O seu rosto descansava sobre o meu ombro e eu não conseguia perceber se GTR estava triste ou alegre. Eu sentia o calor da sua respiração sobre a roupa chegando-me à pele, uma aragem suave que me atravessava o coração. Não me apetecia falar, nem fazer perguntas, nem coisa nenhuma.
O céu era cinzento sobre as nossas cabeças. Ameaçava chover e trovejar no ambiente que enchia as almas. Cada suspiro de GTR era um tormento. Eu pensava que a culpa era minha e sentia-me fraquejar, sentia culpa por qualquer coisa que tinha feito, mas que não identificava. E não era capaz de perguntar, com receio de que a resposta viesse piorar as coisas.
O cabelo de GTR, anelado e revolto, agasalhava-me o pescoço. Os seus braços apertaram-me, apertaram mais, e depois seguiu-se uma respiração mais funda misturada com murmúrios de apoquentação indecifrável.
“De hoje não escapo”, pensei.
Mas não havia maneira de GTR dizer alguma coisa. Nem eu encontrava saída para me libertar das suas garras.
Abracei-lhe o corpo, apertei-o até lhe fazer ceder os músculos sob a minha força, a minha ansiedade, a minha preocupação.
Lembrei-me do dia em que conheci GTR: eu sentara-me numa mesa de café, abrigando-me da chuva e, de súbito, vejo sentar-se à minha frente alguém iluminado e radioso que perguntou se podia descansar por uns momentos. Era um vulto erguido contra o sol cujos contornos eu dificilmente vislumbrava. Respondi afirmativamente e fiquei a ouvir o que me dizia. Ao fim de mais de uma hora de conversa animada, percebi que tão cedo não nos separaríamos.
GTR falava e ria, mesmo quando as suas palavras davam vontade de chorar. E, para não chorar, eu também ria, tentando mudar de conversa, embora sabendo que nos próximos tempos não reencontraria a solidão que ali me trouxera.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Atracção
Eu olhava para o quadro sem poder resistir ao seu poder de atracção. Aconteceu desde que entrei na sala de exposições. Havia nele qualquer coisa que se apoderava do meu ser e que me alterava os sentidos. Não era um quadro famoso ou algo que se parecesse. Para dizer a verdade, nem recordo o nome do seu autor, muito menos de que quadro se tratava. Só sei que era um quadro e isso bastava-me. Foi numa galeria em Madrid. Eu tinha entrado para perguntar qualquer coisa na recepção e de súbito dei por mim de olhos colados na tela que mostrava um rosto distorcido a estrebuchar de dor.
A minha primeira reacção foi sair imediatamente e não voltar a pensar no que vira. Pus a hipótese de o quadro ter sido pintado com intenções subliminares de cativar eventuais compradores e eu não podia correr o risco de fazer uma loucura porque tinha o dinheiro contado até ao dia de chegar a casa. Não me restava um tusto para despesas extraordinárias.
Como não se encontrava ninguém na recepção, acabei por ficar à espera de ser atendido e, ao mesmo tempo, dediquei-me a analisar melhor o rosto deformado para o qual eu não conseguia deixar de olhar por um momento.
Fui andando pela galeria para observar a obra de outros ângulos e quando dei por mim já estava numa sala diferente, embora o quadro continuasse na minha frente, como se eu tivesse passado de uma divisão para outra sem sair do mesmo sítio. Calculei que o erro de percepção tivesse sido meu, preferindo deixar de lado conjecturas.
Esperei que aparecesse alguém na galeria, que se ouvisse um ranger de soalho… uma porta mal fechada. Em vão. Ao fim de um tempo, fui-me habituando à sala e deixei-me ficar por ali na companhia do quadro.
Na convicção de que a galeria estava abandonada, decidi assumir funções de recepcionista, o que ao menos justificaria a minha presença, caso alguém aparecesse e me fizesse alguma pergunta.
Quando chegou a hora de fechar, não hesitei: apaguei as luzes e saí sem dar nas vistas. Pouco depois, dei por mim dentro de um táxi, com o quadro do rosto distorcido bem apertado debaixo do braço.
Fiquei sem saber o que pensar da minha atitude. Incapaz de organizar ideias. Sob um atordoamento completo.
Ao fim de dez minutos, pedi para descer e pus-me a vaguear pelas ruas sem destino. Entrei num supermercado que se preparava para fechar, escolhi duas laranjas, paguei-as, esgueirei-me para a rua e enfiei o quadro dentro do saco de compras.
A minha primeira reacção foi sair imediatamente e não voltar a pensar no que vira. Pus a hipótese de o quadro ter sido pintado com intenções subliminares de cativar eventuais compradores e eu não podia correr o risco de fazer uma loucura porque tinha o dinheiro contado até ao dia de chegar a casa. Não me restava um tusto para despesas extraordinárias.
Como não se encontrava ninguém na recepção, acabei por ficar à espera de ser atendido e, ao mesmo tempo, dediquei-me a analisar melhor o rosto deformado para o qual eu não conseguia deixar de olhar por um momento.
Fui andando pela galeria para observar a obra de outros ângulos e quando dei por mim já estava numa sala diferente, embora o quadro continuasse na minha frente, como se eu tivesse passado de uma divisão para outra sem sair do mesmo sítio. Calculei que o erro de percepção tivesse sido meu, preferindo deixar de lado conjecturas.
Esperei que aparecesse alguém na galeria, que se ouvisse um ranger de soalho… uma porta mal fechada. Em vão. Ao fim de um tempo, fui-me habituando à sala e deixei-me ficar por ali na companhia do quadro.
Na convicção de que a galeria estava abandonada, decidi assumir funções de recepcionista, o que ao menos justificaria a minha presença, caso alguém aparecesse e me fizesse alguma pergunta.
Quando chegou a hora de fechar, não hesitei: apaguei as luzes e saí sem dar nas vistas. Pouco depois, dei por mim dentro de um táxi, com o quadro do rosto distorcido bem apertado debaixo do braço.
Fiquei sem saber o que pensar da minha atitude. Incapaz de organizar ideias. Sob um atordoamento completo.
Ao fim de dez minutos, pedi para descer e pus-me a vaguear pelas ruas sem destino. Entrei num supermercado que se preparava para fechar, escolhi duas laranjas, paguei-as, esgueirei-me para a rua e enfiei o quadro dentro do saco de compras.