Quando cheguei à porta da sua casa, soube que iríamos jantar num restaurante ao virar da esquina. E pus-me a caminhar lentamente, pelo passeio, a seu lado. Mas AM parou, olhou-me e disse:
- Vamos de carro!
Por um momento, cheguei a pensar que precisasse de ir a qualquer lado antes do jantar, mas não. AM queria ir de carro para o restaurante, do qual não distávamos mais de duzentos ou trezentos metros.
Fiz-lhe a vontade. AM ajeitou o boné na cabeça, entrou, sentou-se a meu lado e lá fomos conversando, ao som da lentidão do motor.
Menos de um minuto depois, chegámos ao restaurante. Ficámos cá fora a falar mais uns minutos como se para dar a ideia de que valera a pena termos vindo de automóvel.
A seguir, demorámo-nos ainda a conversar no passeio, atravessámos a rua calmamente, fizemos um compasso de espera à porta do estabelecimento, entrámos, subimos ao primeiro andar e sentámo-nos numa das muitas mesas vagas.
Ficámos a olhar-nos, avaliando o estado das nossas almas. AM estava mais alerta do que o habitual. Os seus olhos eram pequenos e afiados, como se não pudesse perder uma vírgula do que estava a suceder.
Quando nos vieram perguntar o que pretendíamos comer, AM já começara a desfiar a sua história. Ostentava nos olhos uma acutilância que parecia premeditada.
Contou-me perseguições de que fora vítima na juventude, humilhações, desencantos, raivas, mortes, a morte de M. que o destroçou. Explicou, lembrou, pormenorizou. Olhou-me e reolhou-me, a ver se eu seguia as suas palavras.
Ainda oiço a sua voz, por entre o barulho de fundo do movimento de tachos e talheres na cozinha. A sua voz fina e delicada, esmiuçando-se em cada frase.
AM era apenas sofrimento. Demasiado sensível, tinha sentimento em excesso a fervilhar dentro de si. Não me recordo do que comemos naquele dia. Nem sei se comemos. Talvez peixe. Ou outra coisa.
A voz de AM chorava sem chorar. Inquiria-me, pedia-me opiniões. E voltava à carga.
Já tínhamos jantado em outras ocasiões, mas por causa da sua má audição, ou por qualquer outro motivo, ficava-me sempre a sensação de algo ter sido deixado a meio.
Naquele dia, não. Naquele dia, AM disse tudo e ouviu tudo, mesmo quando da minha boca não saía qualquer palavra. Era como se, ao falar, a sua voz tivesse o condão de ouvir os meus pensamentos.
AM falava como se rolando por uma escada sobre cujos degraus a vida se esboroava. O que dizia era uma tempestade incontrolável e mansa.
Não pensei se aquela seria a última vez que nos veríamos. Nem me perguntei se estaria a suceder alguma coisa que me passava à margem.
Mesmo agora, AM está aqui a meu lado, acenando afirmativamente com a cabeça, como quem diz: – Vês? Eu não te dizia? – E mudando de conversa: – Olha, vou ser cremado! As minhas cinzas hão-de ficar lá por casa. Depois, não te esqueças de ir aparecendo…
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Obrigação
Deviam ser quatro da tarde quando percebi que o meu corpo estava bastante maior do que o habitual. Os objectos à minha volta eram de dimensão reduzida e pareciam vistos do alto, o que significava que eu devia estar do tamanho de um elefante ou de uma girafa.
Não me preocupei, nem me assustei. Pareceu-me normal aquela sensação de ver tudo reduzido em meu redor. Em outras ocasiões, já tinha acontecido sentir-me do tamanho de um rato ou de uma formiga, cirandando por entre objectos gigantescos e ameaçadores.
Dirigi-me à cozinha, aos apertões por entre móveis, procurando não bater com a cabeça no tecto, e tentei fazer um café. Mas nem consegui abrir a embalagem para vazar o pó na máquina. Muito menos fui capaz de preparar o filtro. Os meus dedos estavam perros e largos como tubos de canalização.
Deixei-me cair no chão e fiquei a olhar para as coisas, sem fazer qualquer esforço para me libertar. Eu tinha a certeza de que estava tudo normal com a minha saúde (havia feito exames há pouco tempo) e nunca duvidei de que se houvera em mim alguma mudança fora apenas no plano psicológico. Por qualquer motivo que não sabia explicar, o meu corpo ganhava, por vezes, um volume extraordinário e eu já começava a habituar-me a isso.
Pensei em telefonar a alguém, mas lembrei-me de que praticamente não conhecia vivalma em Berlim. Contactar as autoridades não adiantaria muito porque eu não entendia uma palavra de alemão. E com o inglês também não iria longe.
Ao fim de cerca de uma hora, já me sentia bastante melhor, embora as pernas continuassem a denotar dificuldades, provavelmente devido ao inchaço.
Levantei-me, abri o frigorífico (um dos meus locais preferidos nas fugas à rotina), retirei uma embalagem de leite, enchi um copo e meti-lhe o dedo dentro, que depois levei à boca, para lhe sentir o gosto. Estava demasiado frio. Não bebi.
Pensei no que faria durante o resto do dia e acabei por concluir que talvez não fosse má ideia tentar adquirir o tamanho de uma minhoca, ou de um percevejo, a fim de observar o que me rodeava numa perspectiva diferente.
Mas não tive êxito. O meu corpo recusou-se a encolher. Não levei, porém, o assunto a sério. Vendo bem as coisas, nunca seria possível saber exactamente o tamanho do que quer que fosse. Uma sombra deslizando na parede poderia ser uma parte de mim a acudir a uma necessidade. Se me telefonassem, o que era bastante improvável, conseguiria eu galgar a distância que me separava dessa voz? Dias antes, lembrara-me de algo que sucedera há vinte anos e percebi que o meu corpo ocupara o espaço do tempo que desde então decorrera. Nunca me senti tão descomunal.
Deixei o copo de leite em cima da mesa e fui à janela ver os carros que passavam na rua. Compreendi que o meu corpo seguia em todos eles, independentemente dos lugares para onde se dirigiam. Eu viajava em todos os veículos que a minha vista alcançava, naquele preciso momento, conversando, calando, olhando, pensando, ao lado de alguém que me era familiar, com crianças aos pulos nos assentos de trás, ou sob o efeito tranquilizante do sono de algum animal de estimação.
A minha obrigação consistia em ser do tamanho do que me rodeava, do que se relacionava comigo, do que me alimentava, do que me justificava…
Não me preocupei, nem me assustei. Pareceu-me normal aquela sensação de ver tudo reduzido em meu redor. Em outras ocasiões, já tinha acontecido sentir-me do tamanho de um rato ou de uma formiga, cirandando por entre objectos gigantescos e ameaçadores.
Dirigi-me à cozinha, aos apertões por entre móveis, procurando não bater com a cabeça no tecto, e tentei fazer um café. Mas nem consegui abrir a embalagem para vazar o pó na máquina. Muito menos fui capaz de preparar o filtro. Os meus dedos estavam perros e largos como tubos de canalização.
Deixei-me cair no chão e fiquei a olhar para as coisas, sem fazer qualquer esforço para me libertar. Eu tinha a certeza de que estava tudo normal com a minha saúde (havia feito exames há pouco tempo) e nunca duvidei de que se houvera em mim alguma mudança fora apenas no plano psicológico. Por qualquer motivo que não sabia explicar, o meu corpo ganhava, por vezes, um volume extraordinário e eu já começava a habituar-me a isso.
Pensei em telefonar a alguém, mas lembrei-me de que praticamente não conhecia vivalma em Berlim. Contactar as autoridades não adiantaria muito porque eu não entendia uma palavra de alemão. E com o inglês também não iria longe.
Ao fim de cerca de uma hora, já me sentia bastante melhor, embora as pernas continuassem a denotar dificuldades, provavelmente devido ao inchaço.
Levantei-me, abri o frigorífico (um dos meus locais preferidos nas fugas à rotina), retirei uma embalagem de leite, enchi um copo e meti-lhe o dedo dentro, que depois levei à boca, para lhe sentir o gosto. Estava demasiado frio. Não bebi.
Pensei no que faria durante o resto do dia e acabei por concluir que talvez não fosse má ideia tentar adquirir o tamanho de uma minhoca, ou de um percevejo, a fim de observar o que me rodeava numa perspectiva diferente.
Mas não tive êxito. O meu corpo recusou-se a encolher. Não levei, porém, o assunto a sério. Vendo bem as coisas, nunca seria possível saber exactamente o tamanho do que quer que fosse. Uma sombra deslizando na parede poderia ser uma parte de mim a acudir a uma necessidade. Se me telefonassem, o que era bastante improvável, conseguiria eu galgar a distância que me separava dessa voz? Dias antes, lembrara-me de algo que sucedera há vinte anos e percebi que o meu corpo ocupara o espaço do tempo que desde então decorrera. Nunca me senti tão descomunal.
Deixei o copo de leite em cima da mesa e fui à janela ver os carros que passavam na rua. Compreendi que o meu corpo seguia em todos eles, independentemente dos lugares para onde se dirigiam. Eu viajava em todos os veículos que a minha vista alcançava, naquele preciso momento, conversando, calando, olhando, pensando, ao lado de alguém que me era familiar, com crianças aos pulos nos assentos de trás, ou sob o efeito tranquilizante do sono de algum animal de estimação.
A minha obrigação consistia em ser do tamanho do que me rodeava, do que se relacionava comigo, do que me alimentava, do que me justificava…