Anos depois, voltei ao local onde as coisas aconteceram. Há alguns meses que pensava fazê-lo, mas fui adiando sempre a decisão. Até que chegou o dia.
O sol caía na estrada em forma de tromba de água e eu avançava como se fosse aquela a primeira vez que me dirigia a uma cidade onde fora razoavelmente feliz, mas onde não deixara sequer uma amizade.
Demorei mais de uma hora a acertar com o sítio. Havia árvores novas na zona e quase me ia perdendo. Procurei uma sombra no pequeno parque de estacionamento que ficava nas traseiras da casa e deixei-me estar uns momentos a sorver as brisas que batiam contra as paredes brancas à minha volta.
Por mais que tentasse recordar-me do contexto em que tudo sucedera, não o conseguia. Havia uma nuvem que me perseguia, dançando como uma tarântula diante dos meus olhos.
Tenho ideia de me ter quedado uns momentos à porta do quarto e de me ter posto a olhar aquelas duas monstruosidades ao comprido na cama. Um dos corpos estava de barriga para o ar e dava-me a impressão de já ter visto a sua cara. Mas não fiz grande esforço para tentar saber de quem se tratava. Senti que não valia a pena.
Quando avancei, certifiquei-me primeiro com o pé, depois com o joelho e, por fim, com a ponta dos dedos. Mas foi um esforço em vão. Nem parecia estarem ali duas vidas.
Na cozinha, havia gente a jogar às cartas, por entre olhares pesados que se movimentavam nas sombras. Creio que não havia mais ninguém nos outros quartos. A esta distância no tempo, é difícil recordar pormenores.
Eu andava por ali, a ver em que paravam as modas, porque não tinha mais nada com que me entreter. Só me restava esperar.
Mas o serão prolongou-se e, a certa altura, achei melhor ir dar uma volta. Saí pela porta das traseiras e, quando me dirigia para o carro, reparei que havia uma janela aberta com um ar convidativo a que não resisti. Aproximei-me e vi os tais dois montes de carne deformados sobre a cama, na mesmíssima posição de antes.
Não pensei duas vezes. Entrei pela janela e resolvi o caso com os travesseiros. Não foi difícil porque não houve tempo para hesitações. A dado momento, pareceu-me ter ouvido uns gemidos, mas decidi que se tratava de ilusão minha e não voltei a pensar no assunto.
Não senti remorsos porque nunca soube exactamente quem eram as pessoas, onde tinham nascido, qual a sua idade e profissão.
Saltei pela janela, enfiei-me no carro e desapareci.
De regresso ao sítio, anos depois, respirei tranquilamente antes de bater à porta. Ao fim de uns momentos, insisti. A campainha retinia desesperada. Pelo intercomunicador, disseram-me para entrar e esperar. Obedeci e fui andando na direcção da cozinha. Estava tudo diferente. Só o chão não fora substituído.
Como demoravam a atender-me, atrevi-me a dar mais uns passos no corredor e a espreitar para o quarto que, este sim, eu recordava com nitidez cirúrgica. Tinha sido transformado em sala de estar. Deitada na alcatifa, uma criança rechonchuda e loira via televisão e chupava um pequeno carro de metal. Ao ver-me, sorriu como um pássaro. E tossiu. Depois, levantou-se, cambaleante, por entre resmungos, e avançou para mim com cara de quem se aprontava para me agredir.
Sem tempo para me recompor da surpresa, recuei e procurei refúgio na cozinha, escondendo-me num dos vãos do frigorífico. Esperei. Sem me mexer. Enquanto ia ouvindo, cada vez mais perto, a uma velocidade estrepitosa, os passos da criança e os seus intermináveis impropérios…
domingo, 22 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Sem pátria
Ao chegar a um aeroporto, detenho-me a olhar táxis afogueados que despejam passageiros, portas de vidro que abrem e fecham à medida de quem entra e sai, agentes de segurança, empregados de companhias aéreas, agências de viagem e carros de aluguer, carrinhos de transporte de bagagem, quadros electrónicos informando sobre horas e destinos.
A seguir, entro… e avanço para a primeira tabacaria que encontro, pondo-me a ler títulos de jornais enfileirados nos expositores, nas mais diversas línguas, umas que me são perceptíveis, outras que não. Vejo revistas (de arte, moda, carros, natureza, arquitectura…), malas de bagagem, livros, prendas de ocasião, enquanto ao mesmo tempo observo pessoas que vagueiam por entre prateleiras e conjecturo acerca de quem serão e do que pensarão conforme os objectos diante dos quais se detêm. Há quem olhe à distância e há quem se aproxime e toque nos artigos, como se quisesse apurar se têm vida, ou não.
Quando considero que já estou ao corrente do que se passa no mundo, das tendências do design e das modas, procuro um bar, onde tomo o primeiro café do dia, essencial para a minha revitalização. Peço também uma sandes e poiso a mochila, que encosto a um dos pés, para ter a certeza de que não desaparecerá.
Dali, sigo para a zona das lojas, onde, geralmente sem passar da porta, me ponho a mirar o que têm à venda. Nunca gostei de entrar num estabelecimento comercial sem intenções de comprar, para não criar falsas expectativas em quem lá trabalha. Além disso, detesto que me abordem e perguntem com voz melosa se preciso de ajuda. Por isso, muitas vezes, olho apenas à distância, para que fique claro que não tenciono adquirir o que quer que seja.
Quando me canso de ver sabonetes, gravatas, perfumes, chocolates, sento-me numa mesa, com uma garrafa de água na frente, e ponho-me a ler um livro, ou a estudar rostos que desfilam a caminho deste ou daquele país. São sempre imprevisíveis os rumos que levam as pessoas num aeroporto. Há as que avançam com olhos de ansiedade e as que empurram malas de todos os tamanhos e cores pelos corredores amplos, enquanto procuram informação sobre algum pormenor ou um simples transporte que as conduza a um hotel, ou a casa de alguém. Num aeroporto, o mundo inteiro passa à nossa frente: árabes, japoneses, africanos, coreanos, ingleses, italianos, americanos, brasileiros, gente de todas as latitudes, em silêncio ou falando pelos cotovelos, em passo apressado para chegar ao seu destino, ou em ritmo de passeio para sentir o ar da cidade, ou apenas dormitando nas cadeiras.
Sempre que passo num aeroporto, procuro descobrir recantos e espaços que me possam acolher, caso, um dia, venha a ter oportunidade de viver na fronteira de todos os países. É uma hipótese que me persegue. E que me alicia.
Já ouvi falar de alguém que vive num aeroporto não sei de que país, alguém que perdeu o passaporte, salvo erro, e que por ali se deixou ficar. Li a reportagem da primeira à última linha. Nunca consegui deixar de me projectar nesse caso. Penso que cheguei a guardar o jornal. Muitas vezes, invejei essa pessoa e sonhei apoderar-me do seu corpo sem pátria a viver no meio de gente desconhecida, gente tão próxima, tão semelhante, tão fugaz.
Não interessa onde seja o aeroporto que me queira receber. Na Austrália, no Peru, na Islândia, tanto se me dá. O que quero é ter à minha volta seres de todas as nacionalidades, línguas e feitios, para que, através deles, eu possa estar sempre em toda a parte e não estar em nenhuma.
A seguir, entro… e avanço para a primeira tabacaria que encontro, pondo-me a ler títulos de jornais enfileirados nos expositores, nas mais diversas línguas, umas que me são perceptíveis, outras que não. Vejo revistas (de arte, moda, carros, natureza, arquitectura…), malas de bagagem, livros, prendas de ocasião, enquanto ao mesmo tempo observo pessoas que vagueiam por entre prateleiras e conjecturo acerca de quem serão e do que pensarão conforme os objectos diante dos quais se detêm. Há quem olhe à distância e há quem se aproxime e toque nos artigos, como se quisesse apurar se têm vida, ou não.
Quando considero que já estou ao corrente do que se passa no mundo, das tendências do design e das modas, procuro um bar, onde tomo o primeiro café do dia, essencial para a minha revitalização. Peço também uma sandes e poiso a mochila, que encosto a um dos pés, para ter a certeza de que não desaparecerá.
Dali, sigo para a zona das lojas, onde, geralmente sem passar da porta, me ponho a mirar o que têm à venda. Nunca gostei de entrar num estabelecimento comercial sem intenções de comprar, para não criar falsas expectativas em quem lá trabalha. Além disso, detesto que me abordem e perguntem com voz melosa se preciso de ajuda. Por isso, muitas vezes, olho apenas à distância, para que fique claro que não tenciono adquirir o que quer que seja.
Quando me canso de ver sabonetes, gravatas, perfumes, chocolates, sento-me numa mesa, com uma garrafa de água na frente, e ponho-me a ler um livro, ou a estudar rostos que desfilam a caminho deste ou daquele país. São sempre imprevisíveis os rumos que levam as pessoas num aeroporto. Há as que avançam com olhos de ansiedade e as que empurram malas de todos os tamanhos e cores pelos corredores amplos, enquanto procuram informação sobre algum pormenor ou um simples transporte que as conduza a um hotel, ou a casa de alguém. Num aeroporto, o mundo inteiro passa à nossa frente: árabes, japoneses, africanos, coreanos, ingleses, italianos, americanos, brasileiros, gente de todas as latitudes, em silêncio ou falando pelos cotovelos, em passo apressado para chegar ao seu destino, ou em ritmo de passeio para sentir o ar da cidade, ou apenas dormitando nas cadeiras.
Sempre que passo num aeroporto, procuro descobrir recantos e espaços que me possam acolher, caso, um dia, venha a ter oportunidade de viver na fronteira de todos os países. É uma hipótese que me persegue. E que me alicia.
Já ouvi falar de alguém que vive num aeroporto não sei de que país, alguém que perdeu o passaporte, salvo erro, e que por ali se deixou ficar. Li a reportagem da primeira à última linha. Nunca consegui deixar de me projectar nesse caso. Penso que cheguei a guardar o jornal. Muitas vezes, invejei essa pessoa e sonhei apoderar-me do seu corpo sem pátria a viver no meio de gente desconhecida, gente tão próxima, tão semelhante, tão fugaz.
Não interessa onde seja o aeroporto que me queira receber. Na Austrália, no Peru, na Islândia, tanto se me dá. O que quero é ter à minha volta seres de todas as nacionalidades, línguas e feitios, para que, através deles, eu possa estar sempre em toda a parte e não estar em nenhuma.