quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Faiscante

Era noite no rio e CSG estava sob o luar diante dos meus olhos. Os seus cabelos curtos ondulavam ligeiramente na brisa da viagem, enquanto eu não conseguia desviar a atenção do seu corpo esguio e alto.
O barco deslizava lentamente na ondulação ligeira e fresca, com uma breve inclinação para a Lua que enchia a paisagem.
CSG ia ao leme e eu apenas olhava o tempo que corria sobre nós.
Nada tínhamos para fazer e CSG lembrara-se de usar o barco da família para me mostrar o rio.
Eu queria o seu odor de amêndoa ao pé de mim, mas o leme não dispensava os seus cuidados. Ainda demoraria cerca de uma hora até que o barco parasse e pudéssemos conversar à vontade, sem olhares que nos descobrissem.
CSG contraíra matrimónio com LT, mas desde que nos conhecêramos andávamos às escondidas por aqui e por ali, aos beijos, abraços e amores sem fim. Naquela noite, CSG tivera a ideia do barco. LT tinha-se ausentado para Roma e não daria por nada.
O barco deteve-se na parte mais larga do rio. CSG fez descer a âncora e veio sentar-se junto de mim com um suspiro do tamanho das águas. Abracei-lhe a cintura por baixo da camisola leve. Encostámo-nos mais e desatámos a beijar-nos sofregamente.
Ao fim de uns minutos, porém, eu tive um sobressalto e pensei que LT poderia aparecer a qualquer momento. Vindo de onde, eu não sabia. Mas viria do rio, com certeza. Viria da noite, de dentro de uma nuvem, ou saltando por cima da ondulação ligeira do rio.
CSG sentiu o meu receio, a minha inibição. Afastou a cabeça e fixou-me nos olhos para adivinhar os meus pensamentos.
- Não te preocupes – disse. – Não há hipóteses de nos encontrarem aqui…
Eu ri, mas nem por isso descontraí. Pelo contrário, o à vontade de CSG aumentou a minha preocupação.
- E se tudo isto for uma armadilha? – perguntei.
CSG deu uma gargalhada e voltou a beijar-me, como se não quisesse voltar a ouvir-me.
- Daqui a pouco, vamos descer e tomar uma bebida fresca.
Senti um arrepio. Qualquer coisa começava a não bater certo. Talvez o problema fosse apenas comigo, mas naquele momento não era possível saber. Havia o rio, o barco e nós. Mais nada. Por que razão havíamos de descer? Não poderíamos tomar a bebida no sítio onde estávamos? Haveria no piso inferior algo que pudesse pôr em risco a minha segurança?
Nunca mais serenei. Ainda nos beijámos mais umas vezes, abraçámos, murmurámos palavras melosas, mas o rio já não me parecia mesmo. A tranquilidade tinha desaparecido.
- Vamos embora – pedi.
CSG parecia não acreditar no que ouvia.
- Ainda é tão cedo… - disse, com surpresa.
- Não consigo continuar aqui – repliquei, com o nítido pressentimento de que LT estava cada vez mais próximo e que apareceria de um instante para o outro. – Havemos de voltar noutro dia.
CSG fez-me a vontade. Foi para o leme e pôs o motor a trabalhar, no momento preciso em que um raio faiscante cortou a noite, fazendo estremecer as brisas sobre o rio…

domingo, 16 de novembro de 2008

Duas pérolas viradas para o céu

Eu olhava JPR e via tristeza, solidão, desamparo. Percebia os seus queixumes secretos, a sua completa ausência de dúvidas. Adivinhava as suas interrogações sobre o momento em que tudo aconteceria. JPR não tinha coragem de perguntar, mas eu vislumbrava os percursos da sua alma.
Desde que me contara a verdade, os dias tinham caído numa modorra negra de noite sem fim. Era um tempo frio em cada palavra sua pronunciada sobre o meu corpo.
Eu pedia que JPR me esquecesse, mas quanto mais o fazia mais sentia a sua existência em mim. JPR preenchia-me a todo o momento.
Por vezes, aproximava-se e conseguia sorrir.
Anos antes, tínhamos andado pelas ruas de Amesterdão como dois cordeiros encantados com as luzes das montras, candeeiros e neons. Depois, separáramo-nos e perdêramo-nos de vista.
Quando JPR voltara, décadas mais tarde, vinha com os olhos fora das órbitas e o seu rosto não enganava. Tinha andado pelo mundo sem destino. Vi a marca no seu ombro. A marca da dor latejante.
JPR notou a minha atenção, mas nada disse. Esperou que eu perguntasse.
Reclinou-se na cadeira e fechou os olhos como se precisasse de uns momentos para me reconhecer, para me localizar, para me lembrar plenamente.
Depositei-lhe um beijo nos cabelos e esperei que reagisse, mas na sua face só havia distância como um pássaro perdido do ninho.
Via-se que a sua fraqueza era cada vez maior. Os seus músculos cinzentos e mirrados, os seus lábios secos, os seus cabelos esfiapados.
Eu fazia contas de cabeça, mas não chegava a conclusões.
No dia seguinte, tomámos o pequeno-almoço, em silêncio, com os olhos caídos sobre a mesa como bagos de uva.
Faltava pouco para JPR me deixar. Quanto mais eu esperasse, mais penoso seria. Cada minuto contava.
JPR não tocou na manteiga, nem no pão. Murmurou sons desconexos. Gemidos.
– Diz-me se te dói – pedi eu.
Mas a resposta não veio. JPR estava sem forças.
– Queres que chame alguém? – perguntei.
Ao fim de uns minutos, já nem gemia. Os seus olhos pareciam duas pérolas viradas para o céu.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Aquela cara de elefante nas horas distorcidas

Sob a cadeira havia um som arrastado que dava a impressão de me querer dizer alguma coisa. Era um murmúrio que escorria como um fio de água rente ao chão. Sentara-me para descansar, mas não havia maneira de me deixarem em paz. Havia sempre qualquer coisa que circulava à minha volta incendiando as pequenas atmosferas sob as quais eu me protegia. Era um sinal. O sinal de um som que me invadia desde os fundos por baixo da cadeira na qual eu tinha por hábito descansar.
Ao entrar em casa, se não me apetecia fazer nada, deixava-me cair como um saco, com os braços ao longo do corpo, pernas estendidas, músculos inertes, cabeça caída sobre o queixo, sem pensar no que me acontecera naquele dia.
Surgiam-me sempre coisas nas quais eu evitava pensar: as bichas do supermercado onde eu comprava as sandes do dia, a incompreensão da polícia quando me atrevia a furar entre os carros entupidos, os maus olhares dos traficantes que me assolavam como varejeiras nas esquinas, o vendedor de relógios suado e pegajoso, a chuva que me arreliava os planos, os comboios que não chegavam ao destino, as minhas noites sem rumo entre França e Itália.
Eu regressava à pensão, sentava-me e evitava pensar. Mas a cadeira vomitava por baixo da sombra que havia em mim. Vomitava sons, em contínuo, como arrotos teimosos que se prolongavam.
Pus-me à escuta a ver se entendia. Talvez as paredes cinzentas do quarto quisessem fazer-me chegar alguma mensagem. Há dias que eu não tinha notícias de ninguém. É verdade que tinha mudado de paradeiro, mas também era verdade que qualquer pessoa teria facilidade em encontrar-me. Eu dera o meu nome verdadeiro na pensão e um simples telefonema para a polícia seria suficiente para me localizar.
Então, viera aquele som ininterrupto derramado sobre o chão. Foi por causa dele que deixei Florença e regressei a Lyon sem me preocupar com planos de pormenor. Nunca consegui decifrar a origem do som. Era um ruído manso, contínuo, de sílabas mudas, de cor azul acinzentado escorregando, lentamente, sobre as irregularidades do soalho. Fazia lembrar uma melodia sem voz nem instrumentos, só preenchida por rumores inventados na memória do tempo.
– Não tenho forma de sair daqui – murmurei, sabendo que ninguém me poderia salvar.
Olhei para a mochila e senti que o meu tempo terminara. Há dias que não conseguia serenar, por culpa do som que corria teimoso por baixo da cadeira, apesar dos meus esforços para o travar. Se compreendesse o que se passava, eu tinha a certeza de que impediria o seu avanço. Mas não era o caso.
– Pára… – dizia, em voz alta, como se o simples eco das minhas palavras pudesse refrear a marcha do som dentro do quarto onde eu me afogava aos poucos. Mas de cada vez que eu falava parecia que o som engrossava sob a cadeira. Qualquer movimento que eu fizesse era uma ajuda ao inimigo que acometia contra mim. Sempre que eu abria os olhos, via aquela cara de elefante nas horas distorcidas.