de desfalecer contra a parede, levantei os olhos e vi que CF chorava inconsolavelmente.
quarta-feira, 5 de março de 2008
O musgo da realidade
O vento entra em mim como uma palavra tresmalhada, apoia-se, rodeia, não esclarece. Saio de um tempo para outro tempo sem remissão. Tudo está aqui e aqui nada se encontra. Quero agarrar o que me envolve, quero assentar, sossegar, mas dou comigo cada vez mais longe, cada vez mais inerte. É como se houvesse um outro país no meu país de origem.
Saio de casa, caminho por ruelas sem Norte, hesito, penso, deambulo e noto que me encontro no mesmo sítio, além, sempre num lugar distinto daquele em que iniciei o percurso.
As sombras atravessam as nuvens como numa linguagem sem gramática, o sol aparece e desaparece, o vento outra vez, em cada momento, mais forte, mais devastador.
Espero que alguém me escreva. Há dias que espero por uma palavra. Fico em transe quando me faltam palavras, termos, sugestões de ideias.
Procuro um poste, uma pedra num muro desabado, um musgo sem raiz e caio em mim, afundo-me na realidade.
Cada pensamento coincide com os minutos em que me esfumo. Os pensamentos andam sempre à procura de coincidir com qualquer coisa. As minhas oscilações. As minhas oscilações, repito, consciente do significado deste instante.
Não me apetece ouvir música, não me apetece comer, não me apetece fazer o que quer que seja. Este é o momento da minha reflexão principal do dia. É quase uma da tarde, a hora em que tudo orbita à volta de tudo.
Eu bem queria seguir um rumo, bem queria compreender o que se passa, mas de cada vez que o tento há qualquer coisa em mim que se esboroa e fenece.
À minha frente, um ramo ondula ao vento. O vento está em toda a parte e rumoreja. Rumoreja. O vento é a música que nunca organizei em mim.
Que poderia fazer eu senão isto que faço? Que sentido teria qualquer outro acto da minha parte? De repente, escrevo e as minhas palavras transformam-se em outra coisa, outro texto. Escrevo e logo me transformo em rotina. Como num tempo diferente. Comandado por algo que não me compete explicar.
Saio de casa, caminho por ruelas sem Norte, hesito, penso, deambulo e noto que me encontro no mesmo sítio, além, sempre num lugar distinto daquele em que iniciei o percurso.
As sombras atravessam as nuvens como numa linguagem sem gramática, o sol aparece e desaparece, o vento outra vez, em cada momento, mais forte, mais devastador.
Espero que alguém me escreva. Há dias que espero por uma palavra. Fico em transe quando me faltam palavras, termos, sugestões de ideias.
Procuro um poste, uma pedra num muro desabado, um musgo sem raiz e caio em mim, afundo-me na realidade.
Cada pensamento coincide com os minutos em que me esfumo. Os pensamentos andam sempre à procura de coincidir com qualquer coisa. As minhas oscilações. As minhas oscilações, repito, consciente do significado deste instante.
Não me apetece ouvir música, não me apetece comer, não me apetece fazer o que quer que seja. Este é o momento da minha reflexão principal do dia. É quase uma da tarde, a hora em que tudo orbita à volta de tudo.
Eu bem queria seguir um rumo, bem queria compreender o que se passa, mas de cada vez que o tento há qualquer coisa em mim que se esboroa e fenece.
À minha frente, um ramo ondula ao vento. O vento está em toda a parte e rumoreja. Rumoreja. O vento é a música que nunca organizei em mim.
Que poderia fazer eu senão isto que faço? Que sentido teria qualquer outro acto da minha parte? De repente, escrevo e as minhas palavras transformam-se em outra coisa, outro texto. Escrevo e logo me transformo em rotina. Como num tempo diferente. Comandado por algo que não me compete explicar.