Eu vivia num local e de repente dei-me conta de que estava a residir noutro, sem ter tido o trabalho de mudar nada, nem um móvel ou uma chinela. E sem ao menos ter saído do sítio onde morava. Apercebi-me de que passara a estar numa cidade estrangeira, ao lado de LMP, e que, ao mesmo tempo, não me afastara um milímetro de EMR, apesar de, entre um lugar e outro, distarem milhares de quilómetros. Foi a maior velocidade a que alguma vez fui capaz de me deslocar. Nunca me imaginara ao alcance de semelhante feito.
É claro que se me encontro ao lado de LMP não posso tocar em EMR e se estou com EMR não posso tocar em LMP ou sentir-lhe o cheiro. Mas nunca deixo de estar ora num lado ora no outro, como se se tratasse rigorosamente do mesmo espaço.
Consigo misturar as duas partes num único conceito, qual projecto de arquitectura. Exactamente na linha divisória entre EMR e LMP, há uma pequena janela que adquire uma dimensão de quilómetros, esplendor de distância que passei a amar.
Amar tornou-se uma questão de movimento, que não olha a tempos nem espaços e que se afirma nas imprevistas deambulações do meu dia.
À noite, reconheço que as linhas arquitectónicas têm menor visibilidade (captar os contornos do movimento tem uma exigência específica, requer uma concentração subtil, é um desafio, uma exigência).
Quando digo que estou em dois lados num só refiro-me apenas ao sítio que partilho com LMP e EMR. Falo em dois lados porque LMP é um e EMR é outro. Mas na verdade só existe a face do movimento contínuo na janela que separa a ilha de S. Miguel da cidade de Toulouse.
Parar em Lisboa leva-me a recear o afundamento dos brilhos e o fim do fado na voz do outro lado da pedra. Lisboa é um tempo confuso atolado numa refracção. Ou serei eu que viajo demais? O Tejo virou chuva escorregadia e lamacenta. A sua luz desprendeu-se para lá da foz, com mãos a acenar na fuga para leste, onde os murmúrios se levantam na hora do fogo, que inventei para me libertar e que em Lisboa não volta a acontecer.
Recorro a todos os ardis para criar um país que seja meu. Um país extenso, ainda que em linha recta, mas que me permita superar anos e lugares, até me unir num só movimento que abarca a soma do que me diz respeito.
Vejo os que, sem noção do ridículo, se empenham em descrever o mundo que se lhes apresenta. Uma espécie de roteiro acéfalo e insensível. São incapazes de naufragar no deslizamento de um rio ou de uma encosta mais esconsa.
Não consigo escrever o que vejo. Perco a noção dos nomes, esqueço as palavras e os seus significados. Só sei contar o país que construí para a minha escrita. É um consolo que não posso dispensar.
De um lado LMP, do outro EMR, dois pontos numa recta de milhares de quilómetros, em que não há necessidade de hino, nem de bandeira. Basta-me este país do tamanho de uma casa que não termina, projecto de construção radical como num repositório de passagem entre duas nuvens.
Todas as manhãs, acordo num sítio diferente daquele em que adormeço. Dou um salto na cama e ponho-me a pensar no que terá sucedido. Estou só no quarto de dormir e a meu lado vejo imagens desfilando ininterruptamente.
“Já percebi”, digo com a preocupação de não me ouvirem, com receio de ter enlouquecido. “Vou resolver o assunto de uma vez por todas. Por favor, dêem-me esta oportunidade”.
Levanto-me da cama e dirijo-me ao computador. Primo o botão de iniciar, espero que o processo de abertura termine e abro a janela que anuncia os céus que vão do Atlântico a Toulouse. Está iniciado o movimento do meu país.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
sábado, 3 de abril de 2010
Alfabeto em altitude
Quando viajo de avião, tenho sempre ideias curiosas. Talvez se deva à altitude, à menor pressão atmosférica. Não sei bem. Mas acontece. Agora, por exemplo, enquanto atravessamos umas nuvens ralas, lembro-me de que posso escrever um texto com o fim de registar as tais ideias que me costumam assaltar quando me encontro a mais de dez mil metros de altura. É o que faço. Não seria capaz de escrever sobre uma viagem aérea a não ser lá em cima. Por mais que me esforçasse, não conseguiria ficcioná-la.
Foi assim que a memória se me agudizou e peguei no computador para materializar a nota que rabiscara há mais de um mês. Tinha-a guardado comigo a fim de produzir posteriormente um texto numa qualquer viagem de avião e o certo é que me lembrei dela aqui rente ao céu, apesar de não se tratar de uma questão importante.
De súbito, dá-me a sensação de ter recuado uns anos e de as mãos se me terem tornado subitamente menos ágeis, como se os dedos desconhecessem a localização das teclas. Ou como se o avião, de súbito, tivesse caído numa tempestade e desatado a andar para trás, ao ponto de me fazer renascer.
Quando era adolescente, as viagens de avião excitavam-me, quase me inebriavam. A partida acontecia sob uma efusão de sentimentos e à chegada eu não conseguia deixar de me levar por uma ebulição de visões misturadas com apetites pelo mundo novo em que aterrara.
Antes de uma viagem aérea, jamais considerava a possibilidade de morrer num eventual acidente. Mas cheguei a imaginar a queda do aparelho. Só que o desastre acontecia sempre no mar e todos os passageiro tinham a arte de se salvar. Nesse tempo, o perigo fazia parte de cada minuto que eu atravessava. O meu corpo era capaz de resistir a múltiplas ameaças, por mais imprevistas que fossem. As viagens de avião limitavam-se a anunciar, no fundo, a mobilidade que caracteriza a minha vida actual. Embora, hoje, quando espero numa sala de embarque tenha consciência de que corro riscos e me prepare com seriedade para o que possa acontecer. Concentro-me, envio mensagens às pessoas próximas, estudo cenários, elaboro possibilidades...
Não sei explicar bem a importância dos aviões na minha vida, mas a verdade é que dependo deles quase por completo. Escrever nas nuvens é de uma notável leveza. As palavras agitam-se na ponta dos dedos, saem com menos reflexão, mais agilidade e ousadia, como se arriscassem tudo no salto do cérebro.
A dois metros de mim, ligeiramente à frente, vejo alguém registando números num computador. Não percebo como pode prescindir das palavras. Ou será que os números lhe brotam da mente como palavras?
De súbito tento fazer um rápido balanço, a ver se me falta registar algum detalhe. Creio que não. Ou talvez sim. Mas também é possível que as ideias a que no início deste texto fiz referência se resumam a um tipo de anotações em corrida junto às paredes do céu. Ideias ligeiras, ao fim e ao cabo.
Ponho tudo em questão. A família, o amor, os projectos, o passado, a própria escrita em que me transformo neste momento. Não me resta alternativa. As palavras, quando lavradas em altitude, ganham outro alfabeto, mudam de personalidade, adquirem significados diferentes, submetem-se a estranhos códigos.
O avião desata a trepidar e as teclas voltam a falhar-me sob os dedos, como se houvesse uma relação íntima entre a estabilidade do voo e as palavras que escrevo, que procuro escrever. É a primeira vez que experimento esta insegurança física da escrita de uma forma tão evidente. Como se de um instante para o outro o chão faltasse às palavras, como se estas deixassem de ter existência própria, como se perdessem a capacidade de existir por si.
Foi assim que a memória se me agudizou e peguei no computador para materializar a nota que rabiscara há mais de um mês. Tinha-a guardado comigo a fim de produzir posteriormente um texto numa qualquer viagem de avião e o certo é que me lembrei dela aqui rente ao céu, apesar de não se tratar de uma questão importante.
De súbito, dá-me a sensação de ter recuado uns anos e de as mãos se me terem tornado subitamente menos ágeis, como se os dedos desconhecessem a localização das teclas. Ou como se o avião, de súbito, tivesse caído numa tempestade e desatado a andar para trás, ao ponto de me fazer renascer.
Quando era adolescente, as viagens de avião excitavam-me, quase me inebriavam. A partida acontecia sob uma efusão de sentimentos e à chegada eu não conseguia deixar de me levar por uma ebulição de visões misturadas com apetites pelo mundo novo em que aterrara.
Antes de uma viagem aérea, jamais considerava a possibilidade de morrer num eventual acidente. Mas cheguei a imaginar a queda do aparelho. Só que o desastre acontecia sempre no mar e todos os passageiro tinham a arte de se salvar. Nesse tempo, o perigo fazia parte de cada minuto que eu atravessava. O meu corpo era capaz de resistir a múltiplas ameaças, por mais imprevistas que fossem. As viagens de avião limitavam-se a anunciar, no fundo, a mobilidade que caracteriza a minha vida actual. Embora, hoje, quando espero numa sala de embarque tenha consciência de que corro riscos e me prepare com seriedade para o que possa acontecer. Concentro-me, envio mensagens às pessoas próximas, estudo cenários, elaboro possibilidades...
Não sei explicar bem a importância dos aviões na minha vida, mas a verdade é que dependo deles quase por completo. Escrever nas nuvens é de uma notável leveza. As palavras agitam-se na ponta dos dedos, saem com menos reflexão, mais agilidade e ousadia, como se arriscassem tudo no salto do cérebro.
A dois metros de mim, ligeiramente à frente, vejo alguém registando números num computador. Não percebo como pode prescindir das palavras. Ou será que os números lhe brotam da mente como palavras?
De súbito tento fazer um rápido balanço, a ver se me falta registar algum detalhe. Creio que não. Ou talvez sim. Mas também é possível que as ideias a que no início deste texto fiz referência se resumam a um tipo de anotações em corrida junto às paredes do céu. Ideias ligeiras, ao fim e ao cabo.
Ponho tudo em questão. A família, o amor, os projectos, o passado, a própria escrita em que me transformo neste momento. Não me resta alternativa. As palavras, quando lavradas em altitude, ganham outro alfabeto, mudam de personalidade, adquirem significados diferentes, submetem-se a estranhos códigos.
O avião desata a trepidar e as teclas voltam a falhar-me sob os dedos, como se houvesse uma relação íntima entre a estabilidade do voo e as palavras que escrevo, que procuro escrever. É a primeira vez que experimento esta insegurança física da escrita de uma forma tão evidente. Como se de um instante para o outro o chão faltasse às palavras, como se estas deixassem de ter existência própria, como se perdessem a capacidade de existir por si.