Eu mexia um braço e sentia os ossos com movimentos próprios dentro de mim, mexia uma perna e lá estavam eles, os ossos, sempre irrequietos, mexia o pescoço e era sempre a mesma coisa, os ossos fazendo das suas por entre as dobras da minha carne.
Os meus amigos contrariavam-me. Diziam que eu era uma pessoa como as outras, que não me afligisse, que nada de mal se passava comigo. Custava-me acreditar que assim fosse. Tudo por causa dos meus ossos, que rangiam quando eu caminhava, quando me sentava, quando me deitava, quando me ajoelhava para levantar alguma coisa do chão.
O médico, certa vez, até se tinha rido na minha cara. Bastou eu contar o que me estava a acontecer para me deparar com o seu escárnio. Nunca mais lá voltei.
Mudei de cidade, a ver se resolvia o problema. Fui para Los Angeles, onde passei a caminhar todos os dias sem direcção pelas ruas. Parava aqui e acolá e continuava, mas quanto mais o fazia mais os ossos me rangiam. Podia ser do frio, ou do calor, mas eu queria ter a certeza.
Não me parecia que fosse uma questão de idade. Com 39 anos, eu era uma pessoa sem limitações físicas, nem psíquicas.
Aluguei um apartamento por um mês, a ver se resultava. Esqueci os amigos e deixei-me ficar. Se alguém me quisesse ver podia sempre procurar-me. Era uma questão de princípio. Por causa dos meus ossos, eu tinha deixado de confiar em tudo que mexia.
Ao fim do primeiro mês, eu estava na mesma. Nada mudara, nem parecia ser capaz de vir a mudar.
Não me atrevi a perguntar, a tirar dúvidas, a procurar novas soluções. Para não sentir a impressão dos ossos, fui-me deixando ficar por casa. Sentava-me a escrever, ouvia música e era quanto me bastava.
Mexia-me o menos possível, só para não ouvir os diabos dos ossos. Tomava cuidado com as zonas de fricção e lá ia sobrevivendo. Sentava-me sobre almofadas, metia palmilhas nos sapatos, usava luvas, mesmo quando estava calor, para diminuir o atrito dos dedos contra os objectos.
Um dia, fui dar comigo no meio de rolos e rolos de tecido que eu tinha comprado já não sei onde, à mistura com mantas, cobertores, colchas e todo o tipo de agasalhos, amontoados num ninho desfeito, que me fazia sentir leve, perene, levitante, sempre mais longe, sem imaginar a pedra gigante que se aproximava vinda do céu...
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
domingo, 13 de janeiro de 2008
Cinzento inclinado
O seu rosto era uma espécie de noz junto à sombra da parede rente à qual falávamos. BSS olhou para mim e disse que eu não lhe voltasse a aparecer. Valência descansava àquela hora, ameaçando chuviscar. Tudo era cinzento e inclinado em cada instante que ondulava sob o vento fraco.
Inicialmente, pensei não ter percebido bem, mas BSS confirmou com o rosto tenso que não me queria voltar a ver.
Foi como se tivessem passado dias e anos sobre a sua frase. As suas palavras transformavam tudo: a minha carne, os meus gestos, as minhas ideias, os meus passos. Eu já não podia ir por ali, nem por outro caminho, nem por aquele adiante. BSS assumira o comando ao dizer que não me desejava mais.
Depois do eco da sua frase desaparecer, dei comigo sobre as pedras do caminho longo, de pés extenuados, sem coragem de ir a parte nenhuma. Sem BSS à minha beira, que poderia eu fazer, inventar, ambicionar?
Quando me afastei, não fui capaz de dizer nada. O corpo endurecera-me por dentro, as mãos crispadas, os olhos ardentes, os lábios ressequidos. Baixei a cabeça e fui seguindo adiante, sem olhar para trás. Mas eu sabia que BSS continuava a observar-me, sabia que havia de chorar e suplicar arrependimento. Só que nessa altura eu já estaria noutra cidade, noutra casa, noutro muro acabado de encontrar.
Não me atrevi a hesitar. Se o tivesse feito, se tivesse tremelicado um momento, se lhe tivesse pedido para reconsiderar, tudo teria sido diferente.
Mas não o fiz. Não valia a pena. BSS estava no fim e era necessário que eu descortinasse uma solução para mim.
Quando me encontrava já perto do fim da rua, de onde eu desapareceria para sempre, ouvi uns passos curtos e leves correndo atrás de mim. Era BSS que me vinha trazer um pedaço de pão para eu matar a fome quando a sua memória já não fizesse parte da minha alma.
Comi o pão ali mesmo junto aos seus olhos tristes que me perscrutavam.
Eu podia ter dito: - Vamos tentar mais uma vez…
Mas não disse. E toda a tristeza vinha dos seus lábios mortos, quase mortos, desfalecendo num murmúrio que apenas se adivinhava.
Inicialmente, pensei não ter percebido bem, mas BSS confirmou com o rosto tenso que não me queria voltar a ver.
Foi como se tivessem passado dias e anos sobre a sua frase. As suas palavras transformavam tudo: a minha carne, os meus gestos, as minhas ideias, os meus passos. Eu já não podia ir por ali, nem por outro caminho, nem por aquele adiante. BSS assumira o comando ao dizer que não me desejava mais.
Depois do eco da sua frase desaparecer, dei comigo sobre as pedras do caminho longo, de pés extenuados, sem coragem de ir a parte nenhuma. Sem BSS à minha beira, que poderia eu fazer, inventar, ambicionar?
Quando me afastei, não fui capaz de dizer nada. O corpo endurecera-me por dentro, as mãos crispadas, os olhos ardentes, os lábios ressequidos. Baixei a cabeça e fui seguindo adiante, sem olhar para trás. Mas eu sabia que BSS continuava a observar-me, sabia que havia de chorar e suplicar arrependimento. Só que nessa altura eu já estaria noutra cidade, noutra casa, noutro muro acabado de encontrar.
Não me atrevi a hesitar. Se o tivesse feito, se tivesse tremelicado um momento, se lhe tivesse pedido para reconsiderar, tudo teria sido diferente.
Mas não o fiz. Não valia a pena. BSS estava no fim e era necessário que eu descortinasse uma solução para mim.
Quando me encontrava já perto do fim da rua, de onde eu desapareceria para sempre, ouvi uns passos curtos e leves correndo atrás de mim. Era BSS que me vinha trazer um pedaço de pão para eu matar a fome quando a sua memória já não fizesse parte da minha alma.
Comi o pão ali mesmo junto aos seus olhos tristes que me perscrutavam.
Eu podia ter dito: - Vamos tentar mais uma vez…
Mas não disse. E toda a tristeza vinha dos seus lábios mortos, quase mortos, desfalecendo num murmúrio que apenas se adivinhava.