O seu rosto estava sobre o meu ombro e eu não conseguia perceber se GTR estava triste ou alegre. Eu sentia o calor da sua respiração na roupa colada à pele, uma aragem suave que me atravessava até ao coração. Não me apetecia falar, nem fazer perguntas, nem coisa nenhuma.
O céu estava cinzento sobre o tecto das nossas cabeças. Ameaçava chover. Ameaçava trovejar nas nossas almas. Cada suspiro de GTR fazia-me fraquejar. Cada suspiro seu era um tormento. Eu pensava que a culpa era minha. Sentia culpa por qualquer coisa que tinha feito, mas não sabia o quê. Também não era capaz de perguntar, com receio de que a resposta viesse piorar tudo o que estava a acontecer.
O cabelo de GTR, anelado e revolto, agasalhava-me o pescoço. Os seus braços apertaram-me, apertaram mais, e depois seguiu-se uma respiração funda que resultava de cinco ou seis suspiros somados.
“De hoje não escapo”, pensei. “Hoje é o meu último dia”.
Mas não havia maneira de GTR dizer alguma coisa. Não havia maneira de me libertar das suas garras doces.
Abracei o seu corpo, também. Apertei-o até fazer ceder os seus músculos sob a minha força, a minha ansiedade, a minha preocupação.
Lembrei-me do dia em que conheci GTR: eu descansava numa mesa de café, abrigando-me da chuva e, de súbito, vejo aproximar-se uma pessoa iluminada e radiosa que perguntou se podia sentar-se à minha mesa.
Respondi que sim e fiquei a ouvir o que tinha para dizer. Ao fim de uns minutos, percebi que tão cedo não nos separaríamos.
GTR falava e sorria, simultaneamente, mesmo quando as suas palavras davam vontade de chorar. E, para não chorar, eu também ria, sorria, tentando mudar de conversa, embora sabendo que não conseguiria sair dali com a mesma solidão com que entrara. Ainda hoje continuo a pensar que GTR sorria e falava ao mesmo tempo para não pensar, para não se desintegrar.
Três semanas depois, GTR ainda estava comigo. Tínhamos vindo para casa conversar, mas acabáramos por não nos separar. Contudo, durante aquelas três semanas, eu nunca deixara de sentir que GTR estava de partida. Era uma sensação sem fundamento, mas não conseguia lidar com o caso de outra maneira. Em GTR, tudo era leve, ligeiro, banal. Talvez fosse essa a causa do sentimento de perda iminente que tomara conta de mim. Se GTR tivesse permanecido em minha casa por cinquenta anos, nem por isso eu teria sentido de outra maneira.
Vivemos dias arrasadores. Nunca saímos do quarto onde dormimos. Só de vez em quando eu ia à cozinha fazer um café ou uma torrada que nos pudesse manter com vida.
Não nos apercebemos da passagem do tempo. Ao fim de três semanas, eu já devia ter perdido o emprego e o mesmo devia ter acontecido com GTR. Mas não nos importávamos com isso. O que tínhamos descoberto era mais forte que tudo. Quase um mundo paralelo que estávamos prestes a perder.
Quando o dia da partida chegou… ainda dava a sensação de que poderíamos estar no início –sempre no início – de um processo, de qualquer coisa circular que nos sugava.
Abraçámo-nos, sem coragem de emitir palavra. Só nos apertámos até aos ossos. Depois, como se para evitar qualquer justificação, GTR desatou a correr porta fora, enquanto eu me lançava para a janela, na expectativa de acompanhar a sua fuga por trás da copa de uma árvore, junto à esquina de um prédio em construção, através de cujas vigas o sol enlouquecia com brandura.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Na esperança de que ressuscitasses
Querias o amor, mas ao mesmo tempo recusava-lo. O dilema era mais forte do que tu. Ficavas a ouvir-me noites inteiras, em silêncio, como se dependesse de mim tudo o que faltava resolver. Deixava-me ir atrás das minhas próprias palavras, sabendo que me ouvirias, mesmo que não compreendesses partes do que eu dizia. Perdia-me em cada frase, em cada ideia que se enovelava no labirinto dos sons. Perdia-me e sentia-me útil, desconcertante.
Às vezes, fazia-te perguntas e tu rumorejavas qualquer coisa que pouco ou nada acrescentava aos factos, às descrições, aos labirintos por onde eu me metia para te comunicar alguma coisa que não podia deixar de partilhar.
Entrelaçava a minha mão na tua, na esperança de que ressuscitasses e sentia o teu corpo inteiro por entre os nossos dedos vibrantes.
Pensavas em quê? Nunca o saberei. Muitas vezes, tentei adivinhar, mas o meu esforço era vão. Sempre te recusaste a contar-me o que sentias, o que receavas no meio da tormenta.
E fomos sobrevivendo. Quase sem darmos por isso. Houve alturas em que de repente dizias querer ir-te embora e houve outras em que me apontaste a porta de saída e disseste que estava na minha vez de procurar um novo caminho. Minutos depois, mudavas de ideias e já nada fazia sentido.
Eu ia ficando e passando. Porque dentro de ti havia uma cola que me segurava, havia algo inexplicado que mantinha a sua consistência. Como numa viagem em que a mesma paisagem está sempre a mudar.
Fiz-te propostas. Não quiseste saber.
Julgavas-me em demasia, não sei como, nem porquê. E dizias que não estavas na disposição de me aturar.
Um dia, entraste em casa às tantas da manhã, deitaste-te a meu lado na cama, encostaste-te, aqueceste-me e murmuraste-me ao ouvido o que tinhas andado a fazer. Senti um calafrio, uma impressão no estômago que ainda hoje me arrepia. Rias-te imenso, com a tua boca grande, rias baixinho com a tua boca de borboleta esvoaçante por entre os reflexos da noite.
- É agora que me vais deixar em paz? – perguntaste.
Não fui capaz de te responder. A minha vertigem cobria a noite redonda. Não via nesga por onde escapar, embora eu não tivesse a certeza de te querer deixar. Só queria encontrar um momento no qual me pudesse afundar e desaparecer por umas horas, para depois voltar a ti e ao que havias feito.
Era aí o meu ninho. O sítio de onde vinhas era o que eu tanto procurava. A minha viagem parada no tempo contigo.
- Voltemos ao princípio… – disseste, sempre a rir nos cantos amarelos da escuridão.
Às vezes, fazia-te perguntas e tu rumorejavas qualquer coisa que pouco ou nada acrescentava aos factos, às descrições, aos labirintos por onde eu me metia para te comunicar alguma coisa que não podia deixar de partilhar.
Entrelaçava a minha mão na tua, na esperança de que ressuscitasses e sentia o teu corpo inteiro por entre os nossos dedos vibrantes.
Pensavas em quê? Nunca o saberei. Muitas vezes, tentei adivinhar, mas o meu esforço era vão. Sempre te recusaste a contar-me o que sentias, o que receavas no meio da tormenta.
E fomos sobrevivendo. Quase sem darmos por isso. Houve alturas em que de repente dizias querer ir-te embora e houve outras em que me apontaste a porta de saída e disseste que estava na minha vez de procurar um novo caminho. Minutos depois, mudavas de ideias e já nada fazia sentido.
Eu ia ficando e passando. Porque dentro de ti havia uma cola que me segurava, havia algo inexplicado que mantinha a sua consistência. Como numa viagem em que a mesma paisagem está sempre a mudar.
Fiz-te propostas. Não quiseste saber.
Julgavas-me em demasia, não sei como, nem porquê. E dizias que não estavas na disposição de me aturar.
Um dia, entraste em casa às tantas da manhã, deitaste-te a meu lado na cama, encostaste-te, aqueceste-me e murmuraste-me ao ouvido o que tinhas andado a fazer. Senti um calafrio, uma impressão no estômago que ainda hoje me arrepia. Rias-te imenso, com a tua boca grande, rias baixinho com a tua boca de borboleta esvoaçante por entre os reflexos da noite.
- É agora que me vais deixar em paz? – perguntaste.
Não fui capaz de te responder. A minha vertigem cobria a noite redonda. Não via nesga por onde escapar, embora eu não tivesse a certeza de te querer deixar. Só queria encontrar um momento no qual me pudesse afundar e desaparecer por umas horas, para depois voltar a ti e ao que havias feito.
Era aí o meu ninho. O sítio de onde vinhas era o que eu tanto procurava. A minha viagem parada no tempo contigo.
- Voltemos ao princípio… – disseste, sempre a rir nos cantos amarelos da escuridão.