À minha frente havia uma quantidade de gente que me olhava à espera que eu dissesse alguma coisa. Rostos gordos, magros, sérios, perplexos, curiosos, indiferentes, agitados.
Eu estava por trás de uma mesa, de perna cruzada, à espera que a solidez da cadeira me ajudasse a superar aquele momento difícil, com as mãos sobre os papéis colocados à minha frente.
A sala estava cheia, mas eu preferia que não houvesse vivalma num raio de quilómetros à minha volta. Cada pessoa que me olhava esperava que eu fosse ao encontro das suas ideias, só que não era esse o objectivo da minha presença ali. Tinham-me convidado para falar porque partiam do princípio de que eu tinha algo original para dizer. De outra forma, não se teriam dado ao incómodo de me contactar, de me pagar deslocação e hotel.
Eu passava os olhos pela maior quantidade possível de olhares, a ver em qual deles me fixaria, a ver se algum me ajudava a clarificar o turbilhão que me ia na mente, a ver se um qualquer imprevisto alterava o rumo dos acontecimentos, mas acabava por voltar ao início em situação ainda mais hesitante para enfrentar a assistência.
Todos os olhares eram diferentes, por isso eu não considerava possível satisfazê-los individualmente. Em cada rosto havia uma expectativa própria, uma interrogação secreta, uma reflexão específica ou difusa, o que não me ajudava a ganhar coragem para dar início à minha apresentação.
Se cada pessoa presente tinha a sua forma de pensar e de encarar as realidades, eu só podia fracassar no que tinha para dizer, porque não havia maneira de transmitir uma ideia particular a cada olhar que me fixava. Tinha de me agarrar a um tema central e procurar transmiti-lo o melhor que sabia, sem me preocupar com as reacções dos que me tinham vindo ouvir.
Era natural que alguns dos presentes concordassem comigo e outros não. Os primeiros sentir-se-iam compensados por terem comparecido, enquanto os segundos se irritariam e, porventura, me confrontariam com questões a que eu não saberia responder, humilhando-me publicamente.
Só de pensar nesta última possibilidade pus a hipótese de abandonar a sala antes de proferir a primeira palavra. Ainda nem tinha dito “boa noite” e já sentia que a situação me ultrapassava por completo. Tive a nítida impressão de que não haveria entre a assistência uma única alma que se identificasse comigo.
Arrependi-me mil vezes por ter dito que “sim” ao convite. Devia ter dado a desculpa de que não me encontrava bem de saúde ou que a minha ocupação profissional não me permitia brecha alguma.
Não o fiz. Agora, era tarde. Qualquer recuo teria consequências nefastas para todos.
Não valia a pena estar com hesitações. O papel tremia-me nas mãos.
Esforcei-me para dissimular o nervosismo. Olhei a assistência, por uma última vez, pensei que fora um erro ter acordado naquele dia, tossi para aclarar a garganta, levei a mão à boca com o fim de humedecer os lábios, ajustei os papéis à luz forte que caía do tecto e inclinei-me na direcção do microfone…
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Imoderação
Eu sentia a chama da boca imparável sobre o meu lado esquerdo, a pele colada à minha pele, o rosto comprimido contra o meu pescoço, as pestanas humedecidas rente aos meus poros eriçados. SMG respirava, de forma cadenciada, excitando-me, progressivamente, como se pretendesse conquistar-me de forma irremediável, fazendo-me ceder aos seus apetites. E quanto mais aguda era a minha percepção dos seus intentos, mais eu estava na disposição de me entregar, de me abandonar.
Deviam ser umas sete da tarde, mas eu não tinha a certeza de que assim fosse. Não conseguia recordar-me se estávamos na hora de Inverno ou de Verão.
Olhei pela janela que ficava por trás de SMG e não fui capaz de vislumbrar mais do que as luzes rotineiras do fim do dia. Ouvia-se o ruído dos motores nas ruas com filas compactas de carros, dando a ideia de que nenhum alguma vez conseguiria chegar ao destino. Era como se as pessoas pudessem ficar a viver para sempre dentro dos automóveis.
Enquanto eu ia pensando nestas coisas, SMG ia-me percorrendo com os seus lábios de sal, quase os derretendo nas deambulações pelos contornos da minha agitação.
Eu sabia que SMG fazia planos enquanto me tocava, mas não me apetecia falar de nada, nem perceber o que quer que fosse. O que eu desejava era sentir a totalidade daquele momento e contribuir para que ele se prolongasse o mais possível.
Havia a possibilidade de alguém bater à porta, interrompendo o que fazíamos numa casa perdida no centro de Madrid. Se tal acontecesse, eu teria um sobressalto e agarrar-me-ia a SMG, pedindo que não abríssemos a porta. Tínhamos gente amiga que nos convidava para sair e que por vezes nos visitava sem avisar, mas naquele dia eu não trocava SMG por nada do mundo.
A saliva de SMG estava por todo o meu corpo, como dedos liquefeitos que deslizavam ao ritmo dos seus cabelos anelados sobre as minhas pernas, ventre, costas, ombros, seios.
– Pára! – gemi eu, a certa altura. E insisti: – Por favor, não, não faças mais… vais dar cabo de mim… controla-te… espera… – mas SMG não queria mesmo saber do que eu lhe dizia. Pelo contrário, quanto mais lhe pedia que moderasse os seus ímpetos, mais se descontrolava, mais vibrava, mais arriscava. Era uma verdadeira máquina avassaladora sem consciência dos limites.
Deviam ser umas sete da tarde, mas eu não tinha a certeza de que assim fosse. Não conseguia recordar-me se estávamos na hora de Inverno ou de Verão.
Olhei pela janela que ficava por trás de SMG e não fui capaz de vislumbrar mais do que as luzes rotineiras do fim do dia. Ouvia-se o ruído dos motores nas ruas com filas compactas de carros, dando a ideia de que nenhum alguma vez conseguiria chegar ao destino. Era como se as pessoas pudessem ficar a viver para sempre dentro dos automóveis.
Enquanto eu ia pensando nestas coisas, SMG ia-me percorrendo com os seus lábios de sal, quase os derretendo nas deambulações pelos contornos da minha agitação.
Eu sabia que SMG fazia planos enquanto me tocava, mas não me apetecia falar de nada, nem perceber o que quer que fosse. O que eu desejava era sentir a totalidade daquele momento e contribuir para que ele se prolongasse o mais possível.
Havia a possibilidade de alguém bater à porta, interrompendo o que fazíamos numa casa perdida no centro de Madrid. Se tal acontecesse, eu teria um sobressalto e agarrar-me-ia a SMG, pedindo que não abríssemos a porta. Tínhamos gente amiga que nos convidava para sair e que por vezes nos visitava sem avisar, mas naquele dia eu não trocava SMG por nada do mundo.
A saliva de SMG estava por todo o meu corpo, como dedos liquefeitos que deslizavam ao ritmo dos seus cabelos anelados sobre as minhas pernas, ventre, costas, ombros, seios.
– Pára! – gemi eu, a certa altura. E insisti: – Por favor, não, não faças mais… vais dar cabo de mim… controla-te… espera… – mas SMG não queria mesmo saber do que eu lhe dizia. Pelo contrário, quanto mais lhe pedia que moderasse os seus ímpetos, mais se descontrolava, mais vibrava, mais arriscava. Era uma verdadeira máquina avassaladora sem consciência dos limites.