sábado, 30 de outubro de 2010

A primeira palavra

Por mais que eu olhasse, não conseguia distinguir no rosto de AUS as feições que trazia em mim desde a infância. Haviam passado quase três décadas sobre o nosso último encontro. Eu tinha medo da primeira palavra que diríamos, porque acabaria connosco ou nos faria renascer.
Em criança, AUS tinha pele elegante, mas pouca beleza. Mas não desmotivava. Pelo contrário, atraía. Agora que estava na minha frente, a visão que me proporcionava era quanto bastava para eu ficar com a mente em rodeios. AUS sorria muito (em criança, não) e olhava-me de uma forma que me dificultava o entendimento acerca do que eu vivia naquele instante.
Eu tinha chegado a Toronto poucas horas antes e não descansei enquanto não descobri a sua casa, cujo endereço me havia sido disponibilizado por um familiar. Viajei de propósito para encontrar o seu paradeiro. Arrisquei. Encontrar AUS era mais importante do que todas as dúvidas, ou hesitações.
Antes de premir o botão da campainha, pensei no que o passado guardara de nós e vi uma quantidade de reflexos sobrepostos perdendo-se em dimensões longínquas.
A voz que se fez ouvir no intercomunicador sobressaltou-me. Não tive tempo de conjecturar sobre cenários. A temperatura aproximava-se dos zero graus, por isso me apressei a desaparecer na porta.
No elevador, fui pensando em possibilidades múltiplas e depressa senti que não estava em condições de raciocinar com clareza. Vi-me ao espelho e tive a nítida sensação de estar a olhar para outra pessoa. A pele do meu rosto estava lívida e os olhos apresentavam um aspecto carregado como se não dormissem há dias. A emoção condicionava-me de uma forma pouco habitual. Reencontrar AUS era fundamental, mas não me agradava perder o pé da ocasião em que acabara de entrar. Por ter o hábito das viagens, eu gostava de estar sempre em controlo do que acontecia em meu redor, apesar de saber que essa era uma tarefa inalcançável.
Quando saí do elevador, AUS estava à minha espera no meio do átrio que dava acesso à entrada do seu apartamento. Não tive oportunidade de reconsiderar, de procurar alternativa, de recuar. Foi quanto bastou para eu me entregar nos seus braços. Era a primeira vez que eu me deixava apertar por alguém sem reservas. Apetecia-me fechar os olhos e deixar o tempo correr silencioso nas estruturas do edifício que baloiçavam no sopro das horas.
Depois de muito me apertar, AUS puxou-me para dentro de casa e a minha primeira reacção foi tentar deslindar o cheiro que vinha das paredes por trás dos móveis. Um cheiro doce, embora não completo. Ligeiro, insinuante, suave. Cheiro com discurso de objectos imaculados nos seus equilíbrios.
AUS afastou-me de si, para melhor me encarar e, nesse instante, ponderei a hipótese de o seu sorriso ser estudado, calculado. Atribuí-lhe um sentido enigmático, perscrutador, perdido no vácuo. AUS já poderia ter tido muitas oportunidades como a que se lhe deparava com o meu aparecimento. Sabia eu lá a vida que fazia.
Notava-se uma chispa nos seus olhos. Um raio de saudade, descomposta e livre, na zona do queixo. Toquei-lhe com a mão na pele do rosto, com o intuito de sentir o seu frémito. Uma carícia impensada, esboço de primeira palavra, que não tardaria a ser pronunciada, Para nos definir, sem subterfúgios nem pudor.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Vento estrelando

À noite, depois de todos estarem a dormir, escapulia-me de casa sem fazer barulho, descendo as escadas com as mãos nas paredes, às apalpadelas, com receio de fazer ranger os degraus de madeira.
Logo que chegava à rua, acelerava o passo, atravessava a praça principal e dirigia-me, rente às sombras mal iluminadas, para as traseiras da casa de JUD. Eu sabia que bastava deslizar uma das bandas da sua janela do rés do chão e saltar com cuidado para não despertar atenções sobre os meus passos.
Conhecia bem o que me esperava. Não precisava de acender luzes. Bastava-me a claridade que vinha da rua através das cortinas quase transparentes.
Mal entrava, sentia o quarto cheio da respiração de JUD, que adormecia, geralmente, antes de eu chegar, porque eu nunca lhe dava a certeza de aparecer. Cansava-se de esperar e caía de sono. Ou talvez preferisse estar a dormir quando eu lhe invadisse os redutos.
Tão depressa me via dentro do quarto, não perdia um minuto e deitava-me a seu lado, mansamente, por baixo de lençóis e cobertores, chegando-me para o calor do seu corpo adormecido.
Era um consolo estar com JUD, assim, ao meu alcance, sem medos, nem barreiras. A noite trazia a liberdade com a qual eu desde sempre sonhara. Como se nada mais fosse preciso para compreender o que acontecia no mundo. Eu não imaginava que pudesse haver prazer maior do que ter o meu corpo encostado ao de JUD, enquanto as paredes do quarto se iam afundando no sono, lentamente, como num desmoronamento calculado.
Eu tinha de acordar às cinco da manhã, para regressar a casa, antes que alguém me apanhasse na cama de JUD ou antes que se notasse o meu vazio na casa onde vivia. Acordava à hora certa, mesmo sem despertador, porque estava sempre de ouvido alerta. Ao lado de JUD, o sono era obrigatoriamente leve. O abandono do seu corpo obrigava-me a dormir quase como se não dormisse. E eu gostava que assim fosse porque aquela era a forma que eu tinha de sentir o seu pulsar penetrando-me a consciência. Por vezes, punha-lhe uma das minhas pernas por cima e ficava à espera da sua reacção. Sentia-me vibrar com segredos, atracções, apetites, venturas, desejos.
O corpo de JUD entrava no meu sono rarefeito e ocupava todo o espaço que havia em mim. No fundo, não era eu que dormia, mas JUD que dormia nas minhas expectativas e memórias. Era como se eu pudesse dispensar o meu próprio corpo, bastando-me o de JUD. A posse fazia parte da natureza que nos unia.
JUD nunca me revelou o que sentia naquelas noites. Também nunca manifestei interesse em saber. Penso que ambas as partes preferiam não abordar o tema. Como se houvesse um segredo que não devesse ser violado.
Não sei como terminaram os nossos encontros. Não imagino como puderam terminar, como foi possível JUD desaparecer da minha vida. Não tive oportunidade de me aperceber com exactidão do que se passou. Creio que JUD foi viver para outro sítio. Só pode ter sido isso. Caso contrário, ainda hoje continuaríamos a ver-nos.
Não voltei a ter notícias suas e do caminho que seguiu. Tentei descobrir, mas sem sucesso. A sua imagem acompanhou-me durante anos. À noite, era-me mais fácil adormecer quando recuava ao tempo em que me evadia para o fundo da sua cama. Onde me esperava a liberdade do vento estrelando.