Eu estava ao comprido na cama, sem me mexer. Permanecia de olhos fechados e às vezes espreitava pelo canto do olho. NJD também não se mexia. Era como se a morte tivesse vindo buscar o seu corpo. Mas eu sabia que a sua consciência estava alerta. Eu sabia que no seu íntimo nunca a chama do amor fervera tanto por mim.
Namorávamos há mais de um ano e nunca sentira tanta união entre nós. Tínhamos decidido fazer uma viagem. Veneza era o nosso sonho. Estávamos agora num hotel sem dar acordo de nós. Como se não houvesse nada lá fora à nossa espera. Como se nada nos pudesse cativar tanto como estarmos lado a lado na mesma cama sem esboçar qualquer movimento. As nossas respirações mal se ouviam. Tudo era calmo e silencioso à volta. Deviam ser uma três horas da manhã, mas eu nem tinha paciência de virar os olhos para a mesa-de-cabeceira a fim de me certificar da hora. Nada era importante naquele momento para além de NJD.
Não me interessava saber a que horas acordaríamos na manhã seguinte. O sono não aparecia. E eu sabia que NJD também não dormia. Mas estávamos ali entregues a nós como quem não consegue sair de dentro do quarto onde se meteu.
Não sei quanto tempo depois, NJD virou a cara para mim e disse como num rumor quase inaudível:
– Não quero perder-te…
Eu sabia que as suas palavras eram sinceras. Mas não havia maneira de eu deixar de fazer parte da sua vida. A nossa ligação era de tal forma poderosa que eu imaginava tudo menos uma separação. Não havia brecha nos nossos dias para além de nos possuirmos mutuamente e em permanência.
– Não me vais perder – respondi-lhe, ao fim de uns minutos. – Não quero que me percas. E senti que estas palavras significavam bastante mais do que pareciam. Mas eu não conseguia acrescentar outros argumentos naquele instante.
NJD era uma pessoa fundamental na minha vida. NJD era a minha vida. Sem a sua presença, eu não me saberia situar quanto ao trabalho, às férias, aos divertimentos, aos passeios.
– Queres ir embora amanhã?... – perguntei, hesitante.
– Amanhã não… amanhã não… – replicou NJD. – Amanhã é um dia importante. Não podemos deixá-lo fugir. E logo a seguir pôs-se aos saltos na cama, com a alma transbordante de algo que eu não era capaz de compreender. Eu nunca vira NJD tão incontrolável.
– Que é que te deu? – perguntei, sem obter resposta. NJD parecia ter entrado num processo irreversível de desconexão com o real.
– Vou comprar dois chocolates e já volto – disse, com uma excitação na voz que eu nunca lhe ouvira, enquanto se metia dentro da roupa. – Não demoro cinco minutos. Só dois chocolates.
Não tive coragem de contrariar a sua decisão. Não valia a pena impedir NJD de fazer o que quisesse. A liberdade fazia parte da sua natureza. Os seus olhos estavam sempre a pensar, sempre a vencer o medo do momento que vinha a seguir.
– Não adormeças antes de eu voltar – foram as últimas palavras que lhe ouvi.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Ausência
Cheguei, já fazia escuro, debaixo de um frio de rachar. Andei às voltas para ver onde ficava a entrada principal do edifício e entrei naquela que me parecia ser a porta correcta. As dobradiças rangeram e dei-me conta de que não havia qualquer claridade em redor.
Fiquei sem saber para onde me dirigir. Até pensei em recuar com medo de cair em algum alçapão. Mas depois lá fui avançando às apalpadelas. Tacteei na parede, até que os meus dedos encontraram uma saliência. Era um interruptor. Não funcionava. Senti um arrepio, como se a casa tivesse sofrido um brusco arrefecimento.
– Está alguém? – perguntei, com voz hesitante.
Não houve resposta. E o silêncio manteve-se depois da minha insistência.
Decidi continuar. Avancei no negrume, tentando aproveitar-me de uma fugaz luminosidade que de súbito chegou da rua, onde um anúncio publicitário parecia ter sido ali colocado e reactivado só para me orientar os passos, ainda que eu tivesse de ir fazendo pequenas esperas ao ritmo da luz que apagava e acendia.
À minha frente, deparei com umas escadas e embora não fizesse a mínima ideia do que encontraria, se é que encontraria alguma coisa, optei por subi-las. Fi-lo pé ante pé e a cada momento pensava em algo diferente que me poderia acontecer quando chegasse ao andar superior. Primeiro, pensei que poderia haver um gangster armado de pistolas à minha espera; no degrau seguinte, pensei que haveria um empregado cheio de mesuras para me receber e conduzir ao quarto onde eu dormiria; no terceiro degrau, pensei que minha mãe decidira voltar à terra dos vivos e que se aprestava para ter comigo a conversa pela qual eu ansiara durante anos.
Mas quando atingi o cimo das escadas, nada aconteceu. Só o frio inundava a casa como um terror. Um frio tão frio que por vezes dava a ideia de se transformar em calor.
Segui o corredor ladeado por portas e detive-me junto à última da direita. Era a minha oportunidade. Competia-me abri-la e desvendar o que ficava para lá da escuridão.
Depois de dar a volta ao puxador metálico, dei comigo à entrada de um quarto impecavelmente iluminado e arrumado, com cama larga de casal, onde alguém que estava de costas junto à janela fez um sinal de dedos para que me aproximasse.
– Estás em Amesterdão – ouvi pronunciar de forma monocórdica.
Senti uma vertigem cortante… e não me lembro de mais nada.
Fiquei sem saber para onde me dirigir. Até pensei em recuar com medo de cair em algum alçapão. Mas depois lá fui avançando às apalpadelas. Tacteei na parede, até que os meus dedos encontraram uma saliência. Era um interruptor. Não funcionava. Senti um arrepio, como se a casa tivesse sofrido um brusco arrefecimento.
– Está alguém? – perguntei, com voz hesitante.
Não houve resposta. E o silêncio manteve-se depois da minha insistência.
Decidi continuar. Avancei no negrume, tentando aproveitar-me de uma fugaz luminosidade que de súbito chegou da rua, onde um anúncio publicitário parecia ter sido ali colocado e reactivado só para me orientar os passos, ainda que eu tivesse de ir fazendo pequenas esperas ao ritmo da luz que apagava e acendia.
À minha frente, deparei com umas escadas e embora não fizesse a mínima ideia do que encontraria, se é que encontraria alguma coisa, optei por subi-las. Fi-lo pé ante pé e a cada momento pensava em algo diferente que me poderia acontecer quando chegasse ao andar superior. Primeiro, pensei que poderia haver um gangster armado de pistolas à minha espera; no degrau seguinte, pensei que haveria um empregado cheio de mesuras para me receber e conduzir ao quarto onde eu dormiria; no terceiro degrau, pensei que minha mãe decidira voltar à terra dos vivos e que se aprestava para ter comigo a conversa pela qual eu ansiara durante anos.
Mas quando atingi o cimo das escadas, nada aconteceu. Só o frio inundava a casa como um terror. Um frio tão frio que por vezes dava a ideia de se transformar em calor.
Segui o corredor ladeado por portas e detive-me junto à última da direita. Era a minha oportunidade. Competia-me abri-la e desvendar o que ficava para lá da escuridão.
Depois de dar a volta ao puxador metálico, dei comigo à entrada de um quarto impecavelmente iluminado e arrumado, com cama larga de casal, onde alguém que estava de costas junto à janela fez um sinal de dedos para que me aproximasse.
– Estás em Amesterdão – ouvi pronunciar de forma monocórdica.
Senti uma vertigem cortante… e não me lembro de mais nada.