Não havia amor na sua vida. Não havia luz nem brilho. Só ligeiros movimentos de dedos quando se entretinha a estudar mentalmente as ocorrências que lhe tramavam os dias. Ligeiros murmúrios, breves estalidos de boca que o seu ar carregado não iludia.
Se eu dizia alguma coisa para tentar insuflar a sua alma de algum fulgor, se eu inventava, se gracejava, se conversava, obtinha como resposta: – Não me infernizes a vida!
O meu primeiro impulso ao ouvir as suas palavras, gélidas e cortantes, era recuar, por instinto, inibir-me, recolher-me ao reduto da noite onde sentia maior segurança.
Enrolava-me sobre a cama à espera de ter a sua companhia, a sua respiração, quase inaudível, de tão distante, tão morta, como uma brisa negra no escuro.
Ao fim de horas, eu acordava e não detectava sinais do seu regresso. Sobressaltava-me, olhava o negrume em redor, tacteava o colchão à procura dos seus odores. Não havia diferença entre a sua ausência e a noite oca que me envolvia.
O rumor dos grilos silenciosos inundava o tempo que se arrastava. Eu prometia que a situação não se repetiria. Era a última vez que eu ficava só por tantas horas. Apetecia-me gritar, gritar até assustar as paredes, mas receava que me dessem por doente e me levassem para algum lado.
Sob o efeito da frustração de não saber o que fazer, levantava-me da cama, caminhava aos tombos, tentando organizar as ideias febris. Tinha dormido mal e não vislumbrava saída para a minha dor. Pensava em contactar alguém na esperança de detectar algum fio de luz, mas fazia contas mentais e desistia, acabava sempre por achar que a explicação havia de chegar. Eu resistiria, desse por onde desse, por tanto tempo quanto me fosse possível.
Os seus olhos flamejavam na minha memória. Que fazia eu, afinal, no horizonte da sua visão? Que significado me era atribuído? Quantos anos duraria? Cada rumor que me chegava era uma ameaça, um aviso, um sinal de algo que eu não previa, não adivinhava.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Regresso
Acordei agora e escrevo à porta de Barcelona. Barcelona não tem porta, mas não faz mal, é como se tivesse. Voltei porque não havia maneira de estar distante. Tomei o comboio e tudo recuperou o sentido que se havia desfeito.
Meti-me por uma rua sem fazer planos e julguei que estava bem, senti que devia prosseguir. Sobre os meus passos, as luzes caíam em forma de bemóis. Quase ninguém nas ruas. Uma sombra ou outra, movediça, mais nada. Nem sei bem se se podia chamar àquilo gente. Barcelona estava no extremo de si mesma, longe do centro.
Eu caminhava em direcção a algum lado, sem saber exactamente para onde. E sem me preocupar. Era um desejo que me empurrava. A minha intenção era ficar apenas por umas horas, para reviver o odor das casas incrustadas no tempo.
Enquanto caminhava, pensei em duas ou três pessoas amigas. As mais chegadas, as que me mexiam nas cordas da inquietação. Uma já falecida, que estava mais próxima naquele momento. Como se tivesse tomado comigo o comboio.
De súbito, surgiu uma quantidade de gente do meu lado esquerdo, gente vinda de uma rua que eu quase não divisei a tempo e que avançou na minha direcção, como se eu não estivesse ali, como se eu não fizesse parte daquele momento.
Pensei se me devia desviar para lhes dar passagem, mas acabei por concluir que talvez não merecesse o esforço. Ninguém sabia que eu regressara a Barcelona, não se justificava o desvio de um passo da direcção que eu seguia.
Aconteceu conforme eu pressentira: a pequena multidão passou por mim como se eu ali não estivesse, ninguém me olhou, iam todos de olhos fixos no ponto para onde se dirigiam. Ouvi comentários díspares e rápidos, do estilo – vê o que tenho aqui neste braço… – coisas sem coerência.
Comi meia hora depois na esplanada de uma rua que nem me dei ao trabalho de saber como se chamava. Era tudo pouco lógico em Barcelona. Tudo se resumia a uma fuga de equilíbrio, numa ausência de medida, longa e desfocada.
Meti-me por uma rua sem fazer planos e julguei que estava bem, senti que devia prosseguir. Sobre os meus passos, as luzes caíam em forma de bemóis. Quase ninguém nas ruas. Uma sombra ou outra, movediça, mais nada. Nem sei bem se se podia chamar àquilo gente. Barcelona estava no extremo de si mesma, longe do centro.
Eu caminhava em direcção a algum lado, sem saber exactamente para onde. E sem me preocupar. Era um desejo que me empurrava. A minha intenção era ficar apenas por umas horas, para reviver o odor das casas incrustadas no tempo.
Enquanto caminhava, pensei em duas ou três pessoas amigas. As mais chegadas, as que me mexiam nas cordas da inquietação. Uma já falecida, que estava mais próxima naquele momento. Como se tivesse tomado comigo o comboio.
De súbito, surgiu uma quantidade de gente do meu lado esquerdo, gente vinda de uma rua que eu quase não divisei a tempo e que avançou na minha direcção, como se eu não estivesse ali, como se eu não fizesse parte daquele momento.
Pensei se me devia desviar para lhes dar passagem, mas acabei por concluir que talvez não merecesse o esforço. Ninguém sabia que eu regressara a Barcelona, não se justificava o desvio de um passo da direcção que eu seguia.
Aconteceu conforme eu pressentira: a pequena multidão passou por mim como se eu ali não estivesse, ninguém me olhou, iam todos de olhos fixos no ponto para onde se dirigiam. Ouvi comentários díspares e rápidos, do estilo – vê o que tenho aqui neste braço… – coisas sem coerência.
Comi meia hora depois na esplanada de uma rua que nem me dei ao trabalho de saber como se chamava. Era tudo pouco lógico em Barcelona. Tudo se resumia a uma fuga de equilíbrio, numa ausência de medida, longa e desfocada.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Parto
As flores são o cimento das cidades, o reflexo das brisas nas torres de vidro entre as quais passeio sem destino.
Sou dos fumos subterrâneos que engolem gente nas horas de ponta, dos empurrões e do cheiro a guarda-chuvas nas entradas do metro, dos jardins de betão, dos carros apinhados nas ruas com cogumelos ruidosos, dos centros comerciais anónimos e dos seus labirintos de lâmpadas, das vozes indistintas, das manhãs frias a caminho de lugares ignotos, dos grupos que se diluem na memória dos medos, das multidões, dos cafés barulhentos, dos jovens em quartos, das noites longas à beira do rio. Sou nada, sou céu plúmbeo nos comboios que partem sem regresso.
Parto todos os dias para a minha viagem, a minha última viagem. Parto só, da cabeça aos pés, sem olhar para trás. Parto, a toda a hora, para o sonho que vier, marinheiro à solta dentro de quem quer que seja nesta digressão sem fim. Parto inteiro, aos bocados pelas ruas, em busca do que não é possível encontrar. Detenho-me à escuta da voz que me persegue, da voz que me anuncia, que me explica, que me identifica.
Nenhuma cidade deixa de me receber. Nasço nelas, para me tornar maior todos os dias. Cada cidade é o fermento da alma que carrego sobre as arestas dos frutos de cimento e betão e pedra e vidro e níquel e alumínio. Rodo como uma moeda sobre a limpidez dos tampos, pedras de calçada, estômagos aquecidos.
A cidade é o meu nascimento, o meu ponto de encontro. Sempre que chego a uma cidade, sinto-me em casa, com gente de todas os tempos. Nunca estou só. Não sinto abandono, nem estremeço de receio. Uma cidade é a alma despedaçada de alguém, fragmento inscrito na rocha derretida dos cânticos que me adormecem sobre os bancos de um jardim sem remédio.
As cidades que visito entram em mim e fazem-me diferente, pessoa nova, com os sentidos multiplicados pelo tempo das palavras, como as frases em que se abrigam as luzes, desejos improváveis.
Há um refrão de sombras junto à paisagem que me aconchega no seu ninho de pombas esvoaçantes sobre a praça redonda da lembrança. É esta a minha vida. Nada esmorece.
Sou dos fumos subterrâneos que engolem gente nas horas de ponta, dos empurrões e do cheiro a guarda-chuvas nas entradas do metro, dos jardins de betão, dos carros apinhados nas ruas com cogumelos ruidosos, dos centros comerciais anónimos e dos seus labirintos de lâmpadas, das vozes indistintas, das manhãs frias a caminho de lugares ignotos, dos grupos que se diluem na memória dos medos, das multidões, dos cafés barulhentos, dos jovens em quartos, das noites longas à beira do rio. Sou nada, sou céu plúmbeo nos comboios que partem sem regresso.
Parto todos os dias para a minha viagem, a minha última viagem. Parto só, da cabeça aos pés, sem olhar para trás. Parto, a toda a hora, para o sonho que vier, marinheiro à solta dentro de quem quer que seja nesta digressão sem fim. Parto inteiro, aos bocados pelas ruas, em busca do que não é possível encontrar. Detenho-me à escuta da voz que me persegue, da voz que me anuncia, que me explica, que me identifica.
Nenhuma cidade deixa de me receber. Nasço nelas, para me tornar maior todos os dias. Cada cidade é o fermento da alma que carrego sobre as arestas dos frutos de cimento e betão e pedra e vidro e níquel e alumínio. Rodo como uma moeda sobre a limpidez dos tampos, pedras de calçada, estômagos aquecidos.
A cidade é o meu nascimento, o meu ponto de encontro. Sempre que chego a uma cidade, sinto-me em casa, com gente de todas os tempos. Nunca estou só. Não sinto abandono, nem estremeço de receio. Uma cidade é a alma despedaçada de alguém, fragmento inscrito na rocha derretida dos cânticos que me adormecem sobre os bancos de um jardim sem remédio.
As cidades que visito entram em mim e fazem-me diferente, pessoa nova, com os sentidos multiplicados pelo tempo das palavras, como as frases em que se abrigam as luzes, desejos improváveis.
Há um refrão de sombras junto à paisagem que me aconchega no seu ninho de pombas esvoaçantes sobre a praça redonda da lembrança. É esta a minha vida. Nada esmorece.