domingo, 21 de março de 2010

A cabeça no seio

Era vasta e vazia como uma planície de areia. Não se percebia se tinha gente ou arbustos. Casas inteiras ladeavam as ruas e ao longe ouvia-se uma sirene correndo a alta velocidade. Era difícil adivinhar quem seguia dentro dos carros. Rostos imprecisos e esquivos que não olhavam para direcção alguma. Apitos vagos, vozes distantes, sons confusos.
A meu lado, reparei num vulto que me acompanhava. Dava-me a sensação de o conhecer de algum lado. Observei pelo canto do olho a ver se percebia a sua intenção, mas não tive sorte. Evitei dar nas vistas. Notei-lhe a respiração lenta e pesada, como se tivesse origem no peito de uma máquina em desaceleração.
Quando estuguei o passo, apercebi-me de que teve o cuidado de me imitar, esforçando-se, contudo, para não dar nas vistas.
Pensei desaparecer através da primeira porta aberta que encontrasse, mas rapidamente depreendi que não valeria a pena porque me arriscava a cair numa ratoeira, entregando-me nas mãos de quem tão descaradamente me perseguia.
À medida que avançávamos, verifiquei que o vulto – era mesmo vulto, não se trata de não o querer identificar – se aproximava cada vez mais de mim, ao ponto de em certos momentos o seu ombro praticamente se colar ao meu. Penso que era vulto para se disfarçar, para se encobrir, para se proteger. Tinha aspecto disso.
No céu, passou um avião em chamas. Pus-me aos saltos, na tentativa de alertar quem passava, mas não houve alma que me desse atenção, que se interessasse pela tragédia, que ao menos levantasse os olhos para ver o que sucedia nas nuvens.
No meio da confusão, perdi-me e desatei a correr para a estação de comboios, em cujo átrio principal vi dezenas de corpos estendidos no chão como farrapos. Pareciam cadáveres, mas eram corpos tão vivos como melancias num campo de Verão.
Tinha pressa de voltar para casa. Há três semanas que andava pelo oeste americano. O carro dera as últimas e a partir de então eu tinha continuado de comboio em direcção ao mar. Não conhecia ninguém para os lados do Pacífico, mas alimentava a esperança de encontrar uma ou outra lembrança de juventude. Bastava seguir o instinto, deixar-me ir na inclinação das chuvas que desciam das montanhas para a costa.
As bilheteiras da estação encontravam-se encerradas e as máquinas de venda estavam avariadas. Não havia movimento de comboios. Sentei-me no chão e meti na boca uma sandes dura que guardava na mochila há mais de dois dias.
A meu lado, uma mão estendeu-me um cigarro. Agradeci e recusei. A mão tremia e virou-se ao contrário, alongando-se. Continuei a agradecer e afastei-me com receio de uma cilada.
– Não há comboios – ouvi dizer, como se aquela fosse a centésima vez que o anunciavam.
Fui para o apeadeiro à espera de que a sorte me bafejasse. As carruagens paradas tinham as portas abertas e dentro delas amontoavam-se corpos de todos os tamanhos e idades, acomodando-se aos cantos, às circunstâncias.
Uma criança levantou-se, insistindo que precisava de ir à casa de banho. Tropeçou, cambaleou, apanhou uma bofetada, esgueirou-se e desapareceu no corredor.
Foi nessa altura que entrei e fui ocupar a nesga que acabara de vagar. Penso que adormeci, mas não tenho a certeza. Vi coisas, embora não saiba a que domínio pertenciam. A certa altura, a criança regressou e pôs-se a chorar porque já não tinha ideia para onde devia voltar. Fiz-lhe sinal para se vir sentar no meu colo. Era bom sentir o seu calor junto ao meu peito, onde anichou os olhos. Ignoro se aconteceu em sonhos ou na realidade. A criança apareceu vinda de algum lado.

sábado, 13 de março de 2010

Entreguei-me

Deve ter sido nos últimos dias de Setembro, já quase Outubro. O dia estava de certeza cinzento, frio, enevoado, e a casa deixara-se polvilhar por um silêncio que cortava a alma.
MJS andava de um lado para o outro a ver se não faltava nada na minha bagagem e JTB tinha desaparecido no andar de baixo por entre granéis e arrumações que não vinham a propósito.
Toda a gente sentia vontade de chorar, mas ninguém o mostrava. MML e LFS estavam no seu quarto procurando distrair-se com alguma coisa sem importância, só para não encararem a proximidade da minha partida. Ainda recordo o odor do susto nos seus corpos amolecidos.
Eu não sabia para onde me virar, nem tinha ideia sobre o que fazer com as mãos. Os nervos miudinhos haviam tomado conta de mim e eu sentia um nó a apertar-me a garganta como se não me restassem hipóteses.
Era a primeira vez que eu saía de casa para residir em outro lado. Estaria, durante anos, longe da família, das refeições caseiras, do calor dos quartos à noite, do amor que as paredes da casa derramavam.
O momento de maior tensão naquele dia de partida foi quando o táxi chegou e foi necessário carregar as malas. Parecia que me estavam a levar aos bocados.
Apareceu gente debruçada às janelas e eu apressei-me a encontrar um lugar dentro do veículo, antes que a minha alma se pusesse a sangrar pelas pernas abaixo. Não conseguia olhar as pessoas que me haviam acompanhado desde que nascera. Sabia que era a última vez que as via com aquelas expressões, aquela exacta inclinação sobre os parapeitos, aqueles esgares vagos de preocupação indiferente. Sentia vergonha de as abandonar, como se estivesse a traí-las. Quando um dia regressasse, já praticamente não me dariam atenção, já quase me ignorariam.
O táxi arrancou e MJS obrigou-me a acenar. “Mostra a tua educação”, dizia, nervosamente, enquanto se ajeitava no assento com os olhos atravessados de dúvidas.
Ao longo de toda a viagem, mal se ouviu uma sílaba. A não ser o murmúrio das últimas recomendações de MJS – “não te esqueças de rezar todos os dias antes de adormeceres” – e puxava o lenço que lhe servia para enxugar os olhos verdes de água.
Ao fim de cerca de uma hora de caminho, o carro fez uma curva e imobilizou-se. Tínhamos chegado ao destino. As malas foram descarregadas, a porta do colégio abriu-se para me dar passagem e MJS encostou-me a uma parede com o fim de me fotografar.
Obedeci, durante uns segundos, como quem espera um fuzilamento. Todos os olhos estavam depositados em mim, parecendo querer aproveitar aquele derradeiro instante para avaliar a resistência da minha vocação. Depois, ouvi o disparo seco e rápido provocado pela pressão do dedo de MJS sobre o botão da câmara fotográfica.
Senti-me no ar. Em suspensão perfeita. E quando os meus pés voltaram a tocar em terra, reparei que tinha chegado o momento das despedidas, dos abraços apertados, dos beijos quentes, das lágrimas abafadas no pescoço.
Senti um frio na cabeça a escaldar, ouvi vozes que me diziam para recuar, desistir, voltar para casa no mesmo táxi que me trouxera. Mas não fui capaz. Não consegui raciocinar. Muito menos reagir.
Pus-me a andar, sem saber como, numa espécie de névoa que me levava aos tombos. Procurei não dar nota de fraqueza, até atingir a porta envidraçada na qual se encontrava a pessoa responsável por me receber. Senti que uma outra vida começava ali. Detive-me. Baixei os olhos. Entreguei-me.