segunda-feira, 21 de junho de 2010

A espera do fogo

Já me sinto entrar nos seus redutos e já quase dificilmente me contenho. Há ocasiões em que mal consigo controlar os acontecimentos como numa paisagem sob um ror de ameaças. A cada dia que se segue, apercebo-me de que há uma atmosfera que entra em mim e que me faz perder a noção dos destinos.
Sei que será a minha grande viagem. Sinto-a nos poros, nos dedos, na temperatura. É um tempo que me chama e ao qual peço que tenha paciência, peço que espere um pouco, só mais um pouco, até que eu possa dar por terminado o que tenho em mãos.
Mas sei que quanto mais tempo decorrer antes de me entregar às suas águas, mais vida entrará no meu corpo.
Vou-lhe sentindo a cor, o cheiro, o ritmo, o sabor. Vou-lhe entrevendo o fôlego, os discursos, os pensamentos, os caminhos, os imprevistos. É uma espécie de viagem antes da viagem isto que sinto. Uma viagem que prepara a rota de outra viagem.
Nunca consenti tanto tempo de espera por alguma coisa. Em jovem, deixava-me levar pelo impulso, atirava-me em frente sem ponderar, não dava oportunidade às coisas de ganharem forma. Os projectos despoletavam num prazo de dias e eu desistia de tudo para me dar à tarefa de os terminar em meses pensando que esse era o modo correcto de proceder. Não lhes permitia viverem o seu tempo. Tudo corria ligeiro e superficial. A respiração era dolorosa e trôpega, as ideias uma espécie de rascunho de algo que só mais tarde me seria dado viver.
Hoje, os dias são claros, frutuosos, agradáveis. Apetecem, crescem a todo o momento. Não importa o que pensam de mim, o que pensaram ou vão pensar. A verdade prescinde de minudências e acaba por ser a única a impor-se. Basta-se a si própria. O seu maior encanto é conceder-nos tempo suficiente para completarmos uma vida. O tempo todo que transforma o espaço todo de toda a gente.
Cabe-me desfrutar o bem antes de acontecer seja o que for. Já nem quero saber o que será, nem como será. Só sei que alguma coisa virá.
Sinto-o ganhando raízes na erva sob os meus pés, sinto os sinais avolumando. Cada gesto que faço conduz-me à descoberta de uma coincidência, um som, um aceno. Espero rumores, sensações, fugas, deslizes, buscas. Espero a voz de fundo que se prepara para me entrar nos músculos, nos olhos, na consciência.
A espera são os outros. Sempre os outros, perseguindo-nos, amando-nos, incentivando-nos, desanimando-nos, cativando-nos, destruindo-nos. Deixá-los vir, saracotear, barafustar, resmungar, vituperar.
De início, ressentimo-nos, pensamos que não gostam de nós, mas depois compreendemos que é essa a melhor direcção, a única direcção. Os outros são a causa do nosso crescimento. Ignoram-nos, ou desprezam-nos, para que nos esforcemos por ser melhores.
Tenho tanto para viver nos próximos anos. E tão livremente. Não quero que a espera termine. Apetece-me prolongá-la pelo maior período de tempo possível. Apetece-me a felicidade de a habitar em permanência. Como o eco da não-palavra que ouve a luz no âmago da plenitude.
Foi difícil, mas valeu a pena. Valeu tanto a dor. Não sei como cheguei aqui, não imagino que vias percorri. Mesmo o que me parecia estar errado encontrou o seu lugar.
Olho para trás e observo o vento correndo nas marcas do dia que não volta. O vento correndo e agitando os desejos nas suas hastes de rumor contínuo. O chão é grande. Como o valor de um contexto.
Quando o tempo se encerra, quando se despede para ir de viagem, chega a ocasião de viver a história, elaborar o documento, lavrar o registo. Não voltaremos a tocar-lhe. Uma vez fechada a porta, compete à memória definhar em fogo azul, sempre azul. Quando todas as cores nos esperam.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Deixei-me ir

Viemos pelas montanhas abaixo sob uma tempestade mais retumbante do que a nossa imaginação. Seguíamos encolhidos nos assentos do carro depois de termos acordado, ainda o sol não nascera, com a tenda inundada de água. O lago subira durante a noite sem nos termos dado conta. Fugimos como se o diabo nos perseguisse.
Acelerei pelas ruas estreitas do parque e procurei desaparecer rapidamente. Tínhamos a bagagem completamente encharcada. Só escapava a roupa que vestíamos.
Quando cheguei à auto-estrada, descomprimi, desatei a fazer cálculos e percebi que corríamos o risco de ficar sem dinheiro. A minha conta bancária estava a zero e no bolso só me restavam duas notas de vinte. Não nos sobrava margem para riscos nem distracções. Felizmente, tínhamos o depósito cheio de combustível.
Era minha intenção fazer uma paragem em Montreal e tentar descobrir MHF, que me devia dinheiro há algum tempo. Se me pagasse, chegaríamos a Providence sem problemas.
Decidi que pararia na próxima estação de serviço. Apetecia-me desentorpecer as pernas e tomar café.
Quando imobilizei o carro, olhei para DSG e vi nos seus olhos que se sentia bem na minha companhia. Era um dos aspectos que eu apreciava na sua personalidade: a disponibilidade para fazer parte dos meus apetites. Mas essa característica não foi suficiente para sustentar a nossa relação por muito tempo. Aquela viagem deve ter sido dos últimos bons momentos que vivemos juntos. Livres, sem pressão, sem compromissos, com espírito de entrega mútua.
O café soube como cerejas. Quando regressávamos ao carro, detive-me a fixar a vitrina de uma loja e decidi oferecer uns óculos de praia a DSG.
“São muito caros”, replicou. “Deixa para outra altura”.
Surpreendeu-me a sua preocupação com o dinheiro. Mas achei que os óculos lhe ficavam a matar. Depois de uma ligeira hesitação, paguei e metemo-nos no carro.
O mau tempo tinha abrandado, embora as nuvens carregadas continuassem suspensas à nossa frente.
Antes de chegarmos a Montreal, consultei o papel em que anotara a morada do restaurante onde MHF actuava. Ao fim de umas voltas, demos com o sítio.
Tivemos uma recepção calorosa. MHF sentou-nos a uma mesa e fez questão de nos acompanhar. Disse que o jantar ficava por sua conta e que tinha muita honra na nossa presença. Notava-se que sentia a obrigação de nos dispensar simpatia até lhe desaparecermos da vista.
Logo que teve uma brecha, disse que estava na hora de voltar ao palco e prometeu que voltaria para junto de nós.
Depois da sua actuação, demorou-se bastante tempo nos bastidores e cheguei a recear que a despesa da refeição me viesse parar ao colo.
Mas MHF voltou para a nossa mesa. Vinha despedir-se, dizendo que lhe surgira subitamente um compromisso a que não poderia faltar. Contudo, informou-nos de que já havia pago a conta e ofereceu-nos pernoita num quarto de hotel que tinha reservado em seu nome.
Ficavam as contas saldadas. Já não dormiríamos no carro.
Logo que entrámos no quarto, afastei as cortinas da janela para apreciar a vibração dos néons que enchiam a cidade, enquanto DSG se ia estendendo na cama.
De olhos fixos nas luzes de Montreal, percebi que não valia a pena pensar mais em dinheiro, nem sequer na muita estrada que faríamos no dia seguinte.
O corpo de DSG amolecia entre os lençóis, confundia-se com os reflexos da vidraça, enovelava-se de ondulações…
Tive a impressão de ouvir chamar por mim. Uma espécie de eco rasgando o silêncio.
Olhei a cidade por uma última vez… e deixei-me ir na direcção da cama, onde me esperava a noite sem fim.