Mal deu para perceber onde tínhamos chegado. Passou um rasgão vermelho diante de nós e ficámos sem ver, sem pensar. Estendi uma mão, mas não me recordo se toquei em alguém. Era-me difícil compreender o que estava a suceder. Dava a nítida sensação de termos caído em qualquer lado, mas isso não constava das possibilidades que nos haviam colocado.
Logo que abri os olhos, verifiquei que havia um corpo a todo o comprido, imóvel, no chão, o que me causou uma preocupação mais forte do que seria de esperar. Antes de partirmos, havíamos recebido treino para enfrentar todo o tipo de situações, favoráveis, ou não, por isso, não me agradava sentir que eu começava a fracassar numa fase crucial da viagem.
De qualquer maneira, não me era possível retroceder. A única hipótese era manter-me onde estava e resistir de todas as formas aos imprevistos.
– Preparem-se para sair – ouvi alguém dizer, no meio da barafunda geral.
– Não consigo mexer-me – protestou uma voz sumida a poucos metros de mim.
Arrastei-me como pude pelo corredor, enquanto procurava perceber a que destino tínhamos chegado. Fiz algumas perguntas, mas ninguém me deu atenção. Pelos vistos, a nossa rota mudara e competia-nos, agora, lidar com uma nova realidade.
Procurei atingir a porta, a ver se era possível chegar a alguma conclusão. Mas, como eu, outras pessoas haviam tido a mesma ideia, o que provocou algazarra e empurrões.
Senti o chão estremecer e, por instinto, deixei-me cair.
Dei prontamente de caras com uma aberta por entre um monte de pernas agitadas e esgueirei-me, antes que alguém tivesse a ideia de se me antecipar.
Rebolei pelas escadas e estatelei-me num chão de pontas aguçadas, moles, movediças, que me faziam deslizar, sem qualquer esforço da minha parte, a uma velocidade apreciável. O meu peso devia ter descido bastante para que umas simples pontas esguias conseguissem fazer-me deslocar com uma rapidez que, na minha estimativa, não andaria longe dos 30 km/hora.
Durante o percurso, senti náuseas, que me pareceram aceitáveis, tendo em conta a forma como faziam transportar o meu corpo. Confortou-me saber que, por mais que demorasse aquela experiência, havia de chegar o momento em que tudo se esclareceria. Podia ser um equívoco da minha parte, uma falsa esperança, mas era o que me animava.
Dei por mim, a certa altura, em posição vertical, de frente para uma espécie de espelho que me reflectia por vezes infinitas. Senti um forte abalo interior, ao verificar que continuava sem informação acerca do que estava a acontecer, mas decidi manter a expectativa. Se não reagisse, se me isentasse de tomar iniciativas, tinha mais hipóteses de os acontecimentos me favorecerem. Por mais que olhasse, só distinguia multiplicações do meu corpo nas mais diversas direcções, posições, cores.
Enquanto me entretinha a admirar tantas facetas de mim, fui percebendo que estava a subir no ar, em linha vertical, sem qualquer suporte sob os pés. Olhei para baixo e calculei que estaria a mais de vinte metros de altura. Não tive sombra de medo. Se me haviam elevado de maneira tão subtil, certamente que me impediriam de cair de forma abrupta.
Quando a ascensão terminou, aguardei que me dissessem alguma coisa. Mas ao fim de uma quase eternidade, concluí que a minha espera era vã. O meu corpo continuava a multiplicar-se sem limites, enquanto, ao longe, por detrás de atmosferas e nuvens, enchendo o espaço todo, um coro de vozes longínquas ocupava o tempo desde o início das suas formas.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
E levou-me
Durante a viagem, eu só pensava em outra coisa e DEP sabia-o bem. A minha cabeça não parava. Há anos que era assim. DEP irritava-se, sem o dar a entender. O seu corpo franzino e tenso suportava o meu alheamento, mas logo que tinha oportunidade respondia à altura, respondia calando-se.
Pelas duas da manhã, saímos de um bar, que também era restaurante, e viemos de carro pela estrada húmida, sob movimentos de árvores que o vento agitava. Seguíamos para casa, mas, a qualquer momento, eu sabia que DEP podia mudar de humor e virar noutra direcção. A sua imprevisibilidade obrigava-me a uma permanente atenção. Procurava mostrar calma e segurança, mas só Deus sabia o que me ia na alma. Nem me atrevia a dizer palavra. Por vezes, DEP assobiava ligeiramente, o que aumentava a intensidade do momento a um nível quase insuportável.
Eu tinha a cabeça noutro lado, porque só perseguia uma ideia. Mal podia esperar que chegássemos a casa. Por vezes, DEP punha música a tocar e fixava a estrada como se eu não existisse, como se não estivesse à sua beira a contar pacientemente os minutos.
Enquanto parecia retirar prazeres secretos e indizíveis do comando que tinha sobre o carro, DEP sorria, pontualmente, com leves esgares de boca que me esclareciam sobre o que lhe ia na mente. Pensávamos o mesmo, mas era como se pertencêssemos a dois planetas distintos. A mente de DEP e a minha não coincidiam, ainda que partilhassem idêntica obsessão. DEP considerava que eu me deixava dominar pelo desejo e acusava-me de apenas querer o seu corpo, não escondendo o ressentimento pela minha incapacidade de chegar à sua alma.
Era-me difícil perceber onde pretendia chegar, por isso, perdia-me naquela encruzilhada, como se o carro hesitasse no caminho a seguir. Nunca me tinha acontecido encontrar a alma de alguém. Pelo menos, encontrá-la de forma plausível, sensível. Por isso, durante anos pensei que tal não existia e sempre vivi com a certeza de que DEP gostava de se mortificar.
A certa altura, quando já não me restava qualquer esperança quanto ao que aconteceria naquela noite, logo que terminasse aquela viagem, ouvi DEP dizer:
- É a última vez que te sentas neste carro!
Senti-me estremecer de forma desmedida e não soube que replicar. Receei que o pior estivesse para suceder. Não percebi se DEP me expulsaria do carro ou se apenas pretendia não voltar a ver-me a seu lado. Não demorou muito até que se fizesse luz sobre o que tinha em mente e me ordenasse:
- Sai!
Reagi como se a conversa não fosse comigo e, ao fim de uns segundos de pânico íntimo, ousei proferir:
- Estamos quase em casa…
- Não comeces! - foi a sua resposta implacável, num tom que eu sabia não deixar espaço a qualquer argumento.
Enquanto foi dizendo “não comeces”, DEP desacelerou e estacionou o carro na berma de uma estrada vazia, longa, estreita, arborizada, sem qualquer iluminação. Pensei que não se atreveria a abandonar-me num sítio tão inóspito e inseguro, apenas sobrevoado pelas estrelas. Mas foi o que fez. Deixou-me no meio do nada.
Caminhei, a pé, por mais de uma hora, por entre sombras carregadas e perigosas, até chegar a casa. Meti a chave à porta e fui sentar-me na sala de estar, de olhos fixos na televisão desligada. Tinha o cérebro paralisado. A partir do instante em que DEP me expulsara do carro, não conseguia pensar com lógica. Nem me lembrava do caminho que percorrera. Só tinha uma ideia vaga do pó e de um ou outro carro que passara sem se dar conta da minha existência.
Quando ainda mal tinha aquecido o sofá em que me sentara, DEP veio sentar-se mansamente a meu lado, em silêncio completo, sem sinais de culpa nem de remorso. De forma quase imperceptível, deixou deslizar a sua mão na direcção da minha, agarrou-a, apertou-a, puxou-a e levou-me.
Pelas duas da manhã, saímos de um bar, que também era restaurante, e viemos de carro pela estrada húmida, sob movimentos de árvores que o vento agitava. Seguíamos para casa, mas, a qualquer momento, eu sabia que DEP podia mudar de humor e virar noutra direcção. A sua imprevisibilidade obrigava-me a uma permanente atenção. Procurava mostrar calma e segurança, mas só Deus sabia o que me ia na alma. Nem me atrevia a dizer palavra. Por vezes, DEP assobiava ligeiramente, o que aumentava a intensidade do momento a um nível quase insuportável.
Eu tinha a cabeça noutro lado, porque só perseguia uma ideia. Mal podia esperar que chegássemos a casa. Por vezes, DEP punha música a tocar e fixava a estrada como se eu não existisse, como se não estivesse à sua beira a contar pacientemente os minutos.
Enquanto parecia retirar prazeres secretos e indizíveis do comando que tinha sobre o carro, DEP sorria, pontualmente, com leves esgares de boca que me esclareciam sobre o que lhe ia na mente. Pensávamos o mesmo, mas era como se pertencêssemos a dois planetas distintos. A mente de DEP e a minha não coincidiam, ainda que partilhassem idêntica obsessão. DEP considerava que eu me deixava dominar pelo desejo e acusava-me de apenas querer o seu corpo, não escondendo o ressentimento pela minha incapacidade de chegar à sua alma.
Era-me difícil perceber onde pretendia chegar, por isso, perdia-me naquela encruzilhada, como se o carro hesitasse no caminho a seguir. Nunca me tinha acontecido encontrar a alma de alguém. Pelo menos, encontrá-la de forma plausível, sensível. Por isso, durante anos pensei que tal não existia e sempre vivi com a certeza de que DEP gostava de se mortificar.
A certa altura, quando já não me restava qualquer esperança quanto ao que aconteceria naquela noite, logo que terminasse aquela viagem, ouvi DEP dizer:
- É a última vez que te sentas neste carro!
Senti-me estremecer de forma desmedida e não soube que replicar. Receei que o pior estivesse para suceder. Não percebi se DEP me expulsaria do carro ou se apenas pretendia não voltar a ver-me a seu lado. Não demorou muito até que se fizesse luz sobre o que tinha em mente e me ordenasse:
- Sai!
Reagi como se a conversa não fosse comigo e, ao fim de uns segundos de pânico íntimo, ousei proferir:
- Estamos quase em casa…
- Não comeces! - foi a sua resposta implacável, num tom que eu sabia não deixar espaço a qualquer argumento.
Enquanto foi dizendo “não comeces”, DEP desacelerou e estacionou o carro na berma de uma estrada vazia, longa, estreita, arborizada, sem qualquer iluminação. Pensei que não se atreveria a abandonar-me num sítio tão inóspito e inseguro, apenas sobrevoado pelas estrelas. Mas foi o que fez. Deixou-me no meio do nada.
Caminhei, a pé, por mais de uma hora, por entre sombras carregadas e perigosas, até chegar a casa. Meti a chave à porta e fui sentar-me na sala de estar, de olhos fixos na televisão desligada. Tinha o cérebro paralisado. A partir do instante em que DEP me expulsara do carro, não conseguia pensar com lógica. Nem me lembrava do caminho que percorrera. Só tinha uma ideia vaga do pó e de um ou outro carro que passara sem se dar conta da minha existência.
Quando ainda mal tinha aquecido o sofá em que me sentara, DEP veio sentar-se mansamente a meu lado, em silêncio completo, sem sinais de culpa nem de remorso. De forma quase imperceptível, deixou deslizar a sua mão na direcção da minha, agarrou-a, apertou-a, puxou-a e levou-me.