domingo, 24 de maio de 2009

O meu dedo quase desaparecido

Entrámos na casa, pousámos os sacos de viagem e pusemo-nos a olhar em redor a ver se era verdade o que se ouvia dizer. Havia um silêncio doce que inundava os quartos e que transbordava pelas portas entreabertas até junto dos nossos pés. Numa das paredes da sala, os retratos dos proprietários olhavam-nos com ar minucioso e autoritário.
MET sempre dissera que nada receava, mas eu não tinha a certeza se as suas palavras pretendiam tranquilizar-me ou se correspondiam ao que realmente sentia. Avançou na direcção da cozinha, procurando descobrir onde ficava a casa de banho, e eu apressei-me a seguir-lhe no encalço, não fosse dar-se o caso de me surgir pela frente algo inesperado.
- Vou tomar duche – disse MET, com uma naturalidade que me arrepiou, enquanto eu aproveitava para deitar uma olhadela à cozinha, que ficava mesmo ao lado da casa de banho.
Enquanto MET tomava duche, pus-me a mexer em tachos e pratos e fui dispondo a mesa para o jantar. Havia sopa de legumes, chouriço, queijo, ovos, vinho. Mais do que o suficiente para aquecer a noite.
Quando MET terminou o banho, avancei para o duche, empenhando-me em vigiar a sua sombra do quarto para a cozinha e da cozinha para o quarto. Era a melhor companhia que podia ter naquele momento.
- Já viste bem o quintal? – Perguntei, erguendo a voz acima do barulho da água do duche, enquanto me ensaboava à pressa, para evitar que alguma coisa me escapasse ao controlo.
Logo que acabei de me enxugar e vestir, sentámo-nos à mesa e desatámos a vazar a garrafa de vinho. MET cozinhava bem, o que contribuiu para animar o serão. Falámos tanto que nem demos pela passagem das horas.
À meia-noite, MET levantou-se e disse que se ia deitar. Senti um arrepio, mas contive-me. Só quando me preparava para entrar na cama ousei perguntar se havia algum problema em dormirmos de luz acesa. MET desatou a rir com os olhos ensonados e replicou que lhe era indiferente. Apetecia-me pedir-lhe que passasse a noite em claro…
Havia na casa uma pressão invisível e inexplicável. Mas eu não tinha a certeza se isso era efeito do vinho, ou se se tratava de uma situação real que estava a tomar conta de mim.
Olhando para MET, com a roupa da cama puxada para o queixo, eu não adivinhava que sensações invadiam a sua mente. Perguntei-lhe como se sentia e a resposta que obtive foi que não se podia sentir melhor. Eu não percebia o seu à vontade numa casa que tinha a carga que aquela tinha. Era provável que MET estivesse apenas a tranquilizar-me, mas nunca tive oportunidade de o confirmar.
- Achas que conseguiremos dormir sem problemas? – Perguntei, metendo conversa.
- Por que não? – Replicou MET. – Não vejo qualquer problema. – Notas algo de estranho?
- Não – retorqui, embora tivesse dúvidas sobre a exactidão das minhas palavras.
Quando me apercebi de que MET dormia a sono solto, compreendi que a partir daquele momento estava por minha conta.
Dei graças por ter bebido bastante vinho ao jantar. Mas também sabia que, se o não tivesse feito, teria uma percepção mais nítida sobre o que estava a acontecer na casa. Porque estava a acontecer qualquer coisa. Só que eu não sabia o quê, nem como, nem desde quando. Nem tinha hipóteses de impedir o que quer que fosse. Havia uma paz sublime que inundava tudo em volta… uma luz que se ia tornando cada vez mais intensa… e cujo âmago o meu dedo quase desaparecido jamais alcançaria.

domingo, 10 de maio de 2009

O amor está em toda a parte

Escrever é assumir a plenitude do corpo. É nesse momento sem tempo que a alma se torna inteira, passeando por entre os candeeiros de rua onde não há brisa que corra. Juntar palavras que começam na respiração da água enquanto os passos se vão esfumando entre pingos. Cada palavra escrita tem dentro dela o combate dos mortos, dos finados, dos que em cada sílaba se deixaram agonizar e acabar. Sons que se desfazem, refazendo os dias sobre o coração. Nada se consegue justificar sem escrever, esse pensamento metódico que nos faz selvagens com voz desarticulada.
Quando se vê, escreve-se. Escreve-se o que se vê, para além do que ver inspira. Ao escrever, vai-se vendo mais, caminhando palavra a palavra. A escrita está nos olhos sob o reflexo do que se deseja e não se diz.
Escreve-se por miséria e por grandeza. Na borda de uma pedra que o vento encosta, retábulo de uma conversa interrompida, rosto do que falta explicar. Juntar palavras, erguê-las, destruí-las, recuperá-las, ungi-las. A escrita corre pelos dedos. Escoa-se, perde-se. Nada faz sentido, nada se ergue, nada se alcança quando a escrita se ausenta.
Dá-se um passo, hesita-se, recua-se. É assim a escrita. Junta as mãos sobre o peito e reza por nós, por todos os que sofrem em nós.
Aproximou-se de mim aquele rosto escrito que me rodeou, me encheu, me espiou, me invadiu. Deixei-me afundar no seu brilho de palavras silenciosas. Era a palavra que voltava. Voltava sempre maior, mais refulgente.
E veio gente vestida de branco sossegar a minha angústia e pedir liberdade. Quando não escrevemos deixamos de estar presos. Há uma força em nós que não se aquieta. Deus-palavra sobre as rosas da tarde, sossegadas, insistentes, abelhas incapazes.
Escrever é o espaço das razões, das nuvens correndo sobre as marés. Mares acorrentados dentro das palavras.
Como posso não escrever? Como posso não pensar?
Escrevo para ir de viagem sem regresso, por montes e vales e praias húmidas, alheias ao descanso e à lógica.
Assim me entendo. Para saber de mim noutros sítios e linguagens, para me reencontrar na negação dos outros em mim. Seguir por dentro de cidades com histórias sem nome. Sempre cidades. Até de madrugada.
Que interessa o resto? As avenidas continuarão em mim, continuarão no seu burburinho de gente descabelada e agreste que avança nas fachadas ardentes. Mistério das viagens e sóis quando nascem.
Não fora assim e nada jamais existiria, nada jamais mereceria ser escrito. Foi esta a razão de ser que encontrei. Escrever o que não se traduz.
Poderia ir por aqui adiante, eternamente, sem nunca terminar a escrita, porque a escrita é eterna e essa é a sua finalidade exclusiva.
Quero ser escrita. Apenas. Irremediavelmente. Existir na escrita e não ouvir nem ver coisa nenhuma. Não interessa o dia nem a hora. O amor está todo em toda a parte.