sábado, 25 de julho de 2009

Que não saibam de onde venho nem para onde vou

Todas as manhãs desloco-me a um bar de hipermercado, onde tenho por hábito encostar-me a uma mesa de pé alto, diante de duas chávenas de café e uma sandes de queijo. É a minha viagem matinal, a uma distância de breves minutos da casa onde vivo. Por vezes, chego alguns momentos antes de o estabelecimento abrir, tal a minha necessidade de beber aqueles dois cafés e comer aquela sandes de queijo. Saio de casa a pensar no que vou ingerir e quando regresso venho com a mente a fervilhar de ideias e desejos.
Se chego ao hipermercado antes das nove horas, permaneço dentro do carro a ouvir a música que antecede o noticiário, enquanto vou olhando para outras pessoas que, como eu, esperam pela abertura da porta.
A superfície comercial tem multibanco, loja de roupa, perfumaria, cabeleireiro, florista, para além do espaço de venda principal, onde posso comprar tudo o que preciso.
Enquanto bebo os cafés e mastigo a sandes de queijo, penso no que me falta em casa (hesitando se o devo comprar naquele dia ou no seguinte) e vou mirando o átrio de entrada praticamente vazio, as caixas registadoras à espera de clientes, o bar com as poucas vivalmas que tomam o pequeno-almoço.
As pessoas do serviço de bar já me conhecem e nem preciso de abrir a boca quando me dirijo à caixa de pré-pagamento. É uma vantagem não dar explicações àquela hora da manhã. Ao menos não perfuro os tímpanos de ninguém, não incomodo, não firo sensibilidades.
Estendo a mão com uma moeda e sei que não demorará até me servirem os dois cafés e a sandes de queijo. Por vezes, vêem-me de longe ainda antes de eu chegar ao balcão e põem-se logo a preparar-me os cafés e a sandes.
Há dias em que imagino as conjecturas do pessoal do bar sobre os motivos que ali me levam todas as manhãs. Se é que conjecturam alguma coisa. Gosto que não me conheçam, que não saibam de onde venho, nem para onde vou. Quem me atende ao balcão provavelmente prefere não saber nada de mim. O silêncio torna tudo mais fácil, rápido e escorreito.
Os meus dois cafés são necessariamente amargos, espessos, fortes. Tomo-os, ao mesmo tempo que vou comendo a sandes e procuro afastar a mente do que me espera naquele dia. Penso no que significa fazer compras, nos produtos disponíveis e nos que se esgotam; penso nas tarefas de quem tem de detectar as lacunas nas prateleiras, fazer as encomendas e substituições; penso na zona dos frios, nos expositores de fruta e de guloseimas.
Há dias em que, depois de terminar os cafés e comer a sandes, me dirijo ao hipermercado, a ver se me deparo com algo de que me tenha esquecido e que me possa fazer falta em casa: iogurtes, maçãs, queijo de cabra, bolachas de arroz, pasta de dentes, guardanapos, água, comida para os animais. Ao passear por entre as prateleiras, tento verificar se há novidades. Mas, se as há, não dou por isso. Parecem-me sempre os mesmos produtos, embalagens, frascos, pacotes, cores, rótulos, marcas.
Quando decido voltar a casa, venho sempre com um sentimento de satisfação que, só por si, dá sentido ao meu dia. E, não poucas vezes, para aumentar o prazer que sinto naquele momento, ponho-me a pensar que, na manhã seguinte, voltarei ao hipermercado para repetir a dose da sandes e dos dois cafés…

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Uma história inventada é sempre verdadeira

As histórias reais são pobres. Começam e acabam de uma determinada maneira, têm lógica, são lineares, cinzentas, óbvias. As histórias fictícias são as que têm interesse porque ultrapassam barreiras, criam novas realidades, fazem acontecer coisas, pervertem relações. Que me interessa se algo aconteceu ou não? Interessa-me é contá-lo como se tivesse acontecido. O resto é trivialidade, é vazio.
Nada melhor do que uma história inventada. Uma história inventada é planeada, tem estratégia, ritmo, imprevisibilidade, exige ser engendrada, faz vibrar enquanto é construída, é sempre mais bonita do que uma história real. Uma história inventada é uma viagem no verdadeiro sentido do termo. Uma viagem da qual nada se sabe, nem sequer o que nos espera na curva seguinte.
Uma história real é previsível, tosca, elementar. Na realidade de todos os dias, as pessoas inibem-se, retraem-se, ocultam o que pensam e o que sentem. Numa história inventada, pelo contrário, as personagens são capazes de se superar, de dar a volta, de questionar de forma consequente e pertinente, de criar sobre a criação.
Uma personagem fictícia não tem medo. Uma pessoa real tem todo o medo do mundo. Uma personagem fictícia subverte regras e códigos. Uma pessoa real limita-se a obedecer. E quando prevarica é punida.
As personagens fictícias são livres e eternas, as pessoas reais são submissas e limitadas.
Nas histórias reais não há narrador e, se o há, a sua intervenção só ocorre depois do sucedido. Nas histórias inventadas, há narrador e o narrador acompanha a acção por dentro, a todo o instante. Se não o fizesse, não haveria história.
Certa vez, vi duas pessoas discutindo na rua por causa de uma delas ter dito algo que foi mal interpretado. A situação degradou-se de tal forma que uma delas, a dado passo, puxou de uma arma de bolso e disparou contra o peito da outra, que morreu imediatamente. Um acontecimento sem imaginação, violento, primário.
Outra vez, li uma história em que duas pessoas discutiam por causa de uma delas ter estacionado mal o carro, mas depois acabou por surgir a ideia de irem dar um passeio para melhor se entenderem. Assim fizeram. Caminharam junto ao rio, conversaram tanto que acabaram por ir dormir juntas na casa de uma delas. E tiveram uma grande noite.
As histórias ficcionadas aumentam a realidade, dão-lhe cor, diversidade, flexibilidade.
Excitação a sério é nas histórias inventadas porque nunca sabemos até que ponto as coisas podem realmente acontecer ou se são fruto da imaginação de quem conta ou de quem ouve ou de quem lê.
Quando eu era criança, as histórias davam-me vertigens, faziam que me perdesse nos seus labirintos absurdos e loucos. E apetecia-me nunca mais voltar à superfície. Ficava por lá até depois de tudo terminar. Ia toda a gente embora, mas eu não. Gostava de me deixar ficar passeando pelos sítios que tinha imaginado, a ver se mais alguma coisa acontecia. E nunca morri por isso. É outra vantagem das histórias inventadas: é possível viver nelas para sempre. Mesmo que o narrador mate uma, ou várias, personagens, elas eternizar-se-ão na narrativa.
Uma história inventada, diga-se o que se disser, é sempre verdadeira. Completamente verdadeira. O que não acontece com as histórias reais, que são confusas e obscuras, além de serem rapidamente esquecidas.