Paro numa estação de combustível para saber o que vai no ar, para desentorpecer. O vento segue-me desde que saí de casa e preciso de espairecer, embora só tenha conduzido cerca de dez minutos. Mesmo assim, decido parar, para quebrar a rotina, o que já significa muito.
É pouco provável encontrar alguém conhecido. Mas, se tal suceder, limitar-me-ei a cumprimentar vagamente como quem não vê bem… como quem está de passagem, e eu estou.
A estrada é a minha liberdade, nem que seja por meia dúzia de minutos.
Quando me aborreço, meto-me no carro e vou dar uma volta, para apreciar bermas de ruas, prédios, árvores, sombras que o vento agita. Enquanto isso, paro numa bomba de gasolina e recupero espírito.
Quando me meto à estrada, esqueço tudo o que me aconteceu naquele dia e em todos os anos que vivi. É como se começasse uma nova vida, cuja lógica tem a ver com o que encontro nas estações de combustível.
Basta-me entrar e verificar que tenho ao meu dispor café, sandes, pastilhas elásticas, jornais, revistas, máquina de dinheiro… O mundo todo resume-se ao que refulge ante os meus olhos.
Mesmo quando vou a caminho de alguma tarefa, ou reunião, com hora marcada, não resisto a deter-me por rápidos minutos na primeira bomba de gasolina que se me depara, correndo o risco de me atrasar para o compromisso, eu que por nenhuma razão deste mundo deixo de chegar a horas, onde quer que vá.
Parar numa estação é dispor do meu direito a interromper a vida e não pensar em nada. Esquivo-me por detrás de umas prateleiras, consulto a minha conta bancária, bebo um café bem amargo e é como se entrasse noutra dimensão.
É um intervalo no curso do dia. Quando não sei o que escolher, o que comprar, trago uma garrafa de água e isso basta para me fazer sentir outra pessoa. O simples facto de ter uma garrafa de água na mão dá-me alento para enfrentar as coisas com que me depararei nos minutos seguintes, dá-me a noção de ser mais pessoa.
Não compro jornais, mas não resisto a passar os olhos pelas primeiras páginas, para ficar a saber o que vai acontecendo aqui e ali.
Quem reparar em mim numa estação de combustível verá, decerto, o meu olhar perdido na paisagem de vidro e dispensar-se-á de tentar apurar quem sou e o que faço num sítio daqueles. Olhar-me-á e não terá qualquer necessidade de se aproximar, não sentirá qualquer atracção.
Uma estação de combustível marca a minha distância dos acontecimentos e das pessoas. Permite-me interromper uma qualquer viagem. É uma suspensão que adia tudo. Se eu ficar em casa, a velhice toma conta de mim e torna-me frágil, enterra-me no silêncio do tempo. Se for a conduzir na estrada, o tempo corre veloz e tudo se precipita.
Numa bomba de gasolina, nada me afecta. Tudo o que acontece, bom ou mau, é transitório. Um momento breve, sem história. Como se eu vá durar apenas mais uns dias…
sábado, 24 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Regresso com mala pesada
Quando saí do avião, mal pus o nariz de fora, tive a impressão de não ter chegado à minha terra. Mas estava longe de imaginar o que me esperava. Calculei que ao fim de mais de vinte anos nem tudo se encontraria na mesma. Mas alguma coisa havia de ter permanecido. Por mais gente que se tivesse ido embora, eu acalentava a esperança de abraçar alguém do meu tempo de juventude.
Peguei na mala e avancei para a fila de táxis. Ainda pus a hipótese de me deparar com um rosto familiar, mas depressa me desiludi.
Sentei-me no banco traseiro e disse para onde pretendia seguir. O motorista resmungou qualquer coisa entre dentes e carregou no acelerador como se tivesse pressa de me despejar.
Havia agora uma nova estrada que conduzia à freguesia onde eu nascera. Ao fim de cerca de um quarto de hora de caminho, entrámos na aldeia e pude reparar nas casas atarracadas que tombavam de velhas sobre as ruas.
Pedi para descer diante da igreja. Paguei, saí do carro e, de mala na mão, pus-me a olhar a manhã cinzenta e fresca. Algumas pessoas, que mal me olharam, de faces rebaixadas, pareciam ter medo de enfrentar os torvelinhos do dia.
Orientei-me pela memória e segui para a rua onde morava JED, uma das minhas amizades de infância, cujo rasto eu perdera há anos. Recordava a sua casa com nitidez e até podia calcular quantos passos precisaria de dar para chegar à sua porta. Mas só quando estendi o dedo para a campainha é que me dei conta da podridão e das teias de aranha que infestavam frinchas e gretas. Fiquei de braço no ar, olhando em volta, para as casas vizinhas, onde não se via vivalma. Nesse preciso instante, passou um carro, que abrandou ao passar por mim, mas quando fiz sinal de perguntar alguma coisa, desapareceu num ápice.
Encaminhei-me para a casa de HV, na esperança de ter mais sorte. Recebera notícias suas havia cerca de dois anos, por isso não contava com nova desilusão. Mas, ao dobrar a esquina da rua onde HV sempre vivera, vi que a sua casa simplesmente desaparecera. Bati na porta do lado e consegui que um nariz adunco espreitasse por uma nesga e me informasse que HV tinha falecido há cerca de seis meses e que a casa fora vendida e demolida, prevendo-se que ali fosse construída uma loja de mobílias.
Desci a rua e entrei num dos cafés em outros tempos frequentado por gente conhecida. O espaço estava obscurecido por um peso invisível. Duas sombras jogavam dominó, ante o olhar de uma terceira e, ao balcão, não se via ninguém.
Não abri a boca, para não distrair quem jogava, e esperei que me atendessem. Quando finalmente surgiu alguém que se pôs a mexer na caixa do dinheiro e me perguntou o que pretendia, fiquei sem palavras. Pareceu-me conhecer o seu rosto redondo e macilento. Tentei identificá-lo, mas as suas esquivas eram metódica e persistentes. Pensei que poderia tratar-se de alguém com feições parecidas e também considerei a possibilidade de haver confusão da minha parte. Acabei por comprar uma caixa de fósforos e sair sem querer saber de mais nada.
Fui sentar-me à porta da igreja, tentando organizar as ideias. A mala pesava e o que eu sentia na alma pesava mais do que a mala. Ao fim de uns minutos, entrei no templo e deixei-me levar pela leveza esmagadora do incenso que enchia a massa de ar obscurecida pelas paredes grossas e frias. Ajoelhei para dizer umas rezas, mas depressa me desconcentrei porque, a poucos centímetros de mim, havia um murganho a observar-me. Senti um ligeiro arrepio, mas logo a seguir reflecti que o pequeno roedor estaria apenas a interrogar-se sobre quem eu era, de onde vinha, ao que vinha. A sua aparência frágil acabou por me cativar. No fim de contas, aquele fora o único ser vivo que ocupara uns breves minutos do seu dia a olhar-me com intenção e perspicácia. E fê-lo com tamanha devoção que, no fundo dos seus olhos minúsculos, creio mesmo ter chegado a divisar uma réstia de calor quase humano…
Peguei na mala e avancei para a fila de táxis. Ainda pus a hipótese de me deparar com um rosto familiar, mas depressa me desiludi.
Sentei-me no banco traseiro e disse para onde pretendia seguir. O motorista resmungou qualquer coisa entre dentes e carregou no acelerador como se tivesse pressa de me despejar.
Havia agora uma nova estrada que conduzia à freguesia onde eu nascera. Ao fim de cerca de um quarto de hora de caminho, entrámos na aldeia e pude reparar nas casas atarracadas que tombavam de velhas sobre as ruas.
Pedi para descer diante da igreja. Paguei, saí do carro e, de mala na mão, pus-me a olhar a manhã cinzenta e fresca. Algumas pessoas, que mal me olharam, de faces rebaixadas, pareciam ter medo de enfrentar os torvelinhos do dia.
Orientei-me pela memória e segui para a rua onde morava JED, uma das minhas amizades de infância, cujo rasto eu perdera há anos. Recordava a sua casa com nitidez e até podia calcular quantos passos precisaria de dar para chegar à sua porta. Mas só quando estendi o dedo para a campainha é que me dei conta da podridão e das teias de aranha que infestavam frinchas e gretas. Fiquei de braço no ar, olhando em volta, para as casas vizinhas, onde não se via vivalma. Nesse preciso instante, passou um carro, que abrandou ao passar por mim, mas quando fiz sinal de perguntar alguma coisa, desapareceu num ápice.
Encaminhei-me para a casa de HV, na esperança de ter mais sorte. Recebera notícias suas havia cerca de dois anos, por isso não contava com nova desilusão. Mas, ao dobrar a esquina da rua onde HV sempre vivera, vi que a sua casa simplesmente desaparecera. Bati na porta do lado e consegui que um nariz adunco espreitasse por uma nesga e me informasse que HV tinha falecido há cerca de seis meses e que a casa fora vendida e demolida, prevendo-se que ali fosse construída uma loja de mobílias.
Desci a rua e entrei num dos cafés em outros tempos frequentado por gente conhecida. O espaço estava obscurecido por um peso invisível. Duas sombras jogavam dominó, ante o olhar de uma terceira e, ao balcão, não se via ninguém.
Não abri a boca, para não distrair quem jogava, e esperei que me atendessem. Quando finalmente surgiu alguém que se pôs a mexer na caixa do dinheiro e me perguntou o que pretendia, fiquei sem palavras. Pareceu-me conhecer o seu rosto redondo e macilento. Tentei identificá-lo, mas as suas esquivas eram metódica e persistentes. Pensei que poderia tratar-se de alguém com feições parecidas e também considerei a possibilidade de haver confusão da minha parte. Acabei por comprar uma caixa de fósforos e sair sem querer saber de mais nada.
Fui sentar-me à porta da igreja, tentando organizar as ideias. A mala pesava e o que eu sentia na alma pesava mais do que a mala. Ao fim de uns minutos, entrei no templo e deixei-me levar pela leveza esmagadora do incenso que enchia a massa de ar obscurecida pelas paredes grossas e frias. Ajoelhei para dizer umas rezas, mas depressa me desconcentrei porque, a poucos centímetros de mim, havia um murganho a observar-me. Senti um ligeiro arrepio, mas logo a seguir reflecti que o pequeno roedor estaria apenas a interrogar-se sobre quem eu era, de onde vinha, ao que vinha. A sua aparência frágil acabou por me cativar. No fim de contas, aquele fora o único ser vivo que ocupara uns breves minutos do seu dia a olhar-me com intenção e perspicácia. E fê-lo com tamanha devoção que, no fundo dos seus olhos minúsculos, creio mesmo ter chegado a divisar uma réstia de calor quase humano…