Aproximei-me de MS e esfreguei-lhe as mãos no rosto.
– Fica-te bem – disse. – Afasta-te para eu ver melhor.
E depois de uma pausa breve soltei uma exclamação de espanto sincero:
– É como se os teus olhos tivessem outra dimensão.
Rimos, demos as mãos e saímos de casa. Tínhamos a tarde pela frente. A cidade estrebuchava de novidades, sombras e estalidos no ar.
Julho estava à porta. Não dávamos atenção particular às estações do ano, mas deixávamo-nos atrair pelo frenesim das ruas e das montras.
MS agarrava-se a mim e perguntava-me se eu gostava disto, se apreciava aquilo. De repente soltava um grito e dizia:
– Ai estes sapatos!...
Eu reagia, dizendo que não e não, e MS acelerava o passo, desatando a correr pela rua como se quisesse perder-se de mim. Eu ficava em sobressalto, mas controlava-me porque sabia que MS não iria longe. Fugir e fingir que desaparecia era uma das suas brincadeiras preferidas quando andávamos à toa pela cidade.
Continuei a andar como se não tivesse dado pela fuga de MS. Desabotoei um pouco a camisa e prossegui a marcha. Simular indiferença era a minha parte no jogo. Aquela não era a primeira nem a segunda vez que andávamos às escondidas nas ruas.
Uns metros à frente, houve uma pausa. Uma espécie de um tempo absurdo. Como se o relógio tivesse parado sem motivo. Depois, ouvi uma travagem brusca, vinda do nada… E mais nada.
Senti um estremeção. Paris estava imóvel. Tonta.
Rodei a cabeça devagar, o mais devagar que pude, só para atrasar pelo maior período de tempo possível o que os meus olhos presenciariam no momento a seguir…
terça-feira, 17 de junho de 2008
sábado, 7 de junho de 2008
Quem me olhava
Tinha os cabelos sobre o rosto, cabelos oleosos, desprendidos, escorrendo sobre as sombras da face, onde se viam rugas misturadas com manchas vermelhas de origem difícil de adivinhar. As orelhas roxas de frio e solidão, o pescoço torcido em relação aos ombros. Vestia um casaco andrajoso, amarrotado, roto, desbotado. Unhas por fazer, dedos esqueléticos prolongados sobre o chão. De corpo magro, parecia esperar por alguma coisa que nunca chegaria. Talvez uma última esperança sem lógica nem explicação. Nos pés, uns sapatos rebentados pelas longas caminhadas avessas ao destino, pés nus, tornozelos à mostra. Dava a ideia de se ter esquecido de si. Cintura estreita, ancas espalmadas, costas indecifráveis. Por entre os lábios, via-se a saliva seca, misturada com pequenos cascalhos que abundavam em redor.
Faltavam pouco mais de dez minutos para o jardim fechar ao público e não se via ninguém por perto. A tarde caía de pássaros desaparecidos nos últimos raios de Verão. A minha sombra alongava-se sobre o corpo caído numa ameaça de algo que jamais se concretizaria.
Na mão esquerda, uma carteira, com uma nota ligeiramente saída. Uma nota de vinte esgueirada na frincha do momento que a vertigem trouxera.
A dado passo, notei nos seus olhos um brilho maior, um fulgor surpreendente e inesperado, como se de repente tivesse havido um incêndio na sua alma, um rubor de chama, um vago lampejo.
Aproximei-me e ouvi respirar. Era uma respiração nítida e compassada como a de uma melodia que se recorda para sempre. Sentei-me, à espera de ver o que acontecia. Talvez eu pudesse ser útil. Nem que fosse para simplesmente testemunhar um instante revelador.
As pessoas passavam e olhavam-me, como se eu não pertencesse àquele momento e àquele espaço, como se fosse minha obrigação estar longe dali, noutra circunstância. Eu não tinha casualidade. Nem causalidade. O vento secava nas arestas do dia e eu percebi que a qualquer instante alguém me podia agarrar e fazer de mim o que quisesse.
Faltavam pouco mais de dez minutos para o jardim fechar ao público e não se via ninguém por perto. A tarde caía de pássaros desaparecidos nos últimos raios de Verão. A minha sombra alongava-se sobre o corpo caído numa ameaça de algo que jamais se concretizaria.
Na mão esquerda, uma carteira, com uma nota ligeiramente saída. Uma nota de vinte esgueirada na frincha do momento que a vertigem trouxera.
A dado passo, notei nos seus olhos um brilho maior, um fulgor surpreendente e inesperado, como se de repente tivesse havido um incêndio na sua alma, um rubor de chama, um vago lampejo.
Aproximei-me e ouvi respirar. Era uma respiração nítida e compassada como a de uma melodia que se recorda para sempre. Sentei-me, à espera de ver o que acontecia. Talvez eu pudesse ser útil. Nem que fosse para simplesmente testemunhar um instante revelador.
As pessoas passavam e olhavam-me, como se eu não pertencesse àquele momento e àquele espaço, como se fosse minha obrigação estar longe dali, noutra circunstância. Eu não tinha casualidade. Nem causalidade. O vento secava nas arestas do dia e eu percebi que a qualquer instante alguém me podia agarrar e fazer de mim o que quisesse.