Em criança, perguntava-me como seria possível alguém apreciar-me, olhar-me, aproximar-se, desejar-me. No meio da minha solidão inquieta, via as horas passarem na noite. Perdia o sono, virava-me na cama, observava o recorte das sombras na parede, olhava em todas as direcções sem compreender o que viria, como se sentisse a falta de um corpo ao pé do meu. À minha volta, as formas das coisas eram enevoadas, tinham falta de sentido, não pareciam capazes de me orientar.
Um dia, percebi que o meu destino era partir em busca de quem gostasse de mim, de quem me compreendesse e me aceitasse, de quem me adivinhasse, me lesse nas entrelinhas, me proferisse ao ouvido uma palavra de amor. Alguém que, sem me conhecer, sem imaginar de onde eu vinha, sem fazer sequer a mais pequena ideia do meu nome, se interessasse pelo que eu significava e se me devotasse.
Andei de rua em rua, de cidade em cidade, de país em país, procurando realizar o meu sonho. Se me compreendessem, eu tinha a certeza de que me amariam.
Encontrei gente de todos os feitios e sentimentos, a quem me entreguei sem condições. Gostasse pouco ou gostasse muito, eu dava-me, como num ritual de descoberta. Não encontrava motivos para recusar quem se aproximava de mim. Como se a palavra “não” fosse proibida no meu léxico. Se queria que me amassem, não podia encolher-me a um canto e negar-me a viver as oportunidades que se me deparavam.
Respondia às chamadas, aos apelos, às visitas. E quando alguém não aparecia, quando alguém me falhava, eu saía prontamente de casa à procura de outra pessoa com quem me pudesse relacionar. Era uma luta diária, uma pesquisa permanente, que me conduzia a situações imprevisíveis.
Saía de casa e andava de um lado para o outro, inventando pretextos para aparecer aqui e acolá. Metia conversa com quem me surgisse pela frente, em qualquer sítio, sem me preocupar com formalidades ou conveniências. Quando me recebiam com um sorriso entendia-o como um convite e avançava.
A partir de certa altura, havia gente em demasia a gostar de mim. Gente de todas as idades e condições, deixando-me quase sem espaço para respirar. Passei a ter dificuldade em escolher entre tantos sentimentos dispersos e variados. Gostava de uns lábios finos, de uma testa branca, de um cabelo castanho solto, de umas mãos magras e ágeis, mas isso não era suficiente. Perdia-me. E acabava por ficar com quem calhava, com quem não desistia.
Dei-me de todas as formas, em todos os momentos, sem excepção. De noite e de dia, em casas, jardins, sótãos, vãos de escadas, nesgas de portas.
Nunca discriminei fosse quem fosse. Como poderia eu ignorar um rosto que me olhava na noite fria? Uma boca que me prometia amor e mais amor? Gostei e gostei de tanta gente. Fiz amores que não terminavam e outros que nasciam sem parar. Ríamos muito e era bom. Fazíamos e gostávamos. Continuávamos. Queríamos sempre mais. Mesmo que, a dado passo, já não fizéssemos a mais pequena ideia sobre a morte que nos aguardava.
Um dia, reparei que o meu corpo não resistia a tantas solicitações. Acedia a um desejo e deixava outro por realizar. A distância impunha-se de forma inexorável. Percebi que não resistiria muito mais. O que me ligava às pessoas definhava a olhos vistos. Era volátil e frágil. Não me cortava a carne. Passava como um raio na sombra das luzes. Havia pouca substância nas minhas relações. Os olhares eram rápidos, os diálogos interrompidos, as promessas esquecidas. Como se outros mundos se erguessem sobre as ruínas daquele em que eu sempre vivera. Tinha percorrido toda a parte, mas não vislumbrara a eternidade. E vi-me de regresso ao início. Ao lugar do tempo onde o amor…
sexta-feira, 30 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
As horas que faltavam
Sentei-me no comboio, na convicção de que faria uma viagem suave e liberta de constrangimentos, mas essa convicção não demorou a desaparecer. Ainda me estava a adaptar ao ambiente de sacos e malas entrando e saindo, subindo e descendo, quando verifiquei que LBF acabara de se sentar à minha frente, olhos nos olhos. Não proferiu palavra que se ouvisse, mas o seu rosto gritava mais do que todas as palavras. Apesar de ter sentido um estremeção interior, contive-me e procurei não denotar afectação por aquele súbito aparecimento.
LBF amuava, afastava-se, fazia silêncio, mas quando eu lhe respondia na mesma moeda, logo se reaproximava, como se quisesse possuir-me por completo ou como se receasse que eu desaparecesse por uma qualquer nesga instantânea e imprevista. Era a sua forma de erotismo, a sua forma de amar.
Os olhos de LBF comandavam todos os detalhes à sua volta. Quem estivesse ao alcance da sua observação via logo reduzida uma boa porção da liberdade a que tinha direito. Pelo menos era o que sucedia comigo. E fora por isso que eu deixara LBF no alto da serra e me pusera a caminho da estação de comboio.
Nunca pensei que os meus passos seriam seguidos. Mas foram-no. E isso mudou tudo na minha viagem.
A primeira decisão que tomei quando percebi o cerco que LBF me estava a fazer foi que não haveria de perder o norte. Em ocasiões anteriores, eu fraquejara por diversas vezes, mas desta feita teria de encontrar força para não me deixar sucumbir ao seu poder de atracção.
Claro que me podia levantar do sítio onde estava e procurar outro compartimento ou carruagem, mas depressa concluí que LBF não hesitaria em seguir-me para onde quer que eu fosse, saltando de assento em assento, através de todo o comboio, como numa brincadeira de crianças sem noção dos limites.
Para evitar semelhante ridículo, decidi não me mexer do lugar onde estava e concentrei-me na ideia de que o importante seria evitar os olhos de LBF. Se o conseguisse, estaria a neutralizar a sua arma fundamental.
Pus-me a divagar as vistas pelo compartimento, fingindo interesse no ambiente: uma cabeça encostada à janela, quase dormindo; uma outra embrenhada num livro, uma terceira observando o desfile de sombras no exterior. E havia também um pássaro numa gaiola que parecia não pertencer a ninguém. Talvez tivesse sido abandonado como uma criança que não se deseja.
Lembrei-me da revista que adquirira num quiosque da estação e apressei-me a folheá-la para que LBF reparasse que eu não tinha qualquer interesse na sua presença e que não me deixava incomodar pela sua ousadia. Tínhamos acabado de passar dois dias dentro de uma pequena tenda de campismo a mais de mil metros de altura, por isso não havia motivos para saudades entre as partes.
Li a revista da primeira à última página, na esperança de ver LBF desistir, esfumar-se num apeadeiro qualquer, ir aos lavabos, mudar de compartimento, mas não tive sorte. A sua resistência foi mais forte do que tudo o que eu pudesse conjecturar.
Comi uma sandes e uma maçã que trazia na bagagem e, a seguir, ousei enfim levantar-me, para esticar as pernas e ir tomar um café no vagão do restaurante, com a certeza de que ao regressar LBF estaria no mesmo lugar.
Demorei-me o mais que pude, tentei ocupar tempo em conversa com o empregado de balcão, debrucei-ma na janela da paisagem correndo a toda a velocidade, e quando mais tarde regressei ao meu assento, verifiquei que LBF não tinha mexido uma sobrancelha! Estava na mesmíssima posição de rigidez e imobilidade.
Senti um arrepio, mas não cedi, nem dei nota de qualquer perturbação. Acomodei-me no assento e preparei-me para enfrentar as horas que faltavam para o comboio chegar a Santa Apolónia…
LBF amuava, afastava-se, fazia silêncio, mas quando eu lhe respondia na mesma moeda, logo se reaproximava, como se quisesse possuir-me por completo ou como se receasse que eu desaparecesse por uma qualquer nesga instantânea e imprevista. Era a sua forma de erotismo, a sua forma de amar.
Os olhos de LBF comandavam todos os detalhes à sua volta. Quem estivesse ao alcance da sua observação via logo reduzida uma boa porção da liberdade a que tinha direito. Pelo menos era o que sucedia comigo. E fora por isso que eu deixara LBF no alto da serra e me pusera a caminho da estação de comboio.
Nunca pensei que os meus passos seriam seguidos. Mas foram-no. E isso mudou tudo na minha viagem.
A primeira decisão que tomei quando percebi o cerco que LBF me estava a fazer foi que não haveria de perder o norte. Em ocasiões anteriores, eu fraquejara por diversas vezes, mas desta feita teria de encontrar força para não me deixar sucumbir ao seu poder de atracção.
Claro que me podia levantar do sítio onde estava e procurar outro compartimento ou carruagem, mas depressa concluí que LBF não hesitaria em seguir-me para onde quer que eu fosse, saltando de assento em assento, através de todo o comboio, como numa brincadeira de crianças sem noção dos limites.
Para evitar semelhante ridículo, decidi não me mexer do lugar onde estava e concentrei-me na ideia de que o importante seria evitar os olhos de LBF. Se o conseguisse, estaria a neutralizar a sua arma fundamental.
Pus-me a divagar as vistas pelo compartimento, fingindo interesse no ambiente: uma cabeça encostada à janela, quase dormindo; uma outra embrenhada num livro, uma terceira observando o desfile de sombras no exterior. E havia também um pássaro numa gaiola que parecia não pertencer a ninguém. Talvez tivesse sido abandonado como uma criança que não se deseja.
Lembrei-me da revista que adquirira num quiosque da estação e apressei-me a folheá-la para que LBF reparasse que eu não tinha qualquer interesse na sua presença e que não me deixava incomodar pela sua ousadia. Tínhamos acabado de passar dois dias dentro de uma pequena tenda de campismo a mais de mil metros de altura, por isso não havia motivos para saudades entre as partes.
Li a revista da primeira à última página, na esperança de ver LBF desistir, esfumar-se num apeadeiro qualquer, ir aos lavabos, mudar de compartimento, mas não tive sorte. A sua resistência foi mais forte do que tudo o que eu pudesse conjecturar.
Comi uma sandes e uma maçã que trazia na bagagem e, a seguir, ousei enfim levantar-me, para esticar as pernas e ir tomar um café no vagão do restaurante, com a certeza de que ao regressar LBF estaria no mesmo lugar.
Demorei-me o mais que pude, tentei ocupar tempo em conversa com o empregado de balcão, debrucei-ma na janela da paisagem correndo a toda a velocidade, e quando mais tarde regressei ao meu assento, verifiquei que LBF não tinha mexido uma sobrancelha! Estava na mesmíssima posição de rigidez e imobilidade.
Senti um arrepio, mas não cedi, nem dei nota de qualquer perturbação. Acomodei-me no assento e preparei-me para enfrentar as horas que faltavam para o comboio chegar a Santa Apolónia…