quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A noite estremecia

Fui por ali diante, rente às casas, sob as pancadas da chuva, quase sem nada ver, encolhendo-me sob a roupa para me agasalhar do frio que vergastava as coisas em redor. Não sabia o que me esperava, nem imaginava se seria capaz de resistir à inclemência da caminhada em que me metera.
Toda a gente seguia mergulhada em silêncio, de olhos no chão, para proteger o rosto das alfinetadas da chuva que o vento disparava sem piedade. Se alguém rezava, era para si que o fazia. E talvez o fizesse, pedindo forças para suportar o esforço a que se aventurara. Depois, vi que FG chorava lágrimas misturadas com a chuva que lhe corria como um mar pelo rosto. Notei que limpava as lágrimas ao mesmo tempo que a tempestade desabava sobre o seu corpo dobrado pelos anos. Não era a primeira vez que FG se metia à estrada. As suas lágrimas só poderiam ser de dor, lágrimas de fé pelo sofrimento que via à sua volta.
Quando dei por mim, já tínhamos andado quilómetros: a chuva havia parado e prosseguíamos agora debaixo de um sol abrasador que nos deixava num estado de quase asfixia.
Não tínhamos feito qualquer paragem porque não se vislumbrara onde nos pudéssemos abrigar. E agora que o sol esborrachava em todas as direcções também não se adivinhava uma sombra que nos desse a oportunidade de um breve repouso. Era como se uma qualquer interrupção na caminhada nos colocasse perante o risco de morrermos, ou sucumbirmos. Andando, ao menos sabíamos que estávamos vivos. Quanto mais caminho galgássemos, maior seria a certeza da nossa resistência.
Eu já não sentia as pernas nem os pés, que funcionavam como alavancas automáticas movimentando-se sob o impulso de uma força que me transcendia. Uma força cada vez maior, que me desafiava a continuar sem olhar a meios.
Comemos sandes e fruta com os corpos estatelados sobre tufos de erva molhada e não faltou quem se tivesse estendido à procura de um buraco negro onde recuperar forças ou desaparecer para sempre.
Ao fim da tarde, já éramos quase sombras deslizando nas horas derretidas sem sinal de pecado. As vozes subiam no ar, rente às casas, puras e leves, como asas desprendidas do corpo. Vozes coordenadas, ouvindo-se como se de uma só se tratasse, parecendo folhas de árvores que baloiçavam ao ritmo do dia acabado.
À noite, pernoitei com FG em casa de uma família, que nos serviu jantar e nos cedeu uma das suas camas. Ainda hoje tenho na língua o sabor da carne guisada que comi e do vinho tinto bebi. E lembro a luz baça dos rostos sentados à mesa connosco como se ainda hoje permanecessem na mesma posição à espera do nosso regresso.
Quando me estendi na cama, depois de um duche retemperador, FG já lá estava há não sei quanto tempo. Perguntei-lhe qualquer coisa, mas não obtive resposta. Dormia de olhos abertos, ressonando com a qualidade de um instrumento de sopro.
Procurei seguir o seu exemplo, mas o cansaço que sentia era tal que nem conseguia concentrar-me para chamar o sono. Vinham-me à ideia imagens do dia com casas desabando sob a chuva e o sol, como se ainda estivéssemos no meio do vendaval que durante horas nos arremessara por montes e vales. Em vez de dormir, eu sentia estremecer a noite à minha volta. E receava por todos.

sábado, 10 de janeiro de 2009

O dia em que reapareci noutro lugar

Quando acordei já tinha vontade de fugir. Fugir naquele mesmo dia, sem mais nada. Fugir apenas. Como não havia motivos concretos que justificassem o meu acto, ainda achei a ideia mais consistente e lógica.
Eu não tinha dívidas, nem problemas, nem inimigos. Possuía uma boa vida social e um bom emprego. Por isso poderia parecer estranho que eu desaparecesse. Porque o que me apetecia mesmo era desaparecer. Escapar, literalmente. Sumir do lugar onde vivia, sumir das pessoas, sumir do passado, sumir de mim.
Sumir de mim pareceu-me uma possibilidade auspiciosa. Embora soubesse que tal não era exactamente possível, nem por isso deixei de sentir a tentação de levar o plano por diante. Quando se foge de um lugar, foge-se do que nos liga a ele. E quando se chega a um novo sítio, passa-se a fazer parte de uma nova dimensão, que nos faz esquecer quem éramos.
Eu imaginava que seria desta maneira e por isso achei atraente a ideia de fugir. No fundo, era uma questão de mudar de ares. Como não tinha família, não me prendiam laços fortes ao lugar onde vivia. Por isso, não me custava assim tanto procurar uma nova vida.
Levantei-me e fui arquitectando a minha fuga, enquanto arrastava os pés na direcção da casa de banho. Até me divertia desaparecer sem dar conta a ninguém. Imaginava o que pensariam as pessoas que me eram mais chegadas e como reagiriam. Talvez algumas me procurassem, na tentativa de saberem o que me tinha acontecido.
Fugir de repente sem avisar sequer a pessoa mais próxima, desaparecer de súbito e de vez, seria praticamente como morrer, ao menos para quem me conhecia e deixava de saber do meu paradeiro.
A possibilidade de morrer num lado e continuar vivo noutro apresentou-se-me como irresistível. Fazia parte da minha natureza não me preocupar com o imprevisto e com o desconhecido. Eu sabia que após abandonar a cidade que era minha há mais de seis anos, não teria dificuldade em encontrar outra ocupação profissional, nem que fosse a servir à mesa num café ou a vender bilhetes de lotaria.
Agarrei as poucas peças de roupa que tinha, metia-as numa mochila e saí sem olhar para trás. Não me apetecia estar a pensar duas vezes, para não correr o risco de surgir um motivo que me fizesse mudar de ideias. Quanto maior fosse a rapidez do meu acto, maior seria a possibilidade de ele se concretizar.
Cheguei à estação e nem quis saber o destino do comboio em que entrei. Saltei para a última carruagem e desapareci com o esfumar do barulho dos carris na manhã sem nome.
Ainda nem me tinha sentado e logo me dei conta de que era relativamente fácil começar de novo. Pus-me a olhar para as pessoas que fariam a viagem comigo, conjecturando no que estariam a pensar, imaginando as histórias de vida que as tinham feito chegar àquele preciso momento.
Ao fim de cerca de uma hora de viagem, quando já não havia sinais de Valência nem dos seus arredores, senti nitidamente que uma outra forma de ser entrara em mim. E apeteceu-me falar com alguém que eu nunca tivesse visto antes… alguém insondável, que me conduzisse ao lugar onde em breve eu reapareceria.