segunda-feira, 21 de julho de 2008

Asa de pomba fugida ao destino

A rua estava triste ao amanhecer. Já estava triste, deprimida, cinzenta, quando surgiram os primeiros raios de claridade.
Vim à janela espreitar e reparei que ia acontecer qualquer coisa. Não sabia o quê, mas via-se em toda a parte que alguma coisa estava prestes a eclodir. Notava-se nos reflexos brandos da luz, nas fachadas das casas encolhidas.
Quando JAP apareceu, vi que o seu rosto estava pálido. Conhecíamo-nos desde sempre, desde que nascêramos na mesma rua, em casas que distavam poucos metros uma da outra.
– Que estás a fazer? – perguntou JAP, com ar de quem não queria abordar o assunto principal, olhando-me com uns olhos negros e fundos como raramente eu lhe via.
Não respondi à pergunta. Eu não saberia como pôr em palavras o que sentia, o tormento que me rasgava, a angústia que me dilacerava.
JAP veio até junto de mim e, de mãos atrás das costas, com um sorriso nos lábios grossos, disse que se ia embora.
– Vou para a Austrália! – especificou, sem cerimónia, ainda que não conseguindo iludir o constrangimento.
Comecei por não perceber. Ouvi, mas foi como se não tivessem falado comigo. JAP fazia parte da minha vida e eu nunca pusera a hipótese de que a sua casa pudesse, um dia, ficar longe da minha. Devia haver um engano.
– Vou para a Austrália! – repetiu JAP, com uma voz seca e cortante, fazendo eclodir as suas palavras no ar e deixando-me incapaz de localizar mentalmente onde ficava a terra a que se referia. Pensei em vários países e continentes, perdi-me no mapa. Se JAP se ia embora, que faria eu a seguir? Como me desembaraçaria nos percalços do dia a dia? Com quem abriria a alma e preencheria as horas de aflição? Como fora possível ter-me dado a notícia a sorrir?
Não obtive resposta às minhas perguntas. Aproveitando-se da imobilidade a que o choque me reduzira, JAP afastou-se, pôs-se a recuar tendo por guia os olhos da nuca. Olhava-me e recuava, sorria e recuava de forma mecânica, dizia-me adeus e recuava mais uns centímetros. Até que desatou a correr para o vazio, repetindo que se ia embora, enquanto acenava e acenava com a sua asa de pomba fugida ao destino.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Sob a areia fina e seca do tempo

Saí de casa pela manhã após ter tomado a decisão de que nem tão cedo regressaria. O sol rasgava as nuvens sem escrúpulos e eu sentia que tudo correria a meu favor nas horas que se seguiriam.
Meti por um caminho secundário para fugir ao trânsito e pedalei pela estrada fora. A bicicleta já tinha alguns anos, mas encontrava-se como nova: resistente, oleada, leve, pronta a devorar quilómetros.
O corpo foi-se habituando aos solavancos do pavimento e à medida que eu ganhava confiança, maior era a vontade que sentia para chegar a algum lado, de preferência longe.
Depois de pedalar cerca de meia hora, dei comigo numa rua estreita e cinzenta que curvava por entre sombras densas. Curvas apertadas atrás de curvas, fui dar a um cotovelo de muro, onde se desenhava um bebedouro do qual a água corria fresca e limpa, à espera de que os animais a viessem beber. No ar, saltavam ecos gorgolejantes e cristalinos de encontro à luz.
Parei, sentei-me sobre uma das paredes laterais do bebedouro e deixei-me estar a ouvir a minha respiração pausada e monótona. Sabia-me bem não ter pressa, não ter destino. Um raio de sol atravessou a rua, mas logo desapareceu por entre os sons vagos da tarde que perdiam os seus contornos para lá do alcance dos meus olhos.
A dada altura, voltei a cabeça e vi MEG correndo aos gritos na minha direcção. Vinha de braços no ar e de rosto aberto como quem está à beira de anunciar uma novidade que não lhe cabe no peito.
Chegou ao pé de mim e abraçou-me com uma força inaudita.
- Que se passa? – perguntei.
- Nada, não se passa nada – respondeu MEG, quase não podendo controlar a respiração. – Estou tão feliz, tão feliz. É como se tudo estivesse agora a começar…
E logo a seguir desapareceu, sem que eu tivesse tido tempo de notar como e por onde. Não fora uma visão, mas era como se tivesse sido. MEG esfumou-se num acto de magia por entre a claridade repentina.
Sacudi a cabeça para ter a certeza de que não me equivocara. A minha bicicleta desaparecera. Levantei-me e tentei pedir ajuda, mas da minha boca não saía qualquer som. A água do bebedouro evaporara-se. Havia um pó de cinza cobrindo a vegetação em redor. A paisagem definhava sob a areia fina e seca do tempo.