terça-feira, 28 de setembro de 2010

Desaparecimento

Saiu de casa, sem olhar à direita nem à esquerda, avançou de passo firme, em ritmo compassado, evoluindo nos minutos que separavam o afastamento da sua sombra de tudo o que ficava para trás.
Havia passado dias a ponderar como procederia, ou não procederia, se informaria a família ou alguém amigo, ou se simplesmente desapareceria, e a sua decisão não demorou a acontecer.
Deixaria pessoas magoadas, que lhe queriam bem, lhe eram próximas, faziam parte da sua vida, mas a sua vontade de cortar e mudar era mais forte do que todos os remorsos.
O que mais incentivava a sua decisão era a necessidade de chegar a uma outra fase, que sabia ser impossível de atingir se não abandonasse a vida que levara até àquele momento, se não deixasse para trás miudezas, nós, fios enriçados, novelos, imbróglios. Para que a coerência da sua atitude fosse integral, não hesitou em levar consigo só a roupa que tinha no corpo e a pequena mochila na qual tinha por hábito carregar duas ou três coisas de maior utilidade. Dinheiro, só o suficiente para uns dias. Quando acabasse, procuraria trabalho casual com o fito de ganhar uns trocos que lhe permitissem continuar em frente. Em última instância, poderia sempre sentar-se numa entrada de metropolitano e apelar à generosidade de quem entrava e saía.
Ignorava como faria ao fim do primeiro dia de viagem, mas sabia que, depois de tudo o que analisara, sopesara, congeminara, não lhe restava alternativa senão avançar às cegas. Se se pusesse a fazer planos, contas, cálculos, nunca chegaria a dar o primeiro passo. Há momentos que são mais fortes do que pessoas, cidades, ameaças, projectos, que têm o poder de nos colocar perante outra circunstância, como se de súbito desencadeassem o movimento em direcção ao que nos espera e que não temos forma de recusar. São momentos sem ambiguidade, sem hesitação, sem palavras, que libertam amarras e abrem portas a um qualquer outro lado.
O seu destino poderia ser Lisboa, Barcelona, Amesterdão, três cidades que lhe ocorriam sempre que pensava em mudar de sítio. Mas havia outros lugares pelos quais passaria e que poderiam alterar os seus planos.
Não tinha marcado o dia da partida. Queria desaparecer de forma espontânea. Programar podia fazer que alguém adivinhasse o que lhe ia na mente. Não se deixava família, emprego, amigos, lugares de todos os dias sem correr riscos.
As dúvidas não teriam resposta, nem quando se dessem conta do seu sumiço. “Não deixou nota escrita? Não telefonou a avisar ninguém? Não tinha dívidas nem estava sob ameaça ou perigo? Teria um relacionamento íntimo secreto? Não se percebe!” Seria uma conclusão mais do que bastante para quem procurasse saber o que lhe havia sucedido.
Ao fim de cerca de meia hora de andamento, sentiu que seria irrealista continuar a pé. Devia ter reflectido melhor no assunto. E como ainda não tinha pensado onde dormiria naquela noite, considerou que talvez não fosse má ideia dirigir-se para a estação de comboios. Seguiria o destino que a locomotiva lhe traçasse. E quando a escuridão se confundisse com o movimento da paisagem na janela, teria oportunidade de passar pelo sono.

domingo, 12 de setembro de 2010

Bastava-nos a noite

Quando o sol começava a descer no horizonte, a primeira coisa que eu fazia era apoderar-me do comando de abertura electrónica da garagem e preparar a cadeira de rodas para a colocar na bagageira do carro. Depois, certificava-me de que toda a gente tinha os agasalhos suficientes e informava em voz alta que estava a postos para a saída. Se não o fizesse, LM provavelmente só horas depois se daria conta da nossa partida…
A seguir, aproximava-me de CM e pedia-lhe que me desse o braço, a fim de eu amparar os seus passos na descida das escadas. Seguíamos até ao patamar e depois eu segurava a sua bengala e deixava que atingisse os degraus pelos seus próprios meios, na certeza de que não deixaria de recorrer ao apoio dos corrimões. Eu avançava, de costas, poucos centímetros à sua frente, a fim de intervir caso se verificasse alguma falha nos seus movimentos.
Enquanto CM descia, PMP não parava de erguer e agitar a sua bengala, a ver se lhe davam atenção, fazendo que CM protestasse e exigisse silêncio, para evitar uma distracção que lhe pudesse valer um tombo por cima de mim.
PMP continha-se, mas por pouco tempo. Não muito depois, deixava-se entusiasmar pelo estado da vegetação que inundava a ribeira ali mesmo ao lado ou pelos níveis de ruído de algum veículo e voltava ao tropel da conversa e aos acenos de bengala. Nessa altura, CM ia proferindo impropérios a uma ou outra barata que se atravessava no seu percurso para a garagem e quando avistava o carro acelerava em pequeníssimos passos na esperança de atingir mais depressa o assento que lhe estava destinado.
Logo que tinha o veículo ao seu alcance, passava-me a bengala, agarrava-se com as duas mãos à porta que eu previamente escancarara e procurava encontrar o melhor jeito de corpo para entrar em segurança.
LM surgia, por fim, sentando-se ao volante por entre imprecações ao calor, e partíamos sob a avalanche dos comentários de PMP a esta e àquela casa, ao perfil de quem nela morava, a quem pertencera antes, ao ano em que fora construída e ao que se costumava plantar no terreno quando o mesmo ainda não fora objecto de projecto imobiliário.
Terminada a viagem de pouco mais de cinco minutos, repetia-se o percurso ao contrário, com CM saindo do carro no maior vagar e PMP abrindo caminho com esbracejamentos de bengala na luz acobreada da noite.
Eu pedia a LM que fosse à frente para nos reservar na esplanada uma mesa que tivesse a protecção de um guarda-chuva e cujo acesso não apresentasse dificuldades à cadeira de rodas, embora as minhas palavras de pouco servissem porque LM depressa se esquecia do combinado, pondo-se a cirandar à beira-mar como se precisasse de sal nas narinas para sobreviver.
Descida a rampa de acesso às mesas, com a cadeira de rodas em marcha atrás, para evitar qualquer percalço com CM, sentávamo-nos de conversa na noite amena, ao abrigo das ondas, como num barco sem porto para atracar.
PMP fazia uma infinidade de perguntas sobre a consistência do pão ou sobre a forma como o ananás viria cortado, mas acabávamos por encomendar amendoins, tremoços, por vezes chá verde, tostas mistas, ou simples descafeinados.
Entretanto, PMP recuperava uma das histórias que tinha interrompido no carro e logo a encadeava com outra, embrenhando-se em minúcias de parentescos através de gerações, até quase perder a lembrança do que inicialmente pretendia contar. Quando finalmente se calava, punha-se a tocar em tudo com os dedos, perguntando, querendo saber, duvidando, pedindo que lhe dissessem a cor e o tamanho das coisas que tinha diante do nariz…
As horas passavam lentas, enquanto a noite inchava o céu das nossas vidas, ao sabor da espuma sobre as pedras rumorejantes de jazz, por vezes tango. Dava a sensação de estarmos dentro de uma campânula cujos limites não se adivinhavam, mas que ainda assim nos aquecia. E divisava-se um rasgão vermelho no horizonte, espécie de braseiro alimentando a brisa naqueles momentos de longo crepúsculo a respirar.