Encontrei VCL quando entrava para o autocarro que me levaria a Roma e nunca mais nos largámos. Sentámo-nos lado a lado e fomos conversando pelo tempo fora como se não houvesse estrada que nos detivesse. VCL tinha uma voz estridente e por vezes falava de tal maneira ao meu ouvido que eu não sabia se estava a gritar ou se apenas se expressava de forma mais viva e calorosa.
Inicialmente, estranhei a sua maneira de comunicar. Mas depois pareceu-me que a forma vibrante como se exprimia tinha a ver com a sua forma de ser. Era como se o que dizia fosse cantado para um teatro cheio de público.
VCL agarrava-me nas mãos e apertava-as só para explicar melhor o que me queria dizer. Tudo era imenso no seu corpo, na sua voz, nos seus gestos, nas ideias que partilhava comigo.
Começara a sua viagem em Nápoles e não tinha ideia de terminar tão cedo. Tencionava seguir pela Europa até se cansar. Planeava trabalhar em restaurantes para pagar a comida que lhe dessem e tinha ideia de ficar com uns trocos para ir pagando as pensões.
Eu estava em fim de viagem. Andava pela Europa há um mês e não tinha intenção de prolongar por muito mais tempo a minha ausência de casa.
À medida que falava, VCL tocava por vezes com a sua perna na minha e eu ficava sem saber qual seria a sua intenção, se é que tinha alguma. Podia fazê-lo por distracção ou por malícia.
Decidi tentar perceber o que se passava. E logo que tive oportunidade, aproveitei um movimento do autocarro para deixar tombar a minha perna sobre a de VCL.
Em resposta, levei uma joelhada das valentes e nem tive hipótese de protestar. Porque VCL me atravessou com uns olhos que quase me fulminavam. Ainda pus a hipótese de pedir desculpa, mas depois pensei que era melhor não o fazer. Para não ficar sem resposta, desatei à gargalhada, como se não tivesse percebido o que acontecera, ou como se o que acontecera me fosse completamente estranho, ou tivesse acontecido com outra pessoa.
O que os olhos de VCL queriam dizer era que eu não estivesse com gracinhas e apeteceu-me retorquir-lhe que a sua perna fora a primeira a tocar na minha, mas acabei por não dizer nada.
Compreendi que se queria continuar na sua companhia devia dar por esquecido o incidente. Dávamo-nos bem e não convinha estragar uma amizade por causa de um toque entre duas pernas.
Chegámos a Roma com caras de sono e exaustão. VCL quis procurar uma pensão barata. Concordei, porque também já não tinha muito dinheiro.
Partilhámos o quarto, que tinha duas camas individuais. Apagámos a luz e deixámo-nos estar em silêncio a ouvir os carros que passavam na rua.
Um placard luminoso avermelhado incidia sobre os lençóis de VCL, iluminando a sua orelha bem recortada.
- Não consigo dormir – disse eu, a dada altura.
- Nem eu – replicou VCL, com a voz arrastada.
Acabámos por encostar as camas, para ficarmos mais perto durante a noite. Adormecemos aos poucos, com os corpos leves, como se morrendo, sem darmos por isso.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Marca roxa no tornozelo
Vi-lhe o nariz, toquei-lhe ao de leve na boca, observei-lhe os ouvidos, torneei-lhe as maçãs do rosto, afaguei-lhe os cabelos. LVR fazia-me lembrar alguém que eu conhecera na juventude e isso talvez explicasse a atracção que eu sentia por tudo o que lhe dizia respeito.
Aproximei-me do seu corpo para ver detalhes, para sentir o que havia para lá dos seus olhos e que poderia constituir a revelação que me faltava. Mirei-lhe o pescoço, os ombros, a pele do tronco, os braços, a zona do umbigo. Demorei-me nas suas pernas esguias e bem torneadas. A seguir, verifiquei os pés, as unhas.
LVR disse-me um dia que um dos seus sonhos era dar a volta ao mundo na minha companhia. Partir de iate, de autocarro, de moto, fosse como fosse, a pé, se necessário, e nem tão cedo regressar ao ponto de origem.
Demorámos dois anos a falar sobre planos, percursos, meios de transporte, alojamento, formas de arranjarmos dinheiro. Aconselhámo-nos com gente amiga, procurámos apoios, esclarecemos dúvidas, definimos regras.
No dia em que decidimos que sim, que daríamos a volta ao mundo, LVR desatou aos pulos de alegria pela casa fora, entrando e saindo dos quartos, telefonando a uma série de pessoas, deixando-se emocionar até às lágrimas.
A partida foi a 10 de Julho, num domingo. Estava um sol branco, completo, abrasador. LVR planava acima do chão, tal a energia e vibração que exalava de todos os seus músculos e células. O relógio parecia ter parado de emoção. Tudo era leve e infinito à nossa volta. Tínhamos as mochilas atarracadas, quase rebentando pelas costuras, com tudo muito bem apertado e organizado. Só levávamos roupa de Verão. À medida que o tempo fosse arrefecendo, iríamos rumando a Sul para não termos de comprar vestuário pesado.
Quando já estávamos dentro do táxi prestes a arrancar para Santa Apolónia, LVR fixou-me nos olhos, disse – espera só um momento – e foi a correr despedir-se de alguém que vivia no prédio em frente e por quem desde há muito nutria amizade especial.
Em menos de dois minutos, veio de novo a correr sentar-se a meu lado, com a pele transpirando como um fogo brando de pássaro. Apeteceu-me sugerir-lhe que adiássemos a partida por uns minutos e que voltássemos a casa porque eu estava incapaz de lhe resistir. Sempre podíamos simular que havíamos esquecido qualquer coisa…
Mas o táxi não nos deu hipóteses. Quando ia a meio dos meus cálculos libidinosos… já deslizávamos a toda a velocidade pela Almirante Reis.
Ao fim de poucos dias de viagem, em Marrocos… deu-se aquilo. Não consigo lembrar o dia exacto. Fazia calor. A luz era intensa. LVR disse que não se sentia bem e foi estender-se se na cama…
Depois de concluir a inspecção minuciosa que lhe fiz ao corpo é que descobri aquela marca roxa, arredondada, no seu tornozelo esquerdo.
Aproximei-me do seu corpo para ver detalhes, para sentir o que havia para lá dos seus olhos e que poderia constituir a revelação que me faltava. Mirei-lhe o pescoço, os ombros, a pele do tronco, os braços, a zona do umbigo. Demorei-me nas suas pernas esguias e bem torneadas. A seguir, verifiquei os pés, as unhas.
LVR disse-me um dia que um dos seus sonhos era dar a volta ao mundo na minha companhia. Partir de iate, de autocarro, de moto, fosse como fosse, a pé, se necessário, e nem tão cedo regressar ao ponto de origem.
Demorámos dois anos a falar sobre planos, percursos, meios de transporte, alojamento, formas de arranjarmos dinheiro. Aconselhámo-nos com gente amiga, procurámos apoios, esclarecemos dúvidas, definimos regras.
No dia em que decidimos que sim, que daríamos a volta ao mundo, LVR desatou aos pulos de alegria pela casa fora, entrando e saindo dos quartos, telefonando a uma série de pessoas, deixando-se emocionar até às lágrimas.
A partida foi a 10 de Julho, num domingo. Estava um sol branco, completo, abrasador. LVR planava acima do chão, tal a energia e vibração que exalava de todos os seus músculos e células. O relógio parecia ter parado de emoção. Tudo era leve e infinito à nossa volta. Tínhamos as mochilas atarracadas, quase rebentando pelas costuras, com tudo muito bem apertado e organizado. Só levávamos roupa de Verão. À medida que o tempo fosse arrefecendo, iríamos rumando a Sul para não termos de comprar vestuário pesado.
Quando já estávamos dentro do táxi prestes a arrancar para Santa Apolónia, LVR fixou-me nos olhos, disse – espera só um momento – e foi a correr despedir-se de alguém que vivia no prédio em frente e por quem desde há muito nutria amizade especial.
Em menos de dois minutos, veio de novo a correr sentar-se a meu lado, com a pele transpirando como um fogo brando de pássaro. Apeteceu-me sugerir-lhe que adiássemos a partida por uns minutos e que voltássemos a casa porque eu estava incapaz de lhe resistir. Sempre podíamos simular que havíamos esquecido qualquer coisa…
Mas o táxi não nos deu hipóteses. Quando ia a meio dos meus cálculos libidinosos… já deslizávamos a toda a velocidade pela Almirante Reis.
Ao fim de poucos dias de viagem, em Marrocos… deu-se aquilo. Não consigo lembrar o dia exacto. Fazia calor. A luz era intensa. LVR disse que não se sentia bem e foi estender-se se na cama…
Depois de concluir a inspecção minuciosa que lhe fiz ao corpo é que descobri aquela marca roxa, arredondada, no seu tornozelo esquerdo.