Recebi um recado com beijos e saudades. Era de D.N.Serra. Disse que apareceria qualquer dia, mas não concretizou a promessa. Apeteceu-me pensar uma quantidade de coisas. Hesitei, vagueando pelas janelas de olhar fixo na luz que me entrava pelos olhos. Não me apetecia retirar conclusões. D.N.Serra nunca me falhara. Sempre se dispusera a estar perto de mim, a compreender, a ouvir, a comentar. A sua sinceridade era uma marca na minha existência. Recordava-me de certa vez termos ido passear no parque Eduardo VII, em Lisboa, sob as árvores frondosas que ondulavam ao ritmo das horas, com os raios de sol atarantados por entre as mãos que apertávamos. Tudo era leve e deslizante. Eu andava com uma tranquilidade que nunca antes sentira e os tempos que se avizinhavam prometiam uma esperança há muito perdida.
Acontecera de repente. Não sei explicar como. Um encontro casual num café despertara a curiosidade mútua. Dali fomos para sua casa, depois para a minha, e andámos desta maneira durante uns dias entre detalhes que considerávamos importantes.
Acabei por tomar avião para os Açores, mas garanti a D.N.Serra que regressaria dentro de pouco tempo. E assim fiz. Ao fim de uma semana nas ilhas, já não suportava o cinzento do mar nos ouvidos.
Comprei passagem aérea de regresso a Lisboa e, logo após ter aterrado, não tive dúvidas de que cairia nos braços de D.N.Serra. Quase não dormimos naquela noite.
Pela madrugada, sem que nada de relevante tivesse ocorrido, demo-nos conta de que faltava qualquer coisa no nosso relacionamento, faltava qualquer coisa em nós, não sei se em mim, se em D.N.Serra. Faltava qualquer chama, qualquer rasgo ou momento que estava para além das nossas faculdades. Era como se esperássemos uma palavra que nenhuma das partes se atrevia a pronunciar. Uma palavra seca, mínima, desconcertante, plena de risco, quase proibida, que equivalia a um silêncio inexplicável.
Após alguns minutos de reflexão, decidi reagir: dei uma desculpa, vesti-me atabalhoadamente, saí e fui falar com G.Mendonça, que até parecia estar à minha espera, tal o sorriso com que me recebeu. Não estive com meias medidas e contei-lhe sobre D.N.Serra, dizendo-lhe que se tratava de alguém fundamental na minha forma de ver, só que o sentimento não crescia, nem transbordava. E faltava a palavra, a tal palavra que insistia em não ser proferida.
G.Mendonça olhava-me e eu notava nos seus olhos um brilho incandescente, que me ofuscava, me confundia, me acendia brilhos na mente entontecida, como em súbitas e intermináveis explosões. Por detrás dos seus olhos, vislumbrei linguagens, pensamentos, águas que me chegavam sem que eu soubesse de onde. Dei por mim incapaz de continuar a discutir o assunto que me fizera bater à sua porta.
Eu só tinha olhos para os olhos de G.Mendonça. E sentia que G.Mendonça também me fulminava. Era um feitiço que nos envolvia e desafiava. Uma espécie de contagem de tempo ao contrário, em aceleração progressiva e incontrolável.
O tempo tinha escurecido para anunciar uma tempestade que estava prestes a rebentar. O negrume matinal viera cheio de presságios, ruídos temerários, arrepios, rumores vibrantes que não levavam direcção.
Pelo canto do olho, espreitei a rua, e vi imagens de azul espremido, balouçando entre rostos desfigurados, que seguiam rente às paredes consecutivas.