Eu tinha acabado de chegar aos EUA e o que fazia aos fins-de-semana era andar de carro com LCJ. Falávamos muito enquanto os pneus guinchavam nas curvas de Providence, em volta das praças, esquinas de ruas, rectas que pareciam nunca mais acabar.
LCJ entusiasmava-se, gritava e pulava, de mãos presas no volante, conjecturando sobre mais um malabarismo, mais uma manobra ousada que nos eriçava os cabelos de adrenalina.
Fazíamos corridas pela cidade, quase sempre nos sábados à noite. Quando toda a gente ia ao cinema, ao teatro, a discotecas, bares, ou ficava sossegadamente em casa, nós ocupávamo-nos com danças de automóvel no frio do Inverno.
LCJ não admitia que nenhum carro ultrapassasse o seu na estrada. Era um desafio do qual fazia ponto de honra. Certa vez, estivemos quase a enfiar-nos na montra de uma loja, só porque LCJ não quis dar hipóteses a um veículo que era bastante mais rápido do que o nosso.
De outra vez, tivemos de fugir à polícia porque LCJ tinha parado no meio da rua para me mostrar uma nódoa que tinha nas costas. Quando já tinha levantado a camisa para que eu pudesse verificar o que se passava, recebemos ordem para encostar à berma da estrada.
Vi um vulto fardado sair do carro e dirigir-se calmamente na nossa direcção. Eu olhava alternadamente para LCJ e para a polícia, a ver quem faria primeiro qualquer coisa. LCJ parecia estar a contar os segundos com a sensibilidade em milésimos. Os seus olhos fixos no retrovisor fulminavam como os de uma coruja. Tinha os músculos da face tão contraídos que se via claramente que não seria possível evitar o que estava prestes a acontecer.
LCJ esperou que o agente se aproximasse do nosso carro não mais do que meia dúzia de metros e… numa reacção brusca e intempestiva, carregou no acelerador com toda a força da sua alma.
A polícia não perdeu tempo: deu meia volta e acelerou em nossa perseguição. Mas LCJ esfumara-se por uma série de ruas à qual a velocidade e o susto retiravam toda a lógica.
Quando tivemos a certeza de que estávamos livres, LCJ voltou-se para mim e deu um grito como eu nunca lhe ouvira, um grito como quem diz – que venha a próxima! – desatando a cantar num tom tão desafinado que quase me ensurdecia.
As noites de sábado enchiam a nossa semana de expectativa, mas a verdade é que nunca nos acontecia nada do outro mundo. E talvez fosse por isso mesmo que os sábados eram dias de sonho. Ou talvez fosse – quem sabe? – pela rapidez das coisas à nossa volta, pela vertigem das luzes à noite, ou pela atenção que conseguíamos captar nos momentos em que parávamos nos semáforos.
Certa vez, dei-me conta de que no carro que se imobilizara à esquerda do nosso, se encontrava uma das pessoas que dirigia a minha universidade. Tentei explicar, rapidamente, o que se passava, mas não fui a tempo de impedir que LCJ abrisse o seu vidro e se pusesse a roncar, de olhos esbugalhados, enquanto cuspia e grunhia em todas as direcções. Isto no preciso instante em que o semáforo se tornou verde e LCJ acelerou de tal forma que pouco faltou para os pneus se incendiarem sobre o alcatrão.
- É Mong! Que loucura. Mong! – dizia eu, vociferante, ao mesmo tempo que me atirava para o chão do carro, como quem se enfia por um buraco abaixo. – Desaparece daqui, por favor!
Nessa noite, separámo-nos mais cedo do que habitualmente. LCJ estava imparável e não se cansava de dizer que ainda havia de tirar toda a roupa que tinha no corpo. Queria experimentar despir-se em público pela primeira vez. Há muito que tinha essa fantasia. Desse no que desse, queria realizá-la naquela noite.
Mas eu estava longe de me querer envolver em semelhante desafio. Já me bastara a cena dos roncos na cara de Mong.
Para evitar que LCJ se despisse, fazendo-me passar por um enxovalho público, argumentei que tinha acabado de ver alguém com quem precisava de falar e pedi-lhe que me deixasse sair do carro.
LCJ hesitou, parecendo duvidar do que eu dissera, mas acabou por aceder ao meu pedido.
- Tens a certeza de que queres ficar aqui? – perguntou, ainda, enquanto abrandava a marcha do carro.
Respondi afirmativamente com a cabeça, apressando-me a abrir a porta e saindo sem mais explicações.
Logo que LCJ desapareceu no cruzamento que ficava uns metros adiante, desatei a pedir boleia, de polegar bem espetado. Ainda hoje sinto o alívio que esse momento me proporcionou. À minha frente, os carros deslizavam vagarosos, palpitando nos minutos de excitação, em cachos compactos, de faróis acesos, rosnando como quem fareja os recantos da noite estrebuchante…
domingo, 14 de dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
Rue des Secrets
Eu tinha na mão o papel com a morada escrita, mas não havia maneira de a encontrar. Rue de Sécrets, número 43, não correspondia à casa que eu procurava. A rua nem existia. No sítio que me haviam indicado estava uma outra artéria, de nome Maupassant, cujo número 43 era uma pequena loja de fruta. A pessoa que ma dera pelo telefone podia ter-se enganado. Ou eu podia ter percebido mal o nome da rua. Eu devia ter telefonado com antecedência a confirmar, mas tinha de tal forma a certeza de que não havia erro, que não hesitei em tomar o comboio e seguir caminho.
Pensei em bater a vária portas e perguntar, mas concluí que não tinha o direito de incomodar ninguém.
Também podia ter-se dado o caso de a rua ter mudado de nome, mas não era muito provável. O endereço tinha-me sido dado há três ou quatro semanas.
Decidi não desistir e esclarecer a confusão. Entrei na loja de fruta, onde não quiseram saber da minha pergunta. Quem me atendeu fez-me uma careta e virou-me as costas sem uma palavra. Mesmo assim, ainda me dei ao trabalho de comprar umas laranjas para levar comigo. Quando me dirigi à caixa para pagar, pus a hipótese de esclarecer o nome da rua com a pessoa que registava os preços, mas preferi desistir a ter de enfrentar uma segunda expressão de antipatia.
De regresso à rua, bati na porta do lado da frutaria, a ver se a sorte me bafejava. Ao terceiro toque, a porta cedeu após um breve ruído eléctrico. Subi umas escadas e fui dar de caras com um monte de gordura, uma pessoa avantajada, desproporcional, que me indagou, com uma voz anormalmente possante, que desejava eu.
- Procuro a rua de Secrets – respondi, sob uma ligeira sensação de alarme.
- Não conheço, nunca ouvi falar – foi a resposta que obtive. Mas logo que as suas palavras terminaram, reparei que um outro rosto me observava do fundo da porta, uns olhos escondidos na sombra, que me fizeram sinal com a mão para entrar.
Entrei, passando ao lado do monstro que quase me vedava a porta, e dei comigo numa sala enorme, de tectos altos e trabalhados, paredes grossas, portas pesadas, janelas altíssimas.
Parecia que eu tinha chegado a outro mundo, onde as coisas tinham uma outra dimensão. E quando a voz, a tremenda voz, se fez ouvir, senti-me estremecer dos pés à cabeça como se não me fosse possível voltar à liberdade.
Eu já me havia dado conta de que tinha caído numa armadilha, mas ainda não tivera tempo de organizar as ideias e reagir.
A tremenda voz falou. Disse que eu me sentisse à vontade, que procedesse como se estivesse em minha casa e ficou à espera da minha resposta. Mas eu calei-me. Não fui capaz de raciocinar, nem de perceber o que estava a acontecer. Depois, sentei-me, sem me preocupar em verificar se havia alguma cadeira atrás de mim. Soçobrei das pernas. E mergulhei no escuro.
Pensei em bater a vária portas e perguntar, mas concluí que não tinha o direito de incomodar ninguém.
Também podia ter-se dado o caso de a rua ter mudado de nome, mas não era muito provável. O endereço tinha-me sido dado há três ou quatro semanas.
Decidi não desistir e esclarecer a confusão. Entrei na loja de fruta, onde não quiseram saber da minha pergunta. Quem me atendeu fez-me uma careta e virou-me as costas sem uma palavra. Mesmo assim, ainda me dei ao trabalho de comprar umas laranjas para levar comigo. Quando me dirigi à caixa para pagar, pus a hipótese de esclarecer o nome da rua com a pessoa que registava os preços, mas preferi desistir a ter de enfrentar uma segunda expressão de antipatia.
De regresso à rua, bati na porta do lado da frutaria, a ver se a sorte me bafejava. Ao terceiro toque, a porta cedeu após um breve ruído eléctrico. Subi umas escadas e fui dar de caras com um monte de gordura, uma pessoa avantajada, desproporcional, que me indagou, com uma voz anormalmente possante, que desejava eu.
- Procuro a rua de Secrets – respondi, sob uma ligeira sensação de alarme.
- Não conheço, nunca ouvi falar – foi a resposta que obtive. Mas logo que as suas palavras terminaram, reparei que um outro rosto me observava do fundo da porta, uns olhos escondidos na sombra, que me fizeram sinal com a mão para entrar.
Entrei, passando ao lado do monstro que quase me vedava a porta, e dei comigo numa sala enorme, de tectos altos e trabalhados, paredes grossas, portas pesadas, janelas altíssimas.
Parecia que eu tinha chegado a outro mundo, onde as coisas tinham uma outra dimensão. E quando a voz, a tremenda voz, se fez ouvir, senti-me estremecer dos pés à cabeça como se não me fosse possível voltar à liberdade.
Eu já me havia dado conta de que tinha caído numa armadilha, mas ainda não tivera tempo de organizar as ideias e reagir.
A tremenda voz falou. Disse que eu me sentisse à vontade, que procedesse como se estivesse em minha casa e ficou à espera da minha resposta. Mas eu calei-me. Não fui capaz de raciocinar, nem de perceber o que estava a acontecer. Depois, sentei-me, sem me preocupar em verificar se havia alguma cadeira atrás de mim. Soçobrei das pernas. E mergulhei no escuro.