O amor, para ser amor, deve crescer sempre. É uma viagem que nunca se sabe onde conduzirá no momento seguinte. É uma vertigem calma que incendeia.
O amor evolui, ganha força, cresce, e que se faz com ele? Como pode o amor crescer se, ao ser amor, já é tudo, já é imenso, já é infinito? A pergunta incomoda-me, mas o amor não faria sentido se não fosse como o descrevo: uma fonte em permanente crescendo de água a jorrar. Se não crescesse sempre, o amor seria estagnação, lama, vazio. Seria a sua própria negação.
Eu gostava de explicar este paradoxo, apesar de me parecer inequívoco que, em todos os momentos, o amor detém as suas máximas potencialidades.
Há alguns anos, não costumava preocupar-me grandemente com o tema. Pela experiência que tinha, considerava que não havia muita reflexão a fazer.
Penso que me equivoquei, porque o problema é precisamente haver toda uma reflexão que falta fazer.
A generalidade das pessoas não inclui o amor no centro das suas preocupações, mas muitas vezes não hesita em lamentar o vazio e a frustração em que a vida se torna.
Amar o que é? Amar para quê? Amar como?
O amor é diferente todos os dias e o vivido de cada dia soma-se ao dos dias anteriores. É uma acumulação de memórias, comentários, risos, olhares, silêncios, planos, convívio. Uma forma imperturbável de estar a todo o momento e que nada tem a ver com desejo, que é de uma dimensão efémera, enquanto o amor não começa nem termina. O amor é uma espécie de ente divino que nos acolhe e nos protege para todo o sempre. Mesmo na morte. E depois dela. Quando se ama não interessa morrer, nem como se morre, nem quando. Amar é mais do que a vida e mais do que a morte.
O amor por toda a gente também cresce sempre. Não tem diferença do amor a dois.
Há pessoas que abandonam o conforto dos seus dias e se dedicam a missões humanitárias, mas não sei se o fazem por amor. Talvez ajam mais por espírito de sacrifício e de bondade.
Amar toda a gente significa mesmo o que diz a frase. Tanto que até se pode amar pessoas que foram, ou são, nossas inimigas. Há muitas que já detestei e que hoje aprecio como se sempre tivesse gostado delas. O amor é concreto e palpável, mas não tem nome, nem rosto. É uma pessoa do tamanho de todos os seres do mundo.
Quando estou com LMP, nada ambiciono, porque tudo está diante dos meus olhos. Se vamos de mão dada por qualquer sítio, o planeta acompanha-nos a cada passo. Se LMP ri, também rio. Se chora, contenho-me e aguardo que modere a sensibilidade.
Continuamos o passeio e é como se conhecêssemos toda a gente. Cada rosto que se cruza connosco tem uma expressão que nos toca, que nos diz respeito, que nos atinge no limiar da consciência. Quando encontramos alguém conhecido, o entusiasmo é maior. A vibração toma conta de nós, mesmo se a pessoa com quem nos deparamos não tem especial significado nas nossas vidas. Se encontramos alguém amigo, então, apetece ficar bastante mais tempo na sua companhia.
Se não tenho nada com que me ocupar, à noite, há duas coisas que faço com LMP: ou damos uma volta à beira-mar, ou ouvimos jazz no quarto de dormir. Escusado será dizer que, se permanecemos no quarto, facilmente adormecemos lado a lado, enquanto o jazz continua a tocar pela noite dentro... E o amor não pára de crescer.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
A noite dos dedos tamborilando
Nem quando estou só deixo de estar em viagem. É nessas alturas que me invadem os anos que passaram. As mortes, os afastamentos, a emigração, os estudos, os empregos, os sustos, os riscos, as amizades (as que permaneceram e as que não resistiram). Como se tudo o que sucede viesse do passado para desencadear novas possibilidades. Vivo destas andanças, quer tenha companhia, quer não. São andanças que me confrontam com o que fui, com o que serei. Ao fim e ao cabo, estou sempre só e as coisas acontecem geralmente de forma precipitada, sobrepondo-se em cadência inexorável: a ambulância que chega para levar MFS e eu sem atinar com solução alguma na convicção de que o problema desapareceria por si; o momento em que DJT se agita nos lençóis e parte ao fim de oito meses de cama; as aulas e os pulos da miudagem nas festas para as famílias; a fuga para o estrangeiro; os primeiros empregos; a universidade numa língua incompreensível; a perda de orientação na neve com uma temperatura de muitos graus abaixo de zero; a viagem de avião em que CEN seguia a meu lado e a certa altura se levanta para assaltar a cabine de pilotos e desviar o aparelho para um país da sua invenção; a morte de AFB nas águas revoltas do Tejo; a falta de notícias das pessoas que amei; as perspectivas do que me esperava no regresso a Lisboa; as noites cantadas por ruas que iam dar ao amor; o que nunca acabava pela madrugada dentro; os momentos em que me batiam à porta e eu me calava para que não se percebesse que estava em casa; a música em alto som no andar de baixo sinalizando a disponibilidade de HDE para subir; a viagem no gelo para norte e as palavras de LGS desistindo de mim; o olhar perplexo de HM na tentativa de compreender o que me ia no coração; os beijos com que CLT enchia o meu corpo até me fazer perder todas as noções…
Organizei a mochila e decidi partir. Não sabia fazer outra coisa. No instante em que me preparava para fechar a porta da rua, ouvi rir atrás de mim e dei de caras com URE. Abraçou-me e disse logo que queria ir comigo, ainda antes de saber o meu destino. Suplicou. Que nem me passasse pela cabeça prescindir da sua companhia. Embora com remoinhos na alma, com camadas de dúvidas, com interrogações impossíveis de verbalizar, acabei por anuir.
Seguimos para o aeroporto na esperança de que URE conseguisse lugar no mesmo avião que eu tomaria. Percebia-se que tínhamos muito para dizer, mas havia no ar o receio de que as palavras pudessem fazer estoirar em nós assuntos antigos. Não nos víamos há mais de dois anos e tínhamo-nos afastado sem esclarecimentos. Quando me dei conta de que URE se encontrava atrás de mim, a primeira ideia que me ocorreu foi que chegara a altura das explicações.
URE só no último minuto garantiu lugar num dos assentos traseiros do avião. Como eu seguia na parte da frente, fizemos a viagem praticamente sem nos vermos. Dormi quase todo o tempo.
Em Madrid, na pensão, não nos entendemos. URE queria ficar no meu quarto, mas resisti à proposta. Ficou decidido que a primeira noite seria dormida em quartos separados e que na seguinte se veria.
Mas de pouco valeu o acordo. URE passou o tempo a entrar e sair dos meus redutos. Ria-se muito sem motivo aparente, sentava-se à beira da minha cama, queria saber o que me sucedera nos últimos dois anos, fazia insinuações sobre o meu aspecto, desaparecia e voltava logo a seguir com genica redobrada. Apetecia-me ler, mas não conseguia concentrar-me.
Por fim, URE veio deitar-se a meu lado, tamborilando os dedos dos pés no calor da noite, enquanto a sua voz arrastada se ia progressivamente apoderando de mim e dos meus tempos insondáveis...
Organizei a mochila e decidi partir. Não sabia fazer outra coisa. No instante em que me preparava para fechar a porta da rua, ouvi rir atrás de mim e dei de caras com URE. Abraçou-me e disse logo que queria ir comigo, ainda antes de saber o meu destino. Suplicou. Que nem me passasse pela cabeça prescindir da sua companhia. Embora com remoinhos na alma, com camadas de dúvidas, com interrogações impossíveis de verbalizar, acabei por anuir.
Seguimos para o aeroporto na esperança de que URE conseguisse lugar no mesmo avião que eu tomaria. Percebia-se que tínhamos muito para dizer, mas havia no ar o receio de que as palavras pudessem fazer estoirar em nós assuntos antigos. Não nos víamos há mais de dois anos e tínhamo-nos afastado sem esclarecimentos. Quando me dei conta de que URE se encontrava atrás de mim, a primeira ideia que me ocorreu foi que chegara a altura das explicações.
URE só no último minuto garantiu lugar num dos assentos traseiros do avião. Como eu seguia na parte da frente, fizemos a viagem praticamente sem nos vermos. Dormi quase todo o tempo.
Em Madrid, na pensão, não nos entendemos. URE queria ficar no meu quarto, mas resisti à proposta. Ficou decidido que a primeira noite seria dormida em quartos separados e que na seguinte se veria.
Mas de pouco valeu o acordo. URE passou o tempo a entrar e sair dos meus redutos. Ria-se muito sem motivo aparente, sentava-se à beira da minha cama, queria saber o que me sucedera nos últimos dois anos, fazia insinuações sobre o meu aspecto, desaparecia e voltava logo a seguir com genica redobrada. Apetecia-me ler, mas não conseguia concentrar-me.
Por fim, URE veio deitar-se a meu lado, tamborilando os dedos dos pés no calor da noite, enquanto a sua voz arrastada se ia progressivamente apoderando de mim e dos meus tempos insondáveis...