quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cremação

Quando cheguei à porta da sua casa, soube que iríamos jantar num restaurante ao virar da esquina. E pus-me a caminhar lentamente, pelo passeio, a seu lado. Mas AM parou, olhou-me e disse:
- Vamos de carro!
Por um momento, cheguei a pensar que precisasse de ir a qualquer lado antes do jantar, mas não. AM queria ir de carro para o restaurante, do qual não distávamos mais de duzentos ou trezentos metros.
Fiz-lhe a vontade. AM ajeitou o boné na cabeça, entrou, sentou-se a meu lado e lá fomos conversando, ao som da lentidão do motor.
Menos de um minuto depois, chegámos ao restaurante. Ficámos cá fora a falar mais uns minutos como se para dar a ideia de que valera a pena termos vindo de automóvel.
A seguir, demorámo-nos ainda a conversar no passeio, atravessámos a rua calmamente, fizemos um compasso de espera à porta do estabelecimento, entrámos, subimos ao primeiro andar e sentámo-nos numa das muitas mesas vagas.
Ficámos a olhar-nos, avaliando o estado das nossas almas. AM estava mais alerta do que o habitual. Os seus olhos eram pequenos e afiados, como se não pudesse perder uma vírgula do que estava a suceder.
Quando nos vieram perguntar o que pretendíamos comer, AM já começara a desfiar a sua história. Ostentava nos olhos uma acutilância que parecia premeditada.
Contou-me perseguições de que fora vítima na juventude, humilhações, desencantos, raivas, mortes, a morte de M. que o destroçou. Explicou, lembrou, pormenorizou. Olhou-me e reolhou-me, a ver se eu seguia as suas palavras.
Ainda oiço a sua voz, por entre o barulho de fundo do movimento de tachos e talheres na cozinha. A sua voz fina e delicada, esmiuçando-se em cada frase.
AM era apenas sofrimento. Demasiado sensível, tinha sentimento em excesso a fervilhar dentro de si. Não me recordo do que comemos naquele dia. Nem sei se comemos. Talvez peixe. Ou outra coisa.
A voz de AM chorava sem chorar. Inquiria-me, pedia-me opiniões. E voltava à carga.
Já tínhamos jantado em outras ocasiões, mas por causa da sua má audição, ou por qualquer outro motivo, ficava-me sempre a sensação de algo ter sido deixado a meio.
Naquele dia, não. Naquele dia, AM disse tudo e ouviu tudo, mesmo quando da minha boca não saía qualquer palavra. Era como se, ao falar, a sua voz tivesse o condão de ouvir os meus pensamentos.
AM falava como se rolando por uma escada sobre cujos degraus a vida se esboroava. O que dizia era uma tempestade incontrolável e mansa.
Não pensei se aquela seria a última vez que nos veríamos. Nem me perguntei se estaria a suceder alguma coisa que me passava à margem.
Mesmo agora, AM está aqui a meu lado, acenando afirmativamente com a cabeça, como quem diz: – Vês? Eu não te dizia? – E mudando de conversa: – Olha, vou ser cremado! As minhas cinzas hão-de ficar lá por casa. Depois, não te esqueças de ir aparecendo…

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Obrigação

Deviam ser quatro da tarde quando percebi que o meu corpo estava bastante maior do que o habitual. Os objectos à minha volta eram de dimensão reduzida e pareciam vistos do alto, o que significava que eu devia estar do tamanho de um elefante ou de uma girafa.
Não me preocupei, nem me assustei. Pareceu-me normal aquela sensação de ver tudo reduzido em meu redor. Em outras ocasiões, já tinha acontecido sentir-me do tamanho de um rato ou de uma formiga, cirandando por entre objectos gigantescos e ameaçadores.
Dirigi-me à cozinha, aos apertões por entre móveis, procurando não bater com a cabeça no tecto, e tentei fazer um café. Mas nem consegui abrir a embalagem para vazar o pó na máquina. Muito menos fui capaz de preparar o filtro. Os meus dedos estavam perros e largos como tubos de canalização.
Deixei-me cair no chão e fiquei a olhar para as coisas, sem fazer qualquer esforço para me libertar. Eu tinha a certeza de que estava tudo normal com a minha saúde (havia feito exames há pouco tempo) e nunca duvidei de que se houvera em mim alguma mudança fora apenas no plano psicológico. Por qualquer motivo que não sabia explicar, o meu corpo ganhava, por vezes, um volume extraordinário e eu já começava a habituar-me a isso.
Pensei em telefonar a alguém, mas lembrei-me de que praticamente não conhecia vivalma em Berlim. Contactar as autoridades não adiantaria muito porque eu não entendia uma palavra de alemão. E com o inglês também não iria longe.
Ao fim de cerca de uma hora, já me sentia bastante melhor, embora as pernas continuassem a denotar dificuldades, provavelmente devido ao inchaço.
Levantei-me, abri o frigorífico (um dos meus locais preferidos nas fugas à rotina), retirei uma embalagem de leite, enchi um copo e meti-lhe o dedo dentro, que depois levei à boca, para lhe sentir o gosto. Estava demasiado frio. Não bebi.
Pensei no que faria durante o resto do dia e acabei por concluir que talvez não fosse má ideia tentar adquirir o tamanho de uma minhoca, ou de um percevejo, a fim de observar o que me rodeava numa perspectiva diferente.
Mas não tive êxito. O meu corpo recusou-se a encolher. Não levei, porém, o assunto a sério. Vendo bem as coisas, nunca seria possível saber exactamente o tamanho do que quer que fosse. Uma sombra deslizando na parede poderia ser uma parte de mim a acudir a uma necessidade. Se me telefonassem, o que era bastante improvável, conseguiria eu galgar a distância que me separava dessa voz? Dias antes, lembrara-me de algo que sucedera há vinte anos e percebi que o meu corpo ocupara o espaço do tempo que desde então decorrera. Nunca me senti tão descomunal.
Deixei o copo de leite em cima da mesa e fui à janela ver os carros que passavam na rua. Compreendi que o meu corpo seguia em todos eles, independentemente dos lugares para onde se dirigiam. Eu viajava em todos os veículos que a minha vista alcançava, naquele preciso momento, conversando, calando, olhando, pensando, ao lado de alguém que me era familiar, com crianças aos pulos nos assentos de trás, ou sob o efeito tranquilizante do sono de algum animal de estimação.
A minha obrigação consistia em ser do tamanho do que me rodeava, do que se relacionava comigo, do que me alimentava, do que me justificava…