quinta-feira, 20 de maio de 2010

Vagamente estrangeiro

Não me lembro de pormenores, mas recordo-me de que passei vários dias em casa de gente amiga. Logo que soube o que estava para acontecer, não perdi tempo e procurei refúgio, enquanto pedia a uma pessoa próxima que me ajudasse a tratar da documentação necessária para fugir.
Não tenho ideia se abalei pela calada da noite, se no momento de partir contactei vivalma, se tive oportunidade de tomar alguma refeição, se antes de entrar no avião tinha dormido tempo de mais ou de menos. Não tenho ideia da cara das pessoas que me acompanharam, que me apoiaram, que me abriram o caminho. Também não recordo o dia e a hora da partida. Foi como se tudo se me tivesse apagado da memória num gesto intencional e programado.
Eu levava o remorso da fuga no coração. Ainda não tinha desaparecido e já me sentia mal. Era um remorso cobarde. Fugir resulta sempre de um medo e eu tinha pânico de ficar onde estava. O ambiente que me rodeava era de pólvora. As pessoas olhavam-me de viés, como se eu vivesse na iminência de explodir a qualquer momento. Explodir mesmo nos ares diante de gente que me conhecia desde a infância.
Falava-se de ameaças nas minhas costas, mas eu não sabia exactamente quais. E tinha a certeza de que não valeria a pena tentar descobri-las porque ninguém seria capaz de mas explicar. Mesmo que quisessem, não conseguiriam pôr em palavras o que se passava. Como se o que se passava fosse do âmbito do além, de um tempo e de um espaço que funcionavam segundo códigos alheios ao banal quotidiano.
Um dia, cheguei a casa e JRG chorava nas escadas, com a cabeça entre as mãos. Soluçava como se a sua vida – a nossa vida – estivesse para desabar a qualquer minuto. Perguntei-lhe o que tinha acontecido, mas a resposta foi o silêncio, a distância pronta, ficando no ar a ideia de que o meu interesse pelo seu estado de espírito tinha vindo agravar as coisas, em vez de as aliviar.
Só me restava carregar a alma enfraquecida pela tentação da fuga. Fosse cobardia ou o seu contrário, eu não tinha por onde escolher. O silêncio de JRG foi a última imagem que guardei daqueles dias que o pedregulho trouxe à minha consciência.
Entrei no avião sem sinais de mágoa, só com o remorso colado ao interior da roupa. Aterrei no meu país estrangeiro, onde me esperavam com abraços e promessas. Alojei-me em casa de familiares. Dormi não sei para que lado, sonhei não sei que tremores ou impaciências. Acordei durante a noite, mas não quis sair da cama porque tive medo da casa e dos seus segredos. Podia haver alguém escondido onde eu não contava. Não sabia onde acender as luzes. Receava ter uma visão demolidora.
Quando amanheceu, fui aprender caminhos nas proximidades e pesquisar as palavras iniciais da língua que me acolhia. O cheiro da nova cidade não demorou a entrar em mim. Veio na roupa, no brilho dos carros, nos olhares anónimos, nas árvores bordejando as ruas, nas casas de clareza transbordante.
Entrei na cidade que entrou em mim e depois entrei em outras cidades que viviam dentro daquela, para nunca mais me lembrar do passado de onde partira.
Passei a andar na luz das estradas velozes, planícies humanas, areais desertos, visões imensas.
Por vezes, mandavam-me parar e eu punha-me a olhar o céu na expectativa de alcançar uma saída. Mas o infinito crescia de tal forma que não se tornava possível vislumbrar tamanha lonjura. Depois, eu limitava-me a continuar em diante, fugindo ao destino que me marcava.
Noites havia, a horas imprevistas, em que me batiam à porta, mas, quando a abria, dava de caras com a escuridão absoluta, o vazio inteiro do outro lado do mundo nas minhas escadas.
Voltava para a cama, a tremer, hesitante, com o cérebro mergulhado em dúvidas, e punha-me a acompanhar os sons de carros derrapando na rua, zaragatas, ameaças, tiros. Por entre divagações e tropelias mentais, não perdia migalha do que sucedia naquele vago estrangeiro que passara a escrever as palavras do meu nome.

domingo, 9 de maio de 2010

Sangue sem regresso

Eu seguia pela rua de mão dada com MLE, que me explicou com palavras brandas o que me aconteceria, enquanto ia olhando em frente e sorrindo de nervos como se tivesse entrevisto alguém que conhecia.
Sentia varas tremendo em mim só de pensar no que me esperava. Os pés quase se me recusavam a andar, os tornozelos estavam perros, os joelhos carbonizados. Tinha tanta dificuldade em imaginar-me a fazer o que MLE pretendia que diante de mim só via nuvens negras, horizontes de chumbo, pedaços de carne deteriorada.
Custava-me a crer que MLE pudesse encarar com normalidade o acto a que eu teria de me submeter, que não tivesse uma hesitação, que não me pedisse parecer, que não me preparasse psicologicamente.
MLE tinha o hábito de dispensar grande cuidado ao que se passava comigo, muitas vezes, até, de forma excessiva, mas daquela feita agiu como se nada lhe dissesse respeito, como se não houvesse ligação entre nós. Confundia-me o modo determinado como avançava para o consultório onde a medicina me submeteria aos seus imprevisíveis critérios e acerca dos quais pouca ou nenhuma informação me fora previamente facultada.
“Tenho de arranjar maneira de dizer que não quero fazer isto”, pensava eu, embora não antevendo em que termos o comunicaria a MLE. As palavras pareciam não ter forças para me chegar à garganta. Eu compreendia que a minha vida não estava em risco, mas tinha dificuldade em aceitar a dor que me atingiria.
A minha magreza e aspecto pálido tinham convencido MLE a pedir parecer técnico sobre o meu estado de saúde. A conclusão foi que me submeteriam a análises de sangue e era disso que eu tinha medo. Para mim, tratava-se de agulha enfiada no braço ou na nádega e só de imaginar tal cenário eu quase desmaiava. O pior era que MLE não dava sinais de compreender o efeito nefasto que isso tinha sobre mim.
Eu nunca havia feito análises de sangue e calculava que o vermelho da dor seria insuportável. Sangue era o pior que me podiam fazer. Esguichos por todo o meu corpo.
Por fim, não aguentei mais: enchi-me de coragem, voltei-me para MLE e perguntei-lhe se para fazer aquelas análises tinha de apanhar uma injecção. As palavras saíram-me encolhidas, apagadas, quase inaudíveis. Nem cheguei a pronunciar “braço” ou “nádega” e deixei-me ficar à espera de resposta, enquanto fitava os seus olhos de chama verde cortando a claridade rara do dia.
A reacção de MLE feriu-me mais do que a postura que tivera até então. Respondeu à minha pergunta com uma gargalhada estridente que antes nunca lhe ouvira, uma gargalhada com despropósito, o que significava que não fazia ideia do terror que eu carregava. Se tivesse uma noção do susto que me afligia, MLE teria reflectido, feito uma pausa, baixado o seu rosto até junto do meu, ter-me-ia apertado contra o seu peito, enchido de beijos e dito – “voltemos para casa, mudei de ideias, não quero que faças nenhumas análises de sangue…”.
Mas não. MLE falou-me daquela forma metálica, que me deixou sem compreender e, depois, rindo sempre, deteve-se e explicou que para me fazerem as análises se limitariam a perfurar-me um dos dedos indicadores. Mais nada.
Não poderia ter feito pior: entrei em pânico ao ouvir que me iam fazer um furo no dedo e imaginei logo que seria um furo de dimensão e consequências incalculáveis. A minha cabeça pôs-se a rodopiar fazendo-me perder a noção do sítio onde estava.
MLE ainda se abeirou de mim confessando atabalhoadamente que o furo que me fariam seria insignificante, “muito pequenino…”, mas eu li nos seus olhos que a sua intenção visava apenas evitar que eu me alarmasse.
Não me restavam dúvidas de que seria um furo gigantesco, desproporcionado, gritante. Uma cratera de sangue na qual eu me esvairia. Sem regresso.