domingo, 21 de junho de 2009

Vi que os seus olhos não acreditavam

Quando me aproximei da porta, percebi que GS tinha companhia porque havia luzes acesas em diversas janelas. Passava pouco das 21 horas.
Premi a campainha e esperei, sem conseguir esconder um nervoso miudinho próprio das ocasiões em que não sabemos o rumo que as coisas vão tomar porque tudo é recente e pouco esclarecido.
Mal tinha acabado de tocar uma segunda vez quando a porta se abriu e surgiu alguém que devia ser familiar de GS. Percebi que a minha visita era esperada porque me foi logo flanqueada a entrada.
Senti alguma inibição, mas segui a pessoa por um corredor até à sala de estar, onde me deparei com GS no sofá, em atitude de descontracção e com um ar melancólico difícil de explicar.
Parecia que era a primeira vez que nos encontrávamos, mas era a segunda. GS fazia dança e com uma voz abatida informou-me que num dos ensaios tinha contraído uma entorse no tornozelo esquerdo.
Sentei-me a seu lado e procurei adaptar-me ao ambiente. GS vivia em casa dos pais, que falavam a meia voz na cozinha, onde se ouvia um moderado tilintar de talheres e movimento de pratos, deixando adivinhar que o jantar não terminara há muito.
Como não sabia o que dizer, estendi a mão, agarrei a de GS e deixei-me ficar assim, a ver o que acontecia. Era a primeira vez que tínhamos um gesto de intimidade. GS não fez qualquer movimento de rejeição, o que me encheu de uma segurança que poucos minutos antes eu estava longe de sentir.
A sua mão era quente, macia e seca. Através dela, eu tinha praticamente acesso aos seus pensamentos, pelo menos às suas divagações (eram mais divagações do que pensamentos).
Assaltou-me a dúvida de que GS poderia estar de mão dada comigo por esperar algo mais do nosso relacionamento. Ou talvez estivesse apenas em busca de algum conforto para a sua entorse. Os momentos a seguir poderiam trazer luz às minhas dúvidas. Mas tal não sucedeu.
GS pouco falou todo o serão e não teve qualquer outra iniciativa de aproximação para além de deixar estar a sua mão aninhada na minha.
A certa altura, dei-me conta de que havia música suave pairando na sala e perguntei-me por que motivo não me teria dado conta disso antes. Talvez porque o volume do som estava bastante baixo ou porque a pose de GS se confundia com a própria música.
GS tinha a arte de se sentar no sofá como quem dominava um palco sem necessidade de se deslocar. O ar era de uma leveza extrema à sua volta. Tal como as palavras que a sua mudez escondia.
Mas o silêncio que ao longo de quase duas horas se foi derramando da boca de GS nunca me incomodou. Pelo contrário, fez-me entrar numa névoa doce que tinha o condão de resolver os meus conflitos de consciência.
“Quando voltares ao teu país nunca mais te lembrarás de mim”, foi uma das últimas frases que lhe ouvi.
Discordei e expliquei que assim não seria, que havia de lhe telefonar logo que aterrasse em Lisboa e que na primeira oportunidade voltaria a Austin. Mas vi que os seus olhos não acreditavam no que eu dizia.
Despedimo-nos com um beijo nos lábios. GS pediu-me desculpa por não me acompanhar à porta de saída. Já não havia sinal dos pais na cozinha, que estava às escuras. Aproveitei para me esgueirar através do corredor, saindo sem barulho.

domingo, 7 de junho de 2009

Zanga

Quando LR viu ASE aparecer, com mais de duas horas de atraso, sentiu um calor dentro de si que nunca mais parou de encher. E no momento em que enfrentou a sua silhueta a pouco menos de um metro de distância, ainda por cima sorrindo, perdeu a compostura e desatou a protestar pelo contratempo que a sua demora lhe tinha causado, arengando e refilando, de dedo no ar, entre insistências de que não admitia semelhante abuso.
O que mais enfureceu LR foi o ar sorridente com que ASE apareceu, dando ares de nem se preocupar com o relógio, como se não houvesse qualquer combinado a cumprir. A dado passo, LR ficou com a impressão de que o seu sorriso era mais de escárnio do que de simpatia e isso fez-lhe estourar a paciência. Mais tarde, LR soube que ASE sorriu de alegria e, talvez, de nervos, mas na altura não tolerou aquela expressão.
LR pôs-se a andar energicamente sem pensar na direcção que estava a seguir. Nada podia deter nem fazer mudar de rumo a sua fúria, que até parecia deixar Lisboa inclinada.
ASE seguiu-lhe na peugada, acelerando o passo, para não se deixar ficar para trás, com receio de que a sua relação terminasse por causa de um simples equívoco horário, enquanto LR não desistia de despejar rajadas de argumentação que o tempo de espera ajudara a acumular.
Quando LR se calou, ASE aproveitou para lhe dizer, com a delicadeza de que foi capaz, que o combinado para se encontrarem não fora às 18 horas, mas sim às 20, razão por que entendia que aquela discussão não se justificava.
LR ripostou e quase espumou, dando socos no ar e dizendo que não estava na disposição de lidar com mentiras, falsas alegações, desonestidades.
ASE considerou que LR estava a ir longe de mais e afirmou que não tolerava que lhe falassem daquela maneira.
- Nunca pensei que alguma vez me insultasses de forma tão ofensiva – disse, ante a revolta indomável de LR.
- Mas olha que ainda não despejei tudo – retorquiu LR. – Se pensas que esqueci aquela vez em que disseste ter ido às compras quando afinal tinhas estado em casa de quem eu muito bem sei… olha que não esqueci.
ASE alegou que LR estava a distorcer o que se passara e que não valia a pena voltar a um assunto que estava esclarecido e encerrado desde há muito.
- Não queres voltar ao assunto porque não te interessa – argumentou LR. – Quem diz que está esclarecido e encerrado és tu…
- Por mais que eu explique, nunca hás-de acreditar nas minhas palavras.
- O que dizes é sempre diferente do que acontece. Nunca sei a quantas ando contigo.
E, logo a seguir a este argumento, LR desatou a fugir por entre as árvores do Campo Grande a uma velocidade que ASE estava longe de poder acompanhar, por isso desatou aos gritos pedindo que LR parasse, que tivesse calma, que tomasse juízo, mas LR só fugia, galgava distância cada vez mais depressa, ao ponto de a certa altura lhe ter saltado do pé um sapato, só que em vez de se deter para o recuperar, o que fez foi aumentar o ritmo da corrida, por entre pulos e ziguezagues que passavam ao lado das pedras e covas do caminho.
ASE pediu ajuda a quem viu por ali e depressa duas pessoas se lhe juntaram, pondo-se a correr atrás de LR, como se tivesse havido um roubo de galinhas, ourivesaria ou igreja.
Poucos metros adiante, porém, cansaram-se da perseguição e sentaram-se num banco debaixo de uma árvore a conversar acerca da falta de empregos, das suas famílias, da frescura da manhã e de morangos.
Quando ASE ouviu falar de morangos afastou de vez a lembrança de LR. Disse que tinha visto morangos à venda em Entrecampos, levantou-se sem perder tempo, pediu – esperem aqui que não demoro – e foi a correr comprá-los, prometendo voltar com um saco cheio.