terça-feira, 31 de agosto de 2010

Compreendi, de súbito

Era um campo verde, longo, maduro, que a minha vista dificilmente alcançava em toda a sua extensão e plenitude. Eu tinha vindo de longe em busca de LTS e enfrentava agora a imensidão da proximidade com o lugar onde me diziam ficar situada a sua residência.
Tinham-me referido que era por ali. Olhavam-me com expressão de desencanto e apontavam em frente. Não havia que enganar. O sítio tinha um nome que eu pronunciava com dificuldade. Por isso, mostrava o papel onde o tinha escrito para que não restassem dúvidas sobre a morada que eu procurava.
Não sabia de LTS há muitos anos e, um dia, tomara a decisão de partir em busca do seu paradeiro. O carro quase não chegou ao destino. Foi-se desfazendo pela estrada fora. Houve alturas em que me apetecia chorar, mas esforcei-me sempre por reagir ao desalento. Por mais de uma vez faltou-me o combustível para galgar a lonjura do caminho, mas tive sempre a sorte de aparecer alguém que me ajudasse ou de a estrada me levar na sua descida até uma estação de abastecimento.
Terminada a travessia das montanhas, tudo se tornou mais fácil na minha viagem. Só não havia maneira de encontrar LTS, nem a sua casa, nem ao menos a carripana velha que um dia lhe pertencera e cujo número de matrícula eu conservara nos anos.
LTS não tinha por hábito recorrer a minúcias. Falava como se não quisesse que descobrissem onde vivia. Mas como a sua simpatia era transbordante, nunca duvidei de que podia ir à sua procura.
Durante anos, não tive notícias das suas andanças. Só uma vez consegui que me atendesse o telefone e me contasse vagamente como ocupava os seus dias.
Bastou-me isso para anos mais tarde me fazer à estrada na esperança de descobrir o lugar onde se refugiara.
Eu crescera com LTS, copiara os seus poemas e até estudara filosofia pelos seus cadernos de apontamentos, que eram muito bem organizados e fáceis de assimilar.
Mas, certo dia, dera-lhe a ideia de desaparecer para a Califórnia e nunca mais se soube por onde andava.
Procurei por um campo verde, longo, maduro… e fui desembocar à frente de um portão carunchoso que mal se aguentava nas dobradiças. Por qualquer motivo, percebi que tinha chegado ao sítio que procurava.
Não mexi um dedo. Reflecti… hesitei… imaginei se seria possível que LTS não me quisesse ver. Mas concluí que depois de uma viagem de milhares de quilómetros só me restava entrar e verificar com os meus próprios olhos.
Avancei e vi-me diante de um casarão grandioso, com paredes envelhecidas e janelas sem cortinados. Circundei o edifício, em busca de uma porta onde pudesse bater e perguntar por LTS. Não a encontrei. O edifício ligava a um outro, mais estreito, embora mais comprido, com uma série de janelas em fila no piso superior.
Comecei a sentir preocupação pelo que via. Não imaginava LTS a viver num sítio tão ermo. Pensei que ao menos se avistasse dali uma qualquer cidade palpitante. Mas não. Era só campo extenso definhando na luz baça do dia. Campo até perder de vista.
Estava eu nos meus pensamentos quando dei conta de uma enorme tartaruga deslocando-se na minha direcção. Esperava tudo, menos a recepção de uma tartaruga pachorrenta, com cara de pouca hospitalidade.
Mirei em volta, sem saber o que pensar, e não vi sinais de um botão de campainha ou corda de sineta que me pudessem valer.
A tartaruga veio galgando terreno, arrastando-se, bamboleando, reduzindo sempre a distância para o ponto onde eu me encontrava. Quando me restava pouco mais de um metro para respirar, reparei num lampejo da sua expressão ocular, que me fez cambalear e compreender, de súbito, o que me aguardava…

domingo, 15 de agosto de 2010

Onde o sol derretia a imaginação

Chegara o dia de voltar a HV e eu ainda não sabia em que momento e em que condições iniciaria a viagem. Tinha saído da cama com uma disposição pouco recomendável, dera uma olhada à caixa de correio e não me agradara vê-la vazia.
Saí do duche com as ideias aos saltos, na tentativa de prever o que me esperava. Recordava-me de L., mas já não me recordava do outro nome que passava quase todo o tempo na sua companhia. Um esquecimento irritante, difícil de justificar. Como pretendia eu regressar a HV se já nem me lembrava de um dos seus principais nomes?
Mas não me deixei perturbar. Havia as ruelas do Bairro Alto, a rua Alexandre Herculano, uma outra ali perto passada à história, o Marquês e mais não sei quantos sítios. Ah, o Campo Grande era fundamental… e aquele momento em que L. e mais não sei quem desatavam em despique sob uma enorme chuvada. Não sei se aconteceu exactamente assim, mas o que vale é o que escrevo agora.
Uma das pessoas em cuja opinião eu mais confiava tinha-me dito que apreciava particularmente HV, ainda que eu nunca tenha chegado a compreender o verdadeiro alcance das suas palavras. Gostar de HV era como gostar de um copo de vinho ou de uma peça de roupa elegante.
A electricidade faltou, o que veio acrescentar mais irritação ao momento que eu atravessava. Pensei contactar a empresa fornecedora, mas desisti, porque não duvidava de que perderia 20 ou 30 minutos nesse esforço. Não valia a pena espreitar para as casas da vizinhança porque àquela hora do dia era mais do que certo não haver luzes acesas nas janelas.
Fui para o quarto enxugar-me, vestir-me, preparar-me para a viagem. Ao fim de quase um mês de completa inactividade física e intelectual, sentia-me jovem e na plenitude das minhas capacidades.
Quando saí para a rua, notei que alguém procurava evitar-me, deslizando oportunamente para a sombra de uma esquina. Não liguei muito ao caso (o mundo está cheio de gente inibida e reservada) e segui em direcção ao Lumiar, onde tinha marcado encontro com GFS.
O calor apertava, de certeza acima dos 30º, o que me desapontava relativamente à possibilidade de um aguaceiro valente que me fizesse reviver o tempo de HV.
Após algumas centenas de metros de andamento, eu já suava em bica, quase me arrependendo de ter saído. Com temperaturas daquelas, mais valia permanecer em casa, fechar todas as persianas e abrir as vidraças, para deixar entrar fios de ar fresco.
Mas já que me atrevera a sair, mais valia continuar.
No sítio combinado, sentei-me e esperei por GFS. A esplanada estava completamente às moscas, o que me permitiu aproveitar a sombra de uma árvore apetecível.
Rabisquei duas ou três notas num guardanapo, enquanto ia observando as poucas almas que passavam nas redondezas. E foi num desses relances que dei de caras com GFS, em estado de completo pânico, rosto pálido e boca semiaberta, como se tivesse perdido toda a capacidade de locomoção e reacção.
Fiz sinal para que se aproximasse, mas notei que lhe era impossível corresponder. GFS tentou articular qualquer coisa, de olhos arregalados na minha direcção. Pedi que repetisse, mas o seu esforço pouco adiantou. Não consegui perceber uma simples sílaba do que tentava dizer.
Levantei-me e fui procurar ajuda junto de quem estava de serviço no interior do café, mas quando consegui finalmente encontrar socorro e voltei à esplanada, GFS tinha desaparecido sem deixar rasto.
Corri para o meio da rua, em sobressalto, olhei em volta e procurei divisar algo que tivesse ocorrido sob o sol ofuscante.
De súbito, imaginei o que sucedera. E, ao imaginar, percebi. O encontro combinado comigo fora apenas o pretexto arquitectado para que uma determinada acção fosse desencadeada, em determinadas circunstâncias, condições atmosféricas e lugar.
Não tive coragem de permanecer por mais tempo naquele sítio. Pus-me a caminhar sobre o asfalto e, à medida de cada passo que dava, o sol ia-me derretendo toda a imaginação…