sábado, 19 de dezembro de 2009

O que vem aí

Andavam pela cidade arrastando os pés, falando, procurando coisas (por vezes, pessoas), tentando descobrir lugares, amuando, separando-se, juntando-se ao fim de dois ou três dias, envolvendo-se em novas conversas, esquecendo zangas, rindo.
De vez em quando, MIS pedia a HR que fizesse alguma coisa, que reagisse, mas os seus apelos não surtiam efeito. HR baixava a voz e sugeria que MIS se aproximasse, enquanto olhava a noite com rosto enigmático. MIS obedecia e deixava-se levar por pensamentos cuja origem ignorava. A sua amizade parecia durar desde sempre. Que tinha acontecido para que se encontrassem? Como se tinha gerado tal possibilidade? Até quando resistiriam os factores que os uniam?
- Não tenho visto JLO... - resmungou MIS, dando a ideia de que o silêncio lhe dava mais trabalho do que duas ou três palavras pronunciadas com dificuldade.
HR não respondeu, mas esboçou um sorriso cúmplice.
- Deve estar preparando alguma - acrescentou MIS entre dentes, na tentativa de encontrar o tom de voz adequado para inibir a réplica de HR. E ficou a matutar nas suas reflexões, sem ter a mínima dúvida de que fossem elas quais fossem valiam tanto como a própria realidade.
- JLO há-de aparecer... - disse HR ao fim de quase cinco minutos, como se considerasse que já tinha passado tempo suficiente para MIS não levar a mal a sua reacção.
- Quem te disse? - perguntou MIS, com um assomo de troça na voz.
- Verás...
MIS já sabia que não valia a pena insistir e aproveitava para fazer contas ao que vinha sucedendo nos últimos dias, aos rumores que se ouviam sobre as medidas de protecção que poderiam vir a ser tomadas. Não tinha a certeza de compreender o que estava em preparação, por isso não sabia bem como proceder. O regresso de JLO poderia constituir uma achega.
- Não me resta muito tempo... - disse MIS, ante a aparente passividade de HR. - Não valeram a pena todos estes amos - continuou, de olhos cravados no chão. - Pode ser que tenhas mais sorte do que eu. Vê se arranjas qualquer coisa com que te entreter. Oxalá te chegue uma resposta antes do Natal.
HR afastou-se uns metros como se não desejasse chamar a atenção. Não acreditava em promessas. Se houvesse mesmo vontade, já teria recebido um sinal.
- Não te esqueças de que a minha camisa vermelha é para JLO - disse MIS.
Em redor, ouvia-se pouco do que diziam e os transeuntes pareciam apenas preocupar-se em não ser atropelados pelas centenas de carros que circulavam sem interrupção.
- Olha quem vai ali?,,, - disse MIS, de súbito, apontando com o dedo. Vai perguntar-lhe se há novidades.
Mas HR tinha-se afastado tanto que já não ouviu as palavras de MIS. Sentou-se no degrau de uma porta e deixou-se estar. Já tinham passado dois anos desde que desaparecera de casa e nunca teve provas de que alguém se tivesse interessado por saber o que lhe sucedera. Encontrara MIS ao segundo dia e jamais se haviam separado, com excepção dos períodos em que amuavam ou embirravam por qualquer razão sem importância.
MIS não queria que HR apanhasse chuva, mas HR não se importava. Preferia ser livre do que andar a esconder-se aqui e acolá. Um dia, talvez lhe acontecesse o que há tanto esperava. Seria no Verão, o tempo do calor, quando toda a gente andava quase despida na rua por entre as espumas do vapor com que os carros enchiam as avenidas.
- O importante é saber o que vem aí... - disse HR a meia voz, enquanto MIS assentia com a cabeça, como se ouvisse nitidamente o que havia escondido por detrás de cada palavra proferida.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O rosto que nenhuma faca atravessara na boca

Estava no tempo das caras mortas, das pessoas que não têm caminhos para fugir e que são apanhadas pelo vento traiçoeiro das esquinas. Não sei explicar esse tempo das caras mortas. E também desconheço por que razão se diz o tempo das caras mortas e não simplesmente o tempo dos mortos. Mas sei que o tempo das caras mortas significa qualquer coisa que está acima do pensável ou imaginável. É uma espécie de divagação que não se sabe onde acaba, nem quando. Na minha terra de infância dizia-se tempo das caras mortas quando nada havia para fazer nas tardes que adormeciam sob o voo dolente das moscas. Se passava alguém nessas horas despidas de racionalidade, gerava-se de imediato uma possibilidade infinda de pensamentos e visões.
Também era verdade que no tempo das caras mortas partia mais gente que o habitual. Talvez de tédio ou esgotamento, inchaço ou palidez.
Nessa época, houve um dia em que eu vinha descendo a rua onde morava, quando ouço dizer atrás de mim: “Não vás! Não vás! Não olhes!”. Fez-me confusão ouvir aquela voz e quando procurei identificar quem me seguia e falava, dei-me conta de que estava tão só como quando saíra da escola. Não havia ninguém a seguir-me. Atrás de mim só havia nada e mais nada.
Tempos depois, voltei a ouvir o mesmo apelo: “Não vás!... Não olhes!...” E na semana seguinte a situação repetiu-se. Passei a fazer o percurso entre a escola e a casa onde vivia numa franja de nervos, à espera de que me dissessem para não ir, para não olhar. Eu não sabia que pensar, porque fazia rotineiramente aquele percurso sem qualquer hesitação ou desvio. Que sentido faria, por isso, estarem a dizer-me aquilo, a insistir, a matraquear?
Certa tarde, estava a rua com um grande movimento de povo que entrava e saía, em conversas baixas, quase secretas, quando me apercebi de que me tinha quedado mesmo à porta de uma casa onde havia uma cara morta.
Pus-me à espera de algo que não conseguia identificar, de algum dado que me pudesse elucidar sobre o que se passava, enquanto entrava e saía gente que nem dava pela minha presença. Por isso, deixei-me ficar, até que a luz me ferisse os olhos. E, como quem não quer a coisa, fui entrando, pé ante pé, ciente de que estava a invadir um espaço que, por qualquer motivo, me era vedado. Porém, mesmo assim, não desistia do meu suave discorrer de pés sobre o soalho que me havia de conduzir algures.
À medida que ia entrando, fui ouvindo choros abafados e dei-me conta de um cheiro intenso a flores frescas acabadas de arrancar das terras húmidas.
Não recuei porque ninguém me deu instruções nesse sentido. Nem a voz que me costumava avisar dava sinais de se preocupar com o que me sucedia.
Naquele dia, tinha apanhado uma valente bofetada na escola por me ter enganado numa conta de multiplicar e não me apetecia chegar a casa porque receava que ainda fossem visíveis as marcas dos dedos na minha bochecha. Ainda tinha nítida na mente a mão levantada que desabara sobre mim, enquanto eu recebia a advertência de que devia pensar melhor antes de errar. Mas o erro era o meu caminho, eu nada tinha a ver com a perfeição e a sua rigorosa austeridade. Nunca havia de ter. Por isso, fora-me dado aceder ao tempo das caras mortas e, por isso, também, eu ouvia aquela voz que me seguia e ordenava para não ir, para não olhar…
Por fim, quando me encontrava bem dentro da casa onde tudo acontecia, mesmo junto à porta do primeiro quarto que se me deparou, não resisti e olhei. Olhei e vi a cara morta estendida na cama com o seu olhar arregalado para o tempo desprovido de lógica. Olhei e não consegui pensar em nada. Mas compreendi que não devia ter entrado e que não devia ter olhado. Porque ainda hoje trago comigo aquele rosto de palidez sem forma cuja boca nenhuma faca atravessara.