Fizeram-me sinal para na direcção de uma rua estreita que eu não fazia ideia onde conduzia. Avancei discretamente, procurando não perder de vista o chapéu que seguia alguns metros à minha frente e que, a dada altura, desapareceu por uma cave.
Empurrei a porta antes de ela se fechar e segui por um corredor escuro, às apalpadelas. O que estava a acontecer-me coincidia com o que fora combinado, daí a minha relativa confiança.
Dei com uma porta aberta à minha direita, vi uma sala iluminada e entrei. Sentei-me e esperei que aparecesse alguém.
Dentro de poucos minutos, eu estava de conversa com duas pessoas que nunca tinha visto. Olharam-me com serenidade depois de exporem os seus argumentos de forma metódica e ficaram à espera de que eu dissesse alguma coisa.
Tentei esclarecer uma ou outra dúvida sobre o plano apresentado. Reparei que DT falava mais do que ASF. Parecia ter a seu cargo a direcção do projecto.
Foi-me sugerida uma deslocação a Buenos Aires, onde devia ter lugar a operação pretendida.
Argumentei que não conhecia a cidade e que o tempo de que dispunha era pouco.
ASF sorriu e comentou que talvez fosse uma boa oportunidade para conhecer uma cidade singular. Senti que só me restava aceitar a proposta.
– Pode pensar no assunto durante uns dias – disse DT. – Temos pressa, mas podemos esperar que amadureça a ideia.
Apesar de nada me surpreender no que ouvia e compreendia, reconheço que a situação tinha chegado a um ponto bastante diferente do projecto inicial. Pretendiam que eu intermediasse uma investigação, mas eu estava longe de pensar que teria de viajar para Buenos Aires. Depois, nem sabia se me pediriam mais coisas…
Como eu não era especialista na matéria, nunca alimentara esperanças no caso. Mas, pelos vistos, a minha acção era considerada preponderante.
– Tem aqui o nosso contacto. Diga-nos qualquer coisa antes do fim-de-semana – afirmou ASF, com voz controlada.
Quando deixei a sala, pus-me a fazer contas sobre o tempo que demoraria para ir e vir a Buenos Aires. A minha intenção era ir lá antes de informar DT e ASF sobre a minha decisão. Nada como me adiantar à própria realidade. Poderia sempre recorrer a uma velha amizade, para tentar descobrir alguma pista sobre o que estava em preparação.
Quando cheguei a casa, reequacionei os dados que me tinham sido colocados. Fiz uma sandes e preparei um café, enquanto ia reflectindo sobre alternativas ou eventuais recusas ao convite.
Concluí que o melhor era não me desviar da proposta que me haviam feito. Não tinha motivos para desconfiar de DS nem de ASF. Pelo contrário, possuía as melhores referências sobre os seus percursos profissionais.
No dia seguinte, quando saí para fazer umas compras de ocasião, reparei que no meu encalço havia uma sombra que me seguia por todo o lado. Acelerei a marcha para testar a sua resistência e quando pensei que estava finalmente livre, dei de caras com um rosto seráfico que me atendia na caixa registadora e pelo seu olhar de gelo percebi que a minha vida estava nas suas mãos.
sábado, 21 de março de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
Falamos palavras sem beijos
Amanheço e vou à janela ver como está o tempo no teu país. Por vezes, dou de caras contigo, já a trabalhar, em plena concentração. Dou-te os bons dias e vejo o teu sorriso inundando a paisagem à minha frente, uma pequena janela que nos liga através de milhares de quilómetros.
Sinto a minha pequenez tropeçando por entre as palavras neste lado em que me encontro. Pela tua expressão facial, vejo como estão as coisas contigo.
Falamos palavras sem beijos, coisas que vêm à ideia. Dentro de minutos estarás de novo a trabalhar, sempre na tua janela, como um pássaro madrugador.
Para não te desconcentrares, evito, por vezes, fazer comentários. Depois, desço para meter qualquer coisa na boca e procuro não demorar, a fim de reduzir o tempo em que não nos vemos.
Chego de novo à janela e noto que a tua dedicação ao trabalho é completa. Em certas alturas, digo um disparate, só para te ver rir. E ris, sempre que digo alguma coisa.
Fomos construindo assim a nossa família. Tu na tua janela, eu na minha. Houve dias em que DB passou e não me ligou e houve dias em que se pôs a conversar comigo como alguém com centenas de vidas.
Do meu lado, há, por vezes, uma inquietação, talvez um nervosismo, que não sei explicar. Um peso fundo da tua ausência, apesar da proximidade da janela em que me acompanhas.
És a minha viagem mais longa, a que faço mais vezes, aquela que não termino, nem começo.
Todos os dias a inicio num jacto ao retardador, sem hora de partida. E vejo a paisagem que passa por ti, ondulando na senda das horas carregadas de emoção.
Há noites em que te vais deitar e deixas a janela aberta para que eu possa entrar e sair conforme me apetecer, para que possa sentir-te a todo o momento, mesmo quando adormeces debaixo das luzes da tua cidade.
E eu fico a olhar a escuridão do teu sono distante, tão perto de mim, como um desejo insano. Fico a olhar e viajo até junto da tua cama, para te ouvir respirar e deitar-me nos teus lençóis. Mas é apenas um sonho meu que a necessidade de estar contigo alimenta. Na realidade, vou para a cama, para outra cama, logo depois de ti, apesar da janela que nos separa e em cujo peitoril repousam expectativas que nunca hão-de ser registadas.
Na janela de que falo, estás tu, mesmo quando te ausentas. É uma janela do tamanho do teu coração junto ao meu. É um espelho, em certos dias. Uma superfície aguada que a minha mão invisível segura na vertical. E assim vou morrendo à tua beira.
Sinto a minha pequenez tropeçando por entre as palavras neste lado em que me encontro. Pela tua expressão facial, vejo como estão as coisas contigo.
Falamos palavras sem beijos, coisas que vêm à ideia. Dentro de minutos estarás de novo a trabalhar, sempre na tua janela, como um pássaro madrugador.
Para não te desconcentrares, evito, por vezes, fazer comentários. Depois, desço para meter qualquer coisa na boca e procuro não demorar, a fim de reduzir o tempo em que não nos vemos.
Chego de novo à janela e noto que a tua dedicação ao trabalho é completa. Em certas alturas, digo um disparate, só para te ver rir. E ris, sempre que digo alguma coisa.
Fomos construindo assim a nossa família. Tu na tua janela, eu na minha. Houve dias em que DB passou e não me ligou e houve dias em que se pôs a conversar comigo como alguém com centenas de vidas.
Do meu lado, há, por vezes, uma inquietação, talvez um nervosismo, que não sei explicar. Um peso fundo da tua ausência, apesar da proximidade da janela em que me acompanhas.
És a minha viagem mais longa, a que faço mais vezes, aquela que não termino, nem começo.
Todos os dias a inicio num jacto ao retardador, sem hora de partida. E vejo a paisagem que passa por ti, ondulando na senda das horas carregadas de emoção.
Há noites em que te vais deitar e deixas a janela aberta para que eu possa entrar e sair conforme me apetecer, para que possa sentir-te a todo o momento, mesmo quando adormeces debaixo das luzes da tua cidade.
E eu fico a olhar a escuridão do teu sono distante, tão perto de mim, como um desejo insano. Fico a olhar e viajo até junto da tua cama, para te ouvir respirar e deitar-me nos teus lençóis. Mas é apenas um sonho meu que a necessidade de estar contigo alimenta. Na realidade, vou para a cama, para outra cama, logo depois de ti, apesar da janela que nos separa e em cujo peitoril repousam expectativas que nunca hão-de ser registadas.
Na janela de que falo, estás tu, mesmo quando te ausentas. É uma janela do tamanho do teu coração junto ao meu. É um espelho, em certos dias. Uma superfície aguada que a minha mão invisível segura na vertical. E assim vou morrendo à tua beira.