sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Fim de viagem

Regressei ao fim de três anos, sem saber em que estado encontraria as minhas coisas. Até me surpreendeu verificar que a casa estava à minha espera, como um cão fiel naquele seu ar de inquirir por onde teria eu andado durante tanto tempo sem dar notas de vida.
Tinham sucedido, decerto, infindas coisas na minha ausência. Muitas mais do que eu poderia calcular.
Antes de me preocupar em saber fosse o que fosse, decidi que veria com atenção o estado dos meus papéis, livros, fotos antigas, armários, gavetas, roupas que provavelmente já não me serviam.
Mal meti a chave à porta, percebi que o telefone tocava com insistência. Quem quereria falar comigo ao fim de todo aquele tempo durante o qual eu estivera ausente? Quem se lembraria de que eu ainda existia? Teria alguém adivinhado que eu acabara de chegar querendo dar-me as boas vindas?
Depois de reflectir dois segundos, decidi não atender. Não me encontrava em condições de falar com ninguém. Não saberia o que dizer. Para gaguejar, não valia a pena. Se fosse alguma urgência eu estava completamente fora do contexto, motivo pelo qual pouco ou nada poderia fazer. O mais certo era tratar-se de alguma maçada burocrática.
Pousei a mochila no átrio de entrada e olhei. Pouco restava da minha vida antiga. Após uma primeira observação, muita coisa parecia ter desaparecido, embora não fossem visíveis sinais de arrombamento ou vandalismo. Era como se os objectos tivessem decidido sair de casa, sem deixar aviso e sem dar contas a ninguém. Como se se tivessem aborrecido de tal forma com a sua solidão que não tinham suportado viver sozinhos por um período tão longo. Senti culpa pelo que fizera. Uma culpa distante, mas culpa, por não ter informado ninguém dos meus planos de viagem.
Compreendi que a casa estivesse quase ao abandono. O vazio que encontrei não me provocou mágoa. Pelo contrário, fez-me sorrir, sem que eu soubesse exactamente porquê. Não tive consciência de haver perdido nada. Um armário, um livro, uma cafeteira, talvez.
Seria pretensão pensar que a casa estaria intacta à minha espera, seria arrojo contar que os objectos estariam ao meu inteiro serviço e dispor. Não estavam e não me surpreendeu que não estivessem. A casa encontrava-se despejada de grande parte de mim. Talvez aquela parte que eu deixara pelo caminho das viagens.
Eu regressava diferente. Era natural, por isso, que o espaço da minha habitação não fosse o mesmo. Nem sei se o suportaria caso estivesse precisamente como eu o deixara. Talvez não aguentasse o confronto rigoroso com a casa na qual eu residira até três anos antes.
Quase gostei de ver as paredes despidas, nuas, desoladas. Significavam que algo ganhara vida enquanto eu andara por outros destinos, como se os objectos tivessem graça própria.
O que eu via era indício de um novo tempo que me aguardava. Um novo tempo, com novas pessoas, num novo espaço, com mais luz, mais cores, mais calor, onde escreverei o romance que desde há muito me segue. Virá, agora, outra escrita. Para que esta tenha aqui o seu fim.

domingo, 14 de novembro de 2010

Não me atrevi

Só nos faláramos uma vez por telefone e ao fim de poucos minutos já tínhamos combinado encontrar-nos em sua casa, dali a três dias. Da única conversa que tivéramos, ficara-me o timbre cavo da sua voz. Foi quanto bastou para que eu tivesse passado aqueles três dias impaciente, a ver se as horas corriam depressa. Mas não correram.
Quando entrei em casa de LDR, já não sabia em que pensar ou como proceder. Fizera cálculos, arquitectara cenários, tantos que acabara por perder a lucidez fundamental. Por precaução, dei antecipadamente o caso por fracassado. Não valeria a pena acalentar esperanças. Era mais do que certo que eu não me encontrava em condições de lidar com os dados que surgiriam.
Dez horas da manhã era cedo para alguém me receber em sua casa pela primeira vez. Só com alguém próximo se tinha tal procedimento. Este era um pormenor que aumentava a minha angústia.
Os meus pressentimentos bateram certo. O primeiro foi que não consegui chegar a qualquer conclusão. Ainda hoje, anos passados, não compreendo o contexto do que sucedeu.
LDR estava de roupão e conduziu-me para uma pequena sala, sentando-se numa cadeira à minha frente. Falava e balançava as pernas, que se iam descobrindo, enquanto me fixava nos olhos, como se estivesse à procura de encontrar neles o que as minhas palavras não diziam.
A comunicação é um dos meus aspectos marcantes, mas naquele dia falhei sem apelo. Para me acalmar, atribuí a minha derrota à hora a que o encontro se realizara. De resto, não tenho agora dúvidas de que LDR me quis receber cedo para fragilizar a minha posição.
LDR tinha acabado de acordar, o seu rosto apresentava um aspecto claro e limpo e estava coberto por um halo de tranquilidade que provocava em mim o efeito oposto. Eu receava que tudo não passasse de uma armadilha e que alguém pudesse entrar a qualquer momento, apanhando-me na situação pouco confortável de visitar uma pessoa que mal conhecia às dez da manhã.
Foi essa a razão, no fundo, porque não me mexi do meu lugar. Havia uma paralisia em todos os membros do meu corpo, como se uma cola me prendesse à cadeira.
LDR apresentou-me as suas ideias, o seu plano, que ouvi com atenção esforçada, tentando adivinhar se haveria alguma intenção oculta por trás do que me explicava. Eu sabia que só o tempo ditaria a razão dos factos, mas não perderia nada se me fosse dado descobrir algo de revelador logo na primeira ocasião.
A meio da conversa, LDR perguntou-me se eu aceitava um chá. Declinei, por não me sentir à vontade. E por cautela, também. Logo depois da minha recusa, saiu da sala, regressando algum tempo mais tarde, com uma minúscula xícara, que se pôs a sorver, em delicados goles, nos intervalos da conversa. Quando não bebia, depositava a xícara no braço da cadeira, como se o chá estivesse prestes a derramar-se, como se esse risco fosse lógico, como se até desejasse cair em algum embaraço para trazer dramatismo ao momento. Como se algo de sobrenatural pudesse de repente acontecer.
Mas não houve saída para o impasse. Concordámos apenas que voltaríamos a falar na semana seguinte. Eu precisava de tempo para recuperar das sensações que atravessara, precisava do meu tempo para voltar ao chão.
Sobre a pequena mesa de sala, reparei num insignificante vaso de flores secas. Pensei em Roma e em Amesterdão, mas não me atrevi a perguntar. Saí com a suspeita de que LDR não me voltaria a receber.

sábado, 30 de outubro de 2010

A primeira palavra

Por mais que eu olhasse, não conseguia distinguir no rosto de AUS as feições que trazia em mim desde a infância. Haviam passado quase três décadas sobre o nosso último encontro. Eu tinha medo da primeira palavra que diríamos, porque acabaria connosco ou nos faria renascer.
Em criança, AUS tinha pele elegante, mas pouca beleza. Mas não desmotivava. Pelo contrário, atraía. Agora que estava na minha frente, a visão que me proporcionava era quanto bastava para eu ficar com a mente em rodeios. AUS sorria muito (em criança, não) e olhava-me de uma forma que me dificultava o entendimento acerca do que eu vivia naquele instante.
Eu tinha chegado a Toronto poucas horas antes e não descansei enquanto não descobri a sua casa, cujo endereço me havia sido disponibilizado por um familiar. Viajei de propósito para encontrar o seu paradeiro. Arrisquei. Encontrar AUS era mais importante do que todas as dúvidas, ou hesitações.
Antes de premir o botão da campainha, pensei no que o passado guardara de nós e vi uma quantidade de reflexos sobrepostos perdendo-se em dimensões longínquas.
A voz que se fez ouvir no intercomunicador sobressaltou-me. Não tive tempo de conjecturar sobre cenários. A temperatura aproximava-se dos zero graus, por isso me apressei a desaparecer na porta.
No elevador, fui pensando em possibilidades múltiplas e depressa senti que não estava em condições de raciocinar com clareza. Vi-me ao espelho e tive a nítida sensação de estar a olhar para outra pessoa. A pele do meu rosto estava lívida e os olhos apresentavam um aspecto carregado como se não dormissem há dias. A emoção condicionava-me de uma forma pouco habitual. Reencontrar AUS era fundamental, mas não me agradava perder o pé da ocasião em que acabara de entrar. Por ter o hábito das viagens, eu gostava de estar sempre em controlo do que acontecia em meu redor, apesar de saber que essa era uma tarefa inalcançável.
Quando saí do elevador, AUS estava à minha espera no meio do átrio que dava acesso à entrada do seu apartamento. Não tive oportunidade de reconsiderar, de procurar alternativa, de recuar. Foi quanto bastou para eu me entregar nos seus braços. Era a primeira vez que eu me deixava apertar por alguém sem reservas. Apetecia-me fechar os olhos e deixar o tempo correr silencioso nas estruturas do edifício que baloiçavam no sopro das horas.
Depois de muito me apertar, AUS puxou-me para dentro de casa e a minha primeira reacção foi tentar deslindar o cheiro que vinha das paredes por trás dos móveis. Um cheiro doce, embora não completo. Ligeiro, insinuante, suave. Cheiro com discurso de objectos imaculados nos seus equilíbrios.
AUS afastou-me de si, para melhor me encarar e, nesse instante, ponderei a hipótese de o seu sorriso ser estudado, calculado. Atribuí-lhe um sentido enigmático, perscrutador, perdido no vácuo. AUS já poderia ter tido muitas oportunidades como a que se lhe deparava com o meu aparecimento. Sabia eu lá a vida que fazia.
Notava-se uma chispa nos seus olhos. Um raio de saudade, descomposta e livre, na zona do queixo. Toquei-lhe com a mão na pele do rosto, com o intuito de sentir o seu frémito. Uma carícia impensada, esboço de primeira palavra, que não tardaria a ser pronunciada, Para nos definir, sem subterfúgios nem pudor.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Vento estrelando

À noite, depois de todos estarem a dormir, escapulia-me de casa sem fazer barulho, descendo as escadas com as mãos nas paredes, às apalpadelas, com receio de fazer ranger os degraus de madeira.
Logo que chegava à rua, acelerava o passo, atravessava a praça principal e dirigia-me, rente às sombras mal iluminadas, para as traseiras da casa de JUD. Eu sabia que bastava deslizar uma das bandas da sua janela do rés do chão e saltar com cuidado para não despertar atenções sobre os meus passos.
Conhecia bem o que me esperava. Não precisava de acender luzes. Bastava-me a claridade que vinha da rua através das cortinas quase transparentes.
Mal entrava, sentia o quarto cheio da respiração de JUD, que adormecia, geralmente, antes de eu chegar, porque eu nunca lhe dava a certeza de aparecer. Cansava-se de esperar e caía de sono. Ou talvez preferisse estar a dormir quando eu lhe invadisse os redutos.
Tão depressa me via dentro do quarto, não perdia um minuto e deitava-me a seu lado, mansamente, por baixo de lençóis e cobertores, chegando-me para o calor do seu corpo adormecido.
Era um consolo estar com JUD, assim, ao meu alcance, sem medos, nem barreiras. A noite trazia a liberdade com a qual eu desde sempre sonhara. Como se nada mais fosse preciso para compreender o que acontecia no mundo. Eu não imaginava que pudesse haver prazer maior do que ter o meu corpo encostado ao de JUD, enquanto as paredes do quarto se iam afundando no sono, lentamente, como num desmoronamento calculado.
Eu tinha de acordar às cinco da manhã, para regressar a casa, antes que alguém me apanhasse na cama de JUD ou antes que se notasse o meu vazio na casa onde vivia. Acordava à hora certa, mesmo sem despertador, porque estava sempre de ouvido alerta. Ao lado de JUD, o sono era obrigatoriamente leve. O abandono do seu corpo obrigava-me a dormir quase como se não dormisse. E eu gostava que assim fosse porque aquela era a forma que eu tinha de sentir o seu pulsar penetrando-me a consciência. Por vezes, punha-lhe uma das minhas pernas por cima e ficava à espera da sua reacção. Sentia-me vibrar com segredos, atracções, apetites, venturas, desejos.
O corpo de JUD entrava no meu sono rarefeito e ocupava todo o espaço que havia em mim. No fundo, não era eu que dormia, mas JUD que dormia nas minhas expectativas e memórias. Era como se eu pudesse dispensar o meu próprio corpo, bastando-me o de JUD. A posse fazia parte da natureza que nos unia.
JUD nunca me revelou o que sentia naquelas noites. Também nunca manifestei interesse em saber. Penso que ambas as partes preferiam não abordar o tema. Como se houvesse um segredo que não devesse ser violado.
Não sei como terminaram os nossos encontros. Não imagino como puderam terminar, como foi possível JUD desaparecer da minha vida. Não tive oportunidade de me aperceber com exactidão do que se passou. Creio que JUD foi viver para outro sítio. Só pode ter sido isso. Caso contrário, ainda hoje continuaríamos a ver-nos.
Não voltei a ter notícias suas e do caminho que seguiu. Tentei descobrir, mas sem sucesso. A sua imagem acompanhou-me durante anos. À noite, era-me mais fácil adormecer quando recuava ao tempo em que me evadia para o fundo da sua cama. Onde me esperava a liberdade do vento estrelando.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Desaparecimento

Saiu de casa, sem olhar à direita nem à esquerda, avançou de passo firme, em ritmo compassado, evoluindo nos minutos que separavam o afastamento da sua sombra de tudo o que ficava para trás.
Havia passado dias a ponderar como procederia, ou não procederia, se informaria a família ou alguém amigo, ou se simplesmente desapareceria, e a sua decisão não demorou a acontecer.
Deixaria pessoas magoadas, que lhe queriam bem, lhe eram próximas, faziam parte da sua vida, mas a sua vontade de cortar e mudar era mais forte do que todos os remorsos.
O que mais incentivava a sua decisão era a necessidade de chegar a uma outra fase, que sabia ser impossível de atingir se não abandonasse a vida que levara até àquele momento, se não deixasse para trás miudezas, nós, fios enriçados, novelos, imbróglios. Para que a coerência da sua atitude fosse integral, não hesitou em levar consigo só a roupa que tinha no corpo e a pequena mochila na qual tinha por hábito carregar duas ou três coisas de maior utilidade. Dinheiro, só o suficiente para uns dias. Quando acabasse, procuraria trabalho casual com o fito de ganhar uns trocos que lhe permitissem continuar em frente. Em última instância, poderia sempre sentar-se numa entrada de metropolitano e apelar à generosidade de quem entrava e saía.
Ignorava como faria ao fim do primeiro dia de viagem, mas sabia que, depois de tudo o que analisara, sopesara, congeminara, não lhe restava alternativa senão avançar às cegas. Se se pusesse a fazer planos, contas, cálculos, nunca chegaria a dar o primeiro passo. Há momentos que são mais fortes do que pessoas, cidades, ameaças, projectos, que têm o poder de nos colocar perante outra circunstância, como se de súbito desencadeassem o movimento em direcção ao que nos espera e que não temos forma de recusar. São momentos sem ambiguidade, sem hesitação, sem palavras, que libertam amarras e abrem portas a um qualquer outro lado.
O seu destino poderia ser Lisboa, Barcelona, Amesterdão, três cidades que lhe ocorriam sempre que pensava em mudar de sítio. Mas havia outros lugares pelos quais passaria e que poderiam alterar os seus planos.
Não tinha marcado o dia da partida. Queria desaparecer de forma espontânea. Programar podia fazer que alguém adivinhasse o que lhe ia na mente. Não se deixava família, emprego, amigos, lugares de todos os dias sem correr riscos.
As dúvidas não teriam resposta, nem quando se dessem conta do seu sumiço. “Não deixou nota escrita? Não telefonou a avisar ninguém? Não tinha dívidas nem estava sob ameaça ou perigo? Teria um relacionamento íntimo secreto? Não se percebe!” Seria uma conclusão mais do que bastante para quem procurasse saber o que lhe havia sucedido.
Ao fim de cerca de meia hora de andamento, sentiu que seria irrealista continuar a pé. Devia ter reflectido melhor no assunto. E como ainda não tinha pensado onde dormiria naquela noite, considerou que talvez não fosse má ideia dirigir-se para a estação de comboios. Seguiria o destino que a locomotiva lhe traçasse. E quando a escuridão se confundisse com o movimento da paisagem na janela, teria oportunidade de passar pelo sono.

domingo, 12 de setembro de 2010

Bastava-nos a noite

Quando o sol começava a descer no horizonte, a primeira coisa que eu fazia era apoderar-me do comando de abertura electrónica da garagem e preparar a cadeira de rodas para a colocar na bagageira do carro. Depois, certificava-me de que toda a gente tinha os agasalhos suficientes e informava em voz alta que estava a postos para a saída. Se não o fizesse, LM provavelmente só horas depois se daria conta da nossa partida…
A seguir, aproximava-me de CM e pedia-lhe que me desse o braço, a fim de eu amparar os seus passos na descida das escadas. Seguíamos até ao patamar e depois eu segurava a sua bengala e deixava que atingisse os degraus pelos seus próprios meios, na certeza de que não deixaria de recorrer ao apoio dos corrimões. Eu avançava, de costas, poucos centímetros à sua frente, a fim de intervir caso se verificasse alguma falha nos seus movimentos.
Enquanto CM descia, PMP não parava de erguer e agitar a sua bengala, a ver se lhe davam atenção, fazendo que CM protestasse e exigisse silêncio, para evitar uma distracção que lhe pudesse valer um tombo por cima de mim.
PMP continha-se, mas por pouco tempo. Não muito depois, deixava-se entusiasmar pelo estado da vegetação que inundava a ribeira ali mesmo ao lado ou pelos níveis de ruído de algum veículo e voltava ao tropel da conversa e aos acenos de bengala. Nessa altura, CM ia proferindo impropérios a uma ou outra barata que se atravessava no seu percurso para a garagem e quando avistava o carro acelerava em pequeníssimos passos na esperança de atingir mais depressa o assento que lhe estava destinado.
Logo que tinha o veículo ao seu alcance, passava-me a bengala, agarrava-se com as duas mãos à porta que eu previamente escancarara e procurava encontrar o melhor jeito de corpo para entrar em segurança.
LM surgia, por fim, sentando-se ao volante por entre imprecações ao calor, e partíamos sob a avalanche dos comentários de PMP a esta e àquela casa, ao perfil de quem nela morava, a quem pertencera antes, ao ano em que fora construída e ao que se costumava plantar no terreno quando o mesmo ainda não fora objecto de projecto imobiliário.
Terminada a viagem de pouco mais de cinco minutos, repetia-se o percurso ao contrário, com CM saindo do carro no maior vagar e PMP abrindo caminho com esbracejamentos de bengala na luz acobreada da noite.
Eu pedia a LM que fosse à frente para nos reservar na esplanada uma mesa que tivesse a protecção de um guarda-chuva e cujo acesso não apresentasse dificuldades à cadeira de rodas, embora as minhas palavras de pouco servissem porque LM depressa se esquecia do combinado, pondo-se a cirandar à beira-mar como se precisasse de sal nas narinas para sobreviver.
Descida a rampa de acesso às mesas, com a cadeira de rodas em marcha atrás, para evitar qualquer percalço com CM, sentávamo-nos de conversa na noite amena, ao abrigo das ondas, como num barco sem porto para atracar.
PMP fazia uma infinidade de perguntas sobre a consistência do pão ou sobre a forma como o ananás viria cortado, mas acabávamos por encomendar amendoins, tremoços, por vezes chá verde, tostas mistas, ou simples descafeinados.
Entretanto, PMP recuperava uma das histórias que tinha interrompido no carro e logo a encadeava com outra, embrenhando-se em minúcias de parentescos através de gerações, até quase perder a lembrança do que inicialmente pretendia contar. Quando finalmente se calava, punha-se a tocar em tudo com os dedos, perguntando, querendo saber, duvidando, pedindo que lhe dissessem a cor e o tamanho das coisas que tinha diante do nariz…
As horas passavam lentas, enquanto a noite inchava o céu das nossas vidas, ao sabor da espuma sobre as pedras rumorejantes de jazz, por vezes tango. Dava a sensação de estarmos dentro de uma campânula cujos limites não se adivinhavam, mas que ainda assim nos aquecia. E divisava-se um rasgão vermelho no horizonte, espécie de braseiro alimentando a brisa naqueles momentos de longo crepúsculo a respirar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Compreendi, de súbito

Era um campo verde, longo, maduro, que a minha vista dificilmente alcançava em toda a sua extensão e plenitude. Eu tinha vindo de longe em busca de LTS e enfrentava agora a imensidão da proximidade com o lugar onde me diziam ficar situada a sua residência.
Tinham-me referido que era por ali. Olhavam-me com expressão de desencanto e apontavam em frente. Não havia que enganar. O sítio tinha um nome que eu pronunciava com dificuldade. Por isso, mostrava o papel onde o tinha escrito para que não restassem dúvidas sobre a morada que eu procurava.
Não sabia de LTS há muitos anos e, um dia, tomara a decisão de partir em busca do seu paradeiro. O carro quase não chegou ao destino. Foi-se desfazendo pela estrada fora. Houve alturas em que me apetecia chorar, mas esforcei-me sempre por reagir ao desalento. Por mais de uma vez faltou-me o combustível para galgar a lonjura do caminho, mas tive sempre a sorte de aparecer alguém que me ajudasse ou de a estrada me levar na sua descida até uma estação de abastecimento.
Terminada a travessia das montanhas, tudo se tornou mais fácil na minha viagem. Só não havia maneira de encontrar LTS, nem a sua casa, nem ao menos a carripana velha que um dia lhe pertencera e cujo número de matrícula eu conservara nos anos.
LTS não tinha por hábito recorrer a minúcias. Falava como se não quisesse que descobrissem onde vivia. Mas como a sua simpatia era transbordante, nunca duvidei de que podia ir à sua procura.
Durante anos, não tive notícias das suas andanças. Só uma vez consegui que me atendesse o telefone e me contasse vagamente como ocupava os seus dias.
Bastou-me isso para anos mais tarde me fazer à estrada na esperança de descobrir o lugar onde se refugiara.
Eu crescera com LTS, copiara os seus poemas e até estudara filosofia pelos seus cadernos de apontamentos, que eram muito bem organizados e fáceis de assimilar.
Mas, certo dia, dera-lhe a ideia de desaparecer para a Califórnia e nunca mais se soube por onde andava.
Procurei por um campo verde, longo, maduro… e fui desembocar à frente de um portão carunchoso que mal se aguentava nas dobradiças. Por qualquer motivo, percebi que tinha chegado ao sítio que procurava.
Não mexi um dedo. Reflecti… hesitei… imaginei se seria possível que LTS não me quisesse ver. Mas concluí que depois de uma viagem de milhares de quilómetros só me restava entrar e verificar com os meus próprios olhos.
Avancei e vi-me diante de um casarão grandioso, com paredes envelhecidas e janelas sem cortinados. Circundei o edifício, em busca de uma porta onde pudesse bater e perguntar por LTS. Não a encontrei. O edifício ligava a um outro, mais estreito, embora mais comprido, com uma série de janelas em fila no piso superior.
Comecei a sentir preocupação pelo que via. Não imaginava LTS a viver num sítio tão ermo. Pensei que ao menos se avistasse dali uma qualquer cidade palpitante. Mas não. Era só campo extenso definhando na luz baça do dia. Campo até perder de vista.
Estava eu nos meus pensamentos quando dei conta de uma enorme tartaruga deslocando-se na minha direcção. Esperava tudo, menos a recepção de uma tartaruga pachorrenta, com cara de pouca hospitalidade.
Mirei em volta, sem saber o que pensar, e não vi sinais de um botão de campainha ou corda de sineta que me pudessem valer.
A tartaruga veio galgando terreno, arrastando-se, bamboleando, reduzindo sempre a distância para o ponto onde eu me encontrava. Quando me restava pouco mais de um metro para respirar, reparei num lampejo da sua expressão ocular, que me fez cambalear e compreender, de súbito, o que me aguardava…

domingo, 15 de agosto de 2010

Onde o sol derretia a imaginação

Chegara o dia de voltar a HV e eu ainda não sabia em que momento e em que condições iniciaria a viagem. Tinha saído da cama com uma disposição pouco recomendável, dera uma olhada à caixa de correio e não me agradara vê-la vazia.
Saí do duche com as ideias aos saltos, na tentativa de prever o que me esperava. Recordava-me de L., mas já não me recordava do outro nome que passava quase todo o tempo na sua companhia. Um esquecimento irritante, difícil de justificar. Como pretendia eu regressar a HV se já nem me lembrava de um dos seus principais nomes?
Mas não me deixei perturbar. Havia as ruelas do Bairro Alto, a rua Alexandre Herculano, uma outra ali perto passada à história, o Marquês e mais não sei quantos sítios. Ah, o Campo Grande era fundamental… e aquele momento em que L. e mais não sei quem desatavam em despique sob uma enorme chuvada. Não sei se aconteceu exactamente assim, mas o que vale é o que escrevo agora.
Uma das pessoas em cuja opinião eu mais confiava tinha-me dito que apreciava particularmente HV, ainda que eu nunca tenha chegado a compreender o verdadeiro alcance das suas palavras. Gostar de HV era como gostar de um copo de vinho ou de uma peça de roupa elegante.
A electricidade faltou, o que veio acrescentar mais irritação ao momento que eu atravessava. Pensei contactar a empresa fornecedora, mas desisti, porque não duvidava de que perderia 20 ou 30 minutos nesse esforço. Não valia a pena espreitar para as casas da vizinhança porque àquela hora do dia era mais do que certo não haver luzes acesas nas janelas.
Fui para o quarto enxugar-me, vestir-me, preparar-me para a viagem. Ao fim de quase um mês de completa inactividade física e intelectual, sentia-me jovem e na plenitude das minhas capacidades.
Quando saí para a rua, notei que alguém procurava evitar-me, deslizando oportunamente para a sombra de uma esquina. Não liguei muito ao caso (o mundo está cheio de gente inibida e reservada) e segui em direcção ao Lumiar, onde tinha marcado encontro com GFS.
O calor apertava, de certeza acima dos 30º, o que me desapontava relativamente à possibilidade de um aguaceiro valente que me fizesse reviver o tempo de HV.
Após algumas centenas de metros de andamento, eu já suava em bica, quase me arrependendo de ter saído. Com temperaturas daquelas, mais valia permanecer em casa, fechar todas as persianas e abrir as vidraças, para deixar entrar fios de ar fresco.
Mas já que me atrevera a sair, mais valia continuar.
No sítio combinado, sentei-me e esperei por GFS. A esplanada estava completamente às moscas, o que me permitiu aproveitar a sombra de uma árvore apetecível.
Rabisquei duas ou três notas num guardanapo, enquanto ia observando as poucas almas que passavam nas redondezas. E foi num desses relances que dei de caras com GFS, em estado de completo pânico, rosto pálido e boca semiaberta, como se tivesse perdido toda a capacidade de locomoção e reacção.
Fiz sinal para que se aproximasse, mas notei que lhe era impossível corresponder. GFS tentou articular qualquer coisa, de olhos arregalados na minha direcção. Pedi que repetisse, mas o seu esforço pouco adiantou. Não consegui perceber uma simples sílaba do que tentava dizer.
Levantei-me e fui procurar ajuda junto de quem estava de serviço no interior do café, mas quando consegui finalmente encontrar socorro e voltei à esplanada, GFS tinha desaparecido sem deixar rasto.
Corri para o meio da rua, em sobressalto, olhei em volta e procurei divisar algo que tivesse ocorrido sob o sol ofuscante.
De súbito, imaginei o que sucedera. E, ao imaginar, percebi. O encontro combinado comigo fora apenas o pretexto arquitectado para que uma determinada acção fosse desencadeada, em determinadas circunstâncias, condições atmosféricas e lugar.
Não tive coragem de permanecer por mais tempo naquele sítio. Pus-me a caminhar sobre o asfalto e, à medida de cada passo que dava, o sol ia-me derretendo toda a imaginação…

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O lugar da eternidade

Em criança, perguntava-me como seria possível alguém apreciar-me, olhar-me, aproximar-se, desejar-me. No meio da minha solidão inquieta, via as horas passarem na noite. Perdia o sono, virava-me na cama, observava o recorte das sombras na parede, olhava em todas as direcções sem compreender o que viria, como se sentisse a falta de um corpo ao pé do meu. À minha volta, as formas das coisas eram enevoadas, tinham falta de sentido, não pareciam capazes de me orientar.
Um dia, percebi que o meu destino era partir em busca de quem gostasse de mim, de quem me compreendesse e me aceitasse, de quem me adivinhasse, me lesse nas entrelinhas, me proferisse ao ouvido uma palavra de amor. Alguém que, sem me conhecer, sem imaginar de onde eu vinha, sem fazer sequer a mais pequena ideia do meu nome, se interessasse pelo que eu significava e se me devotasse.
Andei de rua em rua, de cidade em cidade, de país em país, procurando realizar o meu sonho. Se me compreendessem, eu tinha a certeza de que me amariam.
Encontrei gente de todos os feitios e sentimentos, a quem me entreguei sem condições. Gostasse pouco ou gostasse muito, eu dava-me, como num ritual de descoberta. Não encontrava motivos para recusar quem se aproximava de mim. Como se a palavra “não” fosse proibida no meu léxico. Se queria que me amassem, não podia encolher-me a um canto e negar-me a viver as oportunidades que se me deparavam.
Respondia às chamadas, aos apelos, às visitas. E quando alguém não aparecia, quando alguém me falhava, eu saía prontamente de casa à procura de outra pessoa com quem me pudesse relacionar. Era uma luta diária, uma pesquisa permanente, que me conduzia a situações imprevisíveis.
Saía de casa e andava de um lado para o outro, inventando pretextos para aparecer aqui e acolá. Metia conversa com quem me surgisse pela frente, em qualquer sítio, sem me preocupar com formalidades ou conveniências. Quando me recebiam com um sorriso entendia-o como um convite e avançava.
A partir de certa altura, havia gente em demasia a gostar de mim. Gente de todas as idades e condições, deixando-me quase sem espaço para respirar. Passei a ter dificuldade em escolher entre tantos sentimentos dispersos e variados. Gostava de uns lábios finos, de uma testa branca, de um cabelo castanho solto, de umas mãos magras e ágeis, mas isso não era suficiente. Perdia-me. E acabava por ficar com quem calhava, com quem não desistia.
Dei-me de todas as formas, em todos os momentos, sem excepção. De noite e de dia, em casas, jardins, sótãos, vãos de escadas, nesgas de portas.
Nunca discriminei fosse quem fosse. Como poderia eu ignorar um rosto que me olhava na noite fria? Uma boca que me prometia amor e mais amor? Gostei e gostei de tanta gente. Fiz amores que não terminavam e outros que nasciam sem parar. Ríamos muito e era bom. Fazíamos e gostávamos. Continuávamos. Queríamos sempre mais. Mesmo que, a dado passo, já não fizéssemos a mais pequena ideia sobre a morte que nos aguardava.
Um dia, reparei que o meu corpo não resistia a tantas solicitações. Acedia a um desejo e deixava outro por realizar. A distância impunha-se de forma inexorável. Percebi que não resistiria muito mais. O que me ligava às pessoas definhava a olhos vistos. Era volátil e frágil. Não me cortava a carne. Passava como um raio na sombra das luzes. Havia pouca substância nas minhas relações. Os olhares eram rápidos, os diálogos interrompidos, as promessas esquecidas. Como se outros mundos se erguessem sobre as ruínas daquele em que eu sempre vivera. Tinha percorrido toda a parte, mas não vislumbrara a eternidade. E vi-me de regresso ao início. Ao lugar do tempo onde o amor…

quinta-feira, 15 de julho de 2010

As horas que faltavam

Sentei-me no comboio, na convicção de que faria uma viagem suave e liberta de constrangimentos, mas essa convicção não demorou a desaparecer. Ainda me estava a adaptar ao ambiente de sacos e malas entrando e saindo, subindo e descendo, quando verifiquei que LBF acabara de se sentar à minha frente, olhos nos olhos. Não proferiu palavra que se ouvisse, mas o seu rosto gritava mais do que todas as palavras. Apesar de ter sentido um estremeção interior, contive-me e procurei não denotar afectação por aquele súbito aparecimento.
LBF amuava, afastava-se, fazia silêncio, mas quando eu lhe respondia na mesma moeda, logo se reaproximava, como se quisesse possuir-me por completo ou como se receasse que eu desaparecesse por uma qualquer nesga instantânea e imprevista. Era a sua forma de erotismo, a sua forma de amar.
Os olhos de LBF comandavam todos os detalhes à sua volta. Quem estivesse ao alcance da sua observação via logo reduzida uma boa porção da liberdade a que tinha direito. Pelo menos era o que sucedia comigo. E fora por isso que eu deixara LBF no alto da serra e me pusera a caminho da estação de comboio.
Nunca pensei que os meus passos seriam seguidos. Mas foram-no. E isso mudou tudo na minha viagem.
A primeira decisão que tomei quando percebi o cerco que LBF me estava a fazer foi que não haveria de perder o norte. Em ocasiões anteriores, eu fraquejara por diversas vezes, mas desta feita teria de encontrar força para não me deixar sucumbir ao seu poder de atracção.
Claro que me podia levantar do sítio onde estava e procurar outro compartimento ou carruagem, mas depressa concluí que LBF não hesitaria em seguir-me para onde quer que eu fosse, saltando de assento em assento, através de todo o comboio, como numa brincadeira de crianças sem noção dos limites.
Para evitar semelhante ridículo, decidi não me mexer do lugar onde estava e concentrei-me na ideia de que o importante seria evitar os olhos de LBF. Se o conseguisse, estaria a neutralizar a sua arma fundamental.
Pus-me a divagar as vistas pelo compartimento, fingindo interesse no ambiente: uma cabeça encostada à janela, quase dormindo; uma outra embrenhada num livro, uma terceira observando o desfile de sombras no exterior. E havia também um pássaro numa gaiola que parecia não pertencer a ninguém. Talvez tivesse sido abandonado como uma criança que não se deseja.
Lembrei-me da revista que adquirira num quiosque da estação e apressei-me a folheá-la para que LBF reparasse que eu não tinha qualquer interesse na sua presença e que não me deixava incomodar pela sua ousadia. Tínhamos acabado de passar dois dias dentro de uma pequena tenda de campismo a mais de mil metros de altura, por isso não havia motivos para saudades entre as partes.
Li a revista da primeira à última página, na esperança de ver LBF desistir, esfumar-se num apeadeiro qualquer, ir aos lavabos, mudar de compartimento, mas não tive sorte. A sua resistência foi mais forte do que tudo o que eu pudesse conjecturar.
Comi uma sandes e uma maçã que trazia na bagagem e, a seguir, ousei enfim levantar-me, para esticar as pernas e ir tomar um café no vagão do restaurante, com a certeza de que ao regressar LBF estaria no mesmo lugar.
Demorei-me o mais que pude, tentei ocupar tempo em conversa com o empregado de balcão, debrucei-ma na janela da paisagem correndo a toda a velocidade, e quando mais tarde regressei ao meu assento, verifiquei que LBF não tinha mexido uma sobrancelha! Estava na mesmíssima posição de rigidez e imobilidade.
Senti um arrepio, mas não cedi, nem dei nota de qualquer perturbação. Acomodei-me no assento e preparei-me para enfrentar as horas que faltavam para o comboio chegar a Santa Apolónia…

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A espera do fogo

Já me sinto entrar nos seus redutos e já quase dificilmente me contenho. Há ocasiões em que mal consigo controlar os acontecimentos como numa paisagem sob um ror de ameaças. A cada dia que se segue, apercebo-me de que há uma atmosfera que entra em mim e que me faz perder a noção dos destinos.
Sei que será a minha grande viagem. Sinto-a nos poros, nos dedos, na temperatura. É um tempo que me chama e ao qual peço que tenha paciência, peço que espere um pouco, só mais um pouco, até que eu possa dar por terminado o que tenho em mãos.
Mas sei que quanto mais tempo decorrer antes de me entregar às suas águas, mais vida entrará no meu corpo.
Vou-lhe sentindo a cor, o cheiro, o ritmo, o sabor. Vou-lhe entrevendo o fôlego, os discursos, os pensamentos, os caminhos, os imprevistos. É uma espécie de viagem antes da viagem isto que sinto. Uma viagem que prepara a rota de outra viagem.
Nunca consenti tanto tempo de espera por alguma coisa. Em jovem, deixava-me levar pelo impulso, atirava-me em frente sem ponderar, não dava oportunidade às coisas de ganharem forma. Os projectos despoletavam num prazo de dias e eu desistia de tudo para me dar à tarefa de os terminar em meses pensando que esse era o modo correcto de proceder. Não lhes permitia viverem o seu tempo. Tudo corria ligeiro e superficial. A respiração era dolorosa e trôpega, as ideias uma espécie de rascunho de algo que só mais tarde me seria dado viver.
Hoje, os dias são claros, frutuosos, agradáveis. Apetecem, crescem a todo o momento. Não importa o que pensam de mim, o que pensaram ou vão pensar. A verdade prescinde de minudências e acaba por ser a única a impor-se. Basta-se a si própria. O seu maior encanto é conceder-nos tempo suficiente para completarmos uma vida. O tempo todo que transforma o espaço todo de toda a gente.
Cabe-me desfrutar o bem antes de acontecer seja o que for. Já nem quero saber o que será, nem como será. Só sei que alguma coisa virá.
Sinto-o ganhando raízes na erva sob os meus pés, sinto os sinais avolumando. Cada gesto que faço conduz-me à descoberta de uma coincidência, um som, um aceno. Espero rumores, sensações, fugas, deslizes, buscas. Espero a voz de fundo que se prepara para me entrar nos músculos, nos olhos, na consciência.
A espera são os outros. Sempre os outros, perseguindo-nos, amando-nos, incentivando-nos, desanimando-nos, cativando-nos, destruindo-nos. Deixá-los vir, saracotear, barafustar, resmungar, vituperar.
De início, ressentimo-nos, pensamos que não gostam de nós, mas depois compreendemos que é essa a melhor direcção, a única direcção. Os outros são a causa do nosso crescimento. Ignoram-nos, ou desprezam-nos, para que nos esforcemos por ser melhores.
Tenho tanto para viver nos próximos anos. E tão livremente. Não quero que a espera termine. Apetece-me prolongá-la pelo maior período de tempo possível. Apetece-me a felicidade de a habitar em permanência. Como o eco da não-palavra que ouve a luz no âmago da plenitude.
Foi difícil, mas valeu a pena. Valeu tanto a dor. Não sei como cheguei aqui, não imagino que vias percorri. Mesmo o que me parecia estar errado encontrou o seu lugar.
Olho para trás e observo o vento correndo nas marcas do dia que não volta. O vento correndo e agitando os desejos nas suas hastes de rumor contínuo. O chão é grande. Como o valor de um contexto.
Quando o tempo se encerra, quando se despede para ir de viagem, chega a ocasião de viver a história, elaborar o documento, lavrar o registo. Não voltaremos a tocar-lhe. Uma vez fechada a porta, compete à memória definhar em fogo azul, sempre azul. Quando todas as cores nos esperam.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Deixei-me ir

Viemos pelas montanhas abaixo sob uma tempestade mais retumbante do que a nossa imaginação. Seguíamos encolhidos nos assentos do carro depois de termos acordado, ainda o sol não nascera, com a tenda inundada de água. O lago subira durante a noite sem nos termos dado conta. Fugimos como se o diabo nos perseguisse.
Acelerei pelas ruas estreitas do parque e procurei desaparecer rapidamente. Tínhamos a bagagem completamente encharcada. Só escapava a roupa que vestíamos.
Quando cheguei à auto-estrada, descomprimi, desatei a fazer cálculos e percebi que corríamos o risco de ficar sem dinheiro. A minha conta bancária estava a zero e no bolso só me restavam duas notas de vinte. Não nos sobrava margem para riscos nem distracções. Felizmente, tínhamos o depósito cheio de combustível.
Era minha intenção fazer uma paragem em Montreal e tentar descobrir MHF, que me devia dinheiro há algum tempo. Se me pagasse, chegaríamos a Providence sem problemas.
Decidi que pararia na próxima estação de serviço. Apetecia-me desentorpecer as pernas e tomar café.
Quando imobilizei o carro, olhei para DSG e vi nos seus olhos que se sentia bem na minha companhia. Era um dos aspectos que eu apreciava na sua personalidade: a disponibilidade para fazer parte dos meus apetites. Mas essa característica não foi suficiente para sustentar a nossa relação por muito tempo. Aquela viagem deve ter sido dos últimos bons momentos que vivemos juntos. Livres, sem pressão, sem compromissos, com espírito de entrega mútua.
O café soube como cerejas. Quando regressávamos ao carro, detive-me a fixar a vitrina de uma loja e decidi oferecer uns óculos de praia a DSG.
“São muito caros”, replicou. “Deixa para outra altura”.
Surpreendeu-me a sua preocupação com o dinheiro. Mas achei que os óculos lhe ficavam a matar. Depois de uma ligeira hesitação, paguei e metemo-nos no carro.
O mau tempo tinha abrandado, embora as nuvens carregadas continuassem suspensas à nossa frente.
Antes de chegarmos a Montreal, consultei o papel em que anotara a morada do restaurante onde MHF actuava. Ao fim de umas voltas, demos com o sítio.
Tivemos uma recepção calorosa. MHF sentou-nos a uma mesa e fez questão de nos acompanhar. Disse que o jantar ficava por sua conta e que tinha muita honra na nossa presença. Notava-se que sentia a obrigação de nos dispensar simpatia até lhe desaparecermos da vista.
Logo que teve uma brecha, disse que estava na hora de voltar ao palco e prometeu que voltaria para junto de nós.
Depois da sua actuação, demorou-se bastante tempo nos bastidores e cheguei a recear que a despesa da refeição me viesse parar ao colo.
Mas MHF voltou para a nossa mesa. Vinha despedir-se, dizendo que lhe surgira subitamente um compromisso a que não poderia faltar. Contudo, informou-nos de que já havia pago a conta e ofereceu-nos pernoita num quarto de hotel que tinha reservado em seu nome.
Ficavam as contas saldadas. Já não dormiríamos no carro.
Logo que entrámos no quarto, afastei as cortinas da janela para apreciar a vibração dos néons que enchiam a cidade, enquanto DSG se ia estendendo na cama.
De olhos fixos nas luzes de Montreal, percebi que não valia a pena pensar mais em dinheiro, nem sequer na muita estrada que faríamos no dia seguinte.
O corpo de DSG amolecia entre os lençóis, confundia-se com os reflexos da vidraça, enovelava-se de ondulações…
Tive a impressão de ouvir chamar por mim. Uma espécie de eco rasgando o silêncio.
Olhei a cidade por uma última vez… e deixei-me ir na direcção da cama, onde me esperava a noite sem fim.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Vagamente estrangeiro

Não me lembro de pormenores, mas recordo-me de que passei vários dias em casa de gente amiga. Logo que soube o que estava para acontecer, não perdi tempo e procurei refúgio, enquanto pedia a uma pessoa próxima que me ajudasse a tratar da documentação necessária para fugir.
Não tenho ideia se abalei pela calada da noite, se no momento de partir contactei vivalma, se tive oportunidade de tomar alguma refeição, se antes de entrar no avião tinha dormido tempo de mais ou de menos. Não tenho ideia da cara das pessoas que me acompanharam, que me apoiaram, que me abriram o caminho. Também não recordo o dia e a hora da partida. Foi como se tudo se me tivesse apagado da memória num gesto intencional e programado.
Eu levava o remorso da fuga no coração. Ainda não tinha desaparecido e já me sentia mal. Era um remorso cobarde. Fugir resulta sempre de um medo e eu tinha pânico de ficar onde estava. O ambiente que me rodeava era de pólvora. As pessoas olhavam-me de viés, como se eu vivesse na iminência de explodir a qualquer momento. Explodir mesmo nos ares diante de gente que me conhecia desde a infância.
Falava-se de ameaças nas minhas costas, mas eu não sabia exactamente quais. E tinha a certeza de que não valeria a pena tentar descobri-las porque ninguém seria capaz de mas explicar. Mesmo que quisessem, não conseguiriam pôr em palavras o que se passava. Como se o que se passava fosse do âmbito do além, de um tempo e de um espaço que funcionavam segundo códigos alheios ao banal quotidiano.
Um dia, cheguei a casa e JRG chorava nas escadas, com a cabeça entre as mãos. Soluçava como se a sua vida – a nossa vida – estivesse para desabar a qualquer minuto. Perguntei-lhe o que tinha acontecido, mas a resposta foi o silêncio, a distância pronta, ficando no ar a ideia de que o meu interesse pelo seu estado de espírito tinha vindo agravar as coisas, em vez de as aliviar.
Só me restava carregar a alma enfraquecida pela tentação da fuga. Fosse cobardia ou o seu contrário, eu não tinha por onde escolher. O silêncio de JRG foi a última imagem que guardei daqueles dias que o pedregulho trouxe à minha consciência.
Entrei no avião sem sinais de mágoa, só com o remorso colado ao interior da roupa. Aterrei no meu país estrangeiro, onde me esperavam com abraços e promessas. Alojei-me em casa de familiares. Dormi não sei para que lado, sonhei não sei que tremores ou impaciências. Acordei durante a noite, mas não quis sair da cama porque tive medo da casa e dos seus segredos. Podia haver alguém escondido onde eu não contava. Não sabia onde acender as luzes. Receava ter uma visão demolidora.
Quando amanheceu, fui aprender caminhos nas proximidades e pesquisar as palavras iniciais da língua que me acolhia. O cheiro da nova cidade não demorou a entrar em mim. Veio na roupa, no brilho dos carros, nos olhares anónimos, nas árvores bordejando as ruas, nas casas de clareza transbordante.
Entrei na cidade que entrou em mim e depois entrei em outras cidades que viviam dentro daquela, para nunca mais me lembrar do passado de onde partira.
Passei a andar na luz das estradas velozes, planícies humanas, areais desertos, visões imensas.
Por vezes, mandavam-me parar e eu punha-me a olhar o céu na expectativa de alcançar uma saída. Mas o infinito crescia de tal forma que não se tornava possível vislumbrar tamanha lonjura. Depois, eu limitava-me a continuar em diante, fugindo ao destino que me marcava.
Noites havia, a horas imprevistas, em que me batiam à porta, mas, quando a abria, dava de caras com a escuridão absoluta, o vazio inteiro do outro lado do mundo nas minhas escadas.
Voltava para a cama, a tremer, hesitante, com o cérebro mergulhado em dúvidas, e punha-me a acompanhar os sons de carros derrapando na rua, zaragatas, ameaças, tiros. Por entre divagações e tropelias mentais, não perdia migalha do que sucedia naquele vago estrangeiro que passara a escrever as palavras do meu nome.

domingo, 9 de maio de 2010

Sangue sem regresso

Eu seguia pela rua de mão dada com MLE, que me explicou com palavras brandas o que me aconteceria, enquanto ia olhando em frente e sorrindo de nervos como se tivesse entrevisto alguém que conhecia.
Sentia varas tremendo em mim só de pensar no que me esperava. Os pés quase se me recusavam a andar, os tornozelos estavam perros, os joelhos carbonizados. Tinha tanta dificuldade em imaginar-me a fazer o que MLE pretendia que diante de mim só via nuvens negras, horizontes de chumbo, pedaços de carne deteriorada.
Custava-me a crer que MLE pudesse encarar com normalidade o acto a que eu teria de me submeter, que não tivesse uma hesitação, que não me pedisse parecer, que não me preparasse psicologicamente.
MLE tinha o hábito de dispensar grande cuidado ao que se passava comigo, muitas vezes, até, de forma excessiva, mas daquela feita agiu como se nada lhe dissesse respeito, como se não houvesse ligação entre nós. Confundia-me o modo determinado como avançava para o consultório onde a medicina me submeteria aos seus imprevisíveis critérios e acerca dos quais pouca ou nenhuma informação me fora previamente facultada.
“Tenho de arranjar maneira de dizer que não quero fazer isto”, pensava eu, embora não antevendo em que termos o comunicaria a MLE. As palavras pareciam não ter forças para me chegar à garganta. Eu compreendia que a minha vida não estava em risco, mas tinha dificuldade em aceitar a dor que me atingiria.
A minha magreza e aspecto pálido tinham convencido MLE a pedir parecer técnico sobre o meu estado de saúde. A conclusão foi que me submeteriam a análises de sangue e era disso que eu tinha medo. Para mim, tratava-se de agulha enfiada no braço ou na nádega e só de imaginar tal cenário eu quase desmaiava. O pior era que MLE não dava sinais de compreender o efeito nefasto que isso tinha sobre mim.
Eu nunca havia feito análises de sangue e calculava que o vermelho da dor seria insuportável. Sangue era o pior que me podiam fazer. Esguichos por todo o meu corpo.
Por fim, não aguentei mais: enchi-me de coragem, voltei-me para MLE e perguntei-lhe se para fazer aquelas análises tinha de apanhar uma injecção. As palavras saíram-me encolhidas, apagadas, quase inaudíveis. Nem cheguei a pronunciar “braço” ou “nádega” e deixei-me ficar à espera de resposta, enquanto fitava os seus olhos de chama verde cortando a claridade rara do dia.
A reacção de MLE feriu-me mais do que a postura que tivera até então. Respondeu à minha pergunta com uma gargalhada estridente que antes nunca lhe ouvira, uma gargalhada com despropósito, o que significava que não fazia ideia do terror que eu carregava. Se tivesse uma noção do susto que me afligia, MLE teria reflectido, feito uma pausa, baixado o seu rosto até junto do meu, ter-me-ia apertado contra o seu peito, enchido de beijos e dito – “voltemos para casa, mudei de ideias, não quero que faças nenhumas análises de sangue…”.
Mas não. MLE falou-me daquela forma metálica, que me deixou sem compreender e, depois, rindo sempre, deteve-se e explicou que para me fazerem as análises se limitariam a perfurar-me um dos dedos indicadores. Mais nada.
Não poderia ter feito pior: entrei em pânico ao ouvir que me iam fazer um furo no dedo e imaginei logo que seria um furo de dimensão e consequências incalculáveis. A minha cabeça pôs-se a rodopiar fazendo-me perder a noção do sítio onde estava.
MLE ainda se abeirou de mim confessando atabalhoadamente que o furo que me fariam seria insignificante, “muito pequenino…”, mas eu li nos seus olhos que a sua intenção visava apenas evitar que eu me alarmasse.
Não me restavam dúvidas de que seria um furo gigantesco, desproporcionado, gritante. Uma cratera de sangue na qual eu me esvairia. Sem regresso.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Está iniciado o meu país

Eu vivia num local e de repente dei-me conta de que estava a residir noutro, sem ter tido o trabalho de mudar nada, nem um móvel ou uma chinela. E sem ao menos ter saído do sítio onde morava. Apercebi-me de que passara a estar numa cidade estrangeira, ao lado de LMP, e que, ao mesmo tempo, não me afastara um milímetro de EMR, apesar de, entre um lugar e outro, distarem milhares de quilómetros. Foi a maior velocidade a que alguma vez fui capaz de me deslocar. Nunca me imaginara ao alcance de semelhante feito.
É claro que se me encontro ao lado de LMP não posso tocar em EMR e se estou com EMR não posso tocar em LMP ou sentir-lhe o cheiro. Mas nunca deixo de estar ora num lado ora no outro, como se se tratasse rigorosamente do mesmo espaço.
Consigo misturar as duas partes num único conceito, qual projecto de arquitectura. Exactamente na linha divisória entre EMR e LMP, há uma pequena janela que adquire uma dimensão de quilómetros, esplendor de distância que passei a amar.
Amar tornou-se uma questão de movimento, que não olha a tempos nem espaços e que se afirma nas imprevistas deambulações do meu dia.
À noite, reconheço que as linhas arquitectónicas têm menor visibilidade (captar os contornos do movimento tem uma exigência específica, requer uma concentração subtil, é um desafio, uma exigência).
Quando digo que estou em dois lados num só refiro-me apenas ao sítio que partilho com LMP e EMR. Falo em dois lados porque LMP é um e EMR é outro. Mas na verdade só existe a face do movimento contínuo na janela que separa a ilha de S. Miguel da cidade de Toulouse.
Parar em Lisboa leva-me a recear o afundamento dos brilhos e o fim do fado na voz do outro lado da pedra. Lisboa é um tempo confuso atolado numa refracção. Ou serei eu que viajo demais? O Tejo virou chuva escorregadia e lamacenta. A sua luz desprendeu-se para lá da foz, com mãos a acenar na fuga para leste, onde os murmúrios se levantam na hora do fogo, que inventei para me libertar e que em Lisboa não volta a acontecer.
Recorro a todos os ardis para criar um país que seja meu. Um país extenso, ainda que em linha recta, mas que me permita superar anos e lugares, até me unir num só movimento que abarca a soma do que me diz respeito.
Vejo os que, sem noção do ridículo, se empenham em descrever o mundo que se lhes apresenta. Uma espécie de roteiro acéfalo e insensível. São incapazes de naufragar no deslizamento de um rio ou de uma encosta mais esconsa.
Não consigo escrever o que vejo. Perco a noção dos nomes, esqueço as palavras e os seus significados. Só sei contar o país que construí para a minha escrita. É um consolo que não posso dispensar.
De um lado LMP, do outro EMR, dois pontos numa recta de milhares de quilómetros, em que não há necessidade de hino, nem de bandeira. Basta-me este país do tamanho de uma casa que não termina, projecto de construção radical como num repositório de passagem entre duas nuvens.
Todas as manhãs, acordo num sítio diferente daquele em que adormeço. Dou um salto na cama e ponho-me a pensar no que terá sucedido. Estou só no quarto de dormir e a meu lado vejo imagens desfilando ininterruptamente.
“Já percebi”, digo com a preocupação de não me ouvirem, com receio de ter enlouquecido. “Vou resolver o assunto de uma vez por todas. Por favor, dêem-me esta oportunidade”.
Levanto-me da cama e dirijo-me ao computador. Primo o botão de iniciar, espero que o processo de abertura termine e abro a janela que anuncia os céus que vão do Atlântico a Toulouse. Está iniciado o movimento do meu país.

sábado, 3 de abril de 2010

Alfabeto em altitude

Quando viajo de avião, tenho sempre ideias curiosas. Talvez se deva à altitude, à menor pressão atmosférica. Não sei bem. Mas acontece. Agora, por exemplo, enquanto atravessamos umas nuvens ralas, lembro-me de que posso escrever um texto com o fim de registar as tais ideias que me costumam assaltar quando me encontro a mais de dez mil metros de altura. É o que faço. Não seria capaz de escrever sobre uma viagem aérea a não ser lá em cima. Por mais que me esforçasse, não conseguiria ficcioná-la.
Foi assim que a memória se me agudizou e peguei no computador para materializar a nota que rabiscara há mais de um mês. Tinha-a guardado comigo a fim de produzir posteriormente um texto numa qualquer viagem de avião e o certo é que me lembrei dela aqui rente ao céu, apesar de não se tratar de uma questão importante.
De súbito, dá-me a sensação de ter recuado uns anos e de as mãos se me terem tornado subitamente menos ágeis, como se os dedos desconhecessem a localização das teclas. Ou como se o avião, de súbito, tivesse caído numa tempestade e desatado a andar para trás, ao ponto de me fazer renascer.
Quando era adolescente, as viagens de avião excitavam-me, quase me inebriavam. A partida acontecia sob uma efusão de sentimentos e à chegada eu não conseguia deixar de me levar por uma ebulição de visões misturadas com apetites pelo mundo novo em que aterrara.
Antes de uma viagem aérea, jamais considerava a possibilidade de morrer num eventual acidente. Mas cheguei a imaginar a queda do aparelho. Só que o desastre acontecia sempre no mar e todos os passageiro tinham a arte de se salvar. Nesse tempo, o perigo fazia parte de cada minuto que eu atravessava. O meu corpo era capaz de resistir a múltiplas ameaças, por mais imprevistas que fossem. As viagens de avião limitavam-se a anunciar, no fundo, a mobilidade que caracteriza a minha vida actual. Embora, hoje, quando espero numa sala de embarque tenha consciência de que corro riscos e me prepare com seriedade para o que possa acontecer. Concentro-me, envio mensagens às pessoas próximas, estudo cenários, elaboro possibilidades...
Não sei explicar bem a importância dos aviões na minha vida, mas a verdade é que dependo deles quase por completo. Escrever nas nuvens é de uma notável leveza. As palavras agitam-se na ponta dos dedos, saem com menos reflexão, mais agilidade e ousadia, como se arriscassem tudo no salto do cérebro.
A dois metros de mim, ligeiramente à frente, vejo alguém registando números num computador. Não percebo como pode prescindir das palavras. Ou será que os números lhe brotam da mente como palavras?
De súbito tento fazer um rápido balanço, a ver se me falta registar algum detalhe. Creio que não. Ou talvez sim. Mas também é possível que as ideias a que no início deste texto fiz referência se resumam a um tipo de anotações em corrida junto às paredes do céu. Ideias ligeiras, ao fim e ao cabo.
Ponho tudo em questão. A família, o amor, os projectos, o passado, a própria escrita em que me transformo neste momento. Não me resta alternativa. As palavras, quando lavradas em altitude, ganham outro alfabeto, mudam de personalidade, adquirem significados diferentes, submetem-se a estranhos códigos.
O avião desata a trepidar e as teclas voltam a falhar-me sob os dedos, como se houvesse uma relação íntima entre a estabilidade do voo e as palavras que escrevo, que procuro escrever. É a primeira vez que experimento esta insegurança física da escrita de uma forma tão evidente. Como se de um instante para o outro o chão faltasse às palavras, como se estas deixassem de ter existência própria, como se perdessem a capacidade de existir por si.

domingo, 21 de março de 2010

A cabeça no seio

Era vasta e vazia como uma planície de areia. Não se percebia se tinha gente ou arbustos. Casas inteiras ladeavam as ruas e ao longe ouvia-se uma sirene correndo a alta velocidade. Era difícil adivinhar quem seguia dentro dos carros. Rostos imprecisos e esquivos que não olhavam para direcção alguma. Apitos vagos, vozes distantes, sons confusos.
A meu lado, reparei num vulto que me acompanhava. Dava-me a sensação de o conhecer de algum lado. Observei pelo canto do olho a ver se percebia a sua intenção, mas não tive sorte. Evitei dar nas vistas. Notei-lhe a respiração lenta e pesada, como se tivesse origem no peito de uma máquina em desaceleração.
Quando estuguei o passo, apercebi-me de que teve o cuidado de me imitar, esforçando-se, contudo, para não dar nas vistas.
Pensei desaparecer através da primeira porta aberta que encontrasse, mas rapidamente depreendi que não valeria a pena porque me arriscava a cair numa ratoeira, entregando-me nas mãos de quem tão descaradamente me perseguia.
À medida que avançávamos, verifiquei que o vulto – era mesmo vulto, não se trata de não o querer identificar – se aproximava cada vez mais de mim, ao ponto de em certos momentos o seu ombro praticamente se colar ao meu. Penso que era vulto para se disfarçar, para se encobrir, para se proteger. Tinha aspecto disso.
No céu, passou um avião em chamas. Pus-me aos saltos, na tentativa de alertar quem passava, mas não houve alma que me desse atenção, que se interessasse pela tragédia, que ao menos levantasse os olhos para ver o que sucedia nas nuvens.
No meio da confusão, perdi-me e desatei a correr para a estação de comboios, em cujo átrio principal vi dezenas de corpos estendidos no chão como farrapos. Pareciam cadáveres, mas eram corpos tão vivos como melancias num campo de Verão.
Tinha pressa de voltar para casa. Há três semanas que andava pelo oeste americano. O carro dera as últimas e a partir de então eu tinha continuado de comboio em direcção ao mar. Não conhecia ninguém para os lados do Pacífico, mas alimentava a esperança de encontrar uma ou outra lembrança de juventude. Bastava seguir o instinto, deixar-me ir na inclinação das chuvas que desciam das montanhas para a costa.
As bilheteiras da estação encontravam-se encerradas e as máquinas de venda estavam avariadas. Não havia movimento de comboios. Sentei-me no chão e meti na boca uma sandes dura que guardava na mochila há mais de dois dias.
A meu lado, uma mão estendeu-me um cigarro. Agradeci e recusei. A mão tremia e virou-se ao contrário, alongando-se. Continuei a agradecer e afastei-me com receio de uma cilada.
– Não há comboios – ouvi dizer, como se aquela fosse a centésima vez que o anunciavam.
Fui para o apeadeiro à espera de que a sorte me bafejasse. As carruagens paradas tinham as portas abertas e dentro delas amontoavam-se corpos de todos os tamanhos e idades, acomodando-se aos cantos, às circunstâncias.
Uma criança levantou-se, insistindo que precisava de ir à casa de banho. Tropeçou, cambaleou, apanhou uma bofetada, esgueirou-se e desapareceu no corredor.
Foi nessa altura que entrei e fui ocupar a nesga que acabara de vagar. Penso que adormeci, mas não tenho a certeza. Vi coisas, embora não saiba a que domínio pertenciam. A certa altura, a criança regressou e pôs-se a chorar porque já não tinha ideia para onde devia voltar. Fiz-lhe sinal para se vir sentar no meu colo. Era bom sentir o seu calor junto ao meu peito, onde anichou os olhos. Ignoro se aconteceu em sonhos ou na realidade. A criança apareceu vinda de algum lado.

sábado, 13 de março de 2010

Entreguei-me

Deve ter sido nos últimos dias de Setembro, já quase Outubro. O dia estava de certeza cinzento, frio, enevoado, e a casa deixara-se polvilhar por um silêncio que cortava a alma.
MJS andava de um lado para o outro a ver se não faltava nada na minha bagagem e JTB tinha desaparecido no andar de baixo por entre granéis e arrumações que não vinham a propósito.
Toda a gente sentia vontade de chorar, mas ninguém o mostrava. MML e LFS estavam no seu quarto procurando distrair-se com alguma coisa sem importância, só para não encararem a proximidade da minha partida. Ainda recordo o odor do susto nos seus corpos amolecidos.
Eu não sabia para onde me virar, nem tinha ideia sobre o que fazer com as mãos. Os nervos miudinhos haviam tomado conta de mim e eu sentia um nó a apertar-me a garganta como se não me restassem hipóteses.
Era a primeira vez que eu saía de casa para residir em outro lado. Estaria, durante anos, longe da família, das refeições caseiras, do calor dos quartos à noite, do amor que as paredes da casa derramavam.
O momento de maior tensão naquele dia de partida foi quando o táxi chegou e foi necessário carregar as malas. Parecia que me estavam a levar aos bocados.
Apareceu gente debruçada às janelas e eu apressei-me a encontrar um lugar dentro do veículo, antes que a minha alma se pusesse a sangrar pelas pernas abaixo. Não conseguia olhar as pessoas que me haviam acompanhado desde que nascera. Sabia que era a última vez que as via com aquelas expressões, aquela exacta inclinação sobre os parapeitos, aqueles esgares vagos de preocupação indiferente. Sentia vergonha de as abandonar, como se estivesse a traí-las. Quando um dia regressasse, já praticamente não me dariam atenção, já quase me ignorariam.
O táxi arrancou e MJS obrigou-me a acenar. “Mostra a tua educação”, dizia, nervosamente, enquanto se ajeitava no assento com os olhos atravessados de dúvidas.
Ao longo de toda a viagem, mal se ouviu uma sílaba. A não ser o murmúrio das últimas recomendações de MJS – “não te esqueças de rezar todos os dias antes de adormeceres” – e puxava o lenço que lhe servia para enxugar os olhos verdes de água.
Ao fim de cerca de uma hora de caminho, o carro fez uma curva e imobilizou-se. Tínhamos chegado ao destino. As malas foram descarregadas, a porta do colégio abriu-se para me dar passagem e MJS encostou-me a uma parede com o fim de me fotografar.
Obedeci, durante uns segundos, como quem espera um fuzilamento. Todos os olhos estavam depositados em mim, parecendo querer aproveitar aquele derradeiro instante para avaliar a resistência da minha vocação. Depois, ouvi o disparo seco e rápido provocado pela pressão do dedo de MJS sobre o botão da câmara fotográfica.
Senti-me no ar. Em suspensão perfeita. E quando os meus pés voltaram a tocar em terra, reparei que tinha chegado o momento das despedidas, dos abraços apertados, dos beijos quentes, das lágrimas abafadas no pescoço.
Senti um frio na cabeça a escaldar, ouvi vozes que me diziam para recuar, desistir, voltar para casa no mesmo táxi que me trouxera. Mas não fui capaz. Não consegui raciocinar. Muito menos reagir.
Pus-me a andar, sem saber como, numa espécie de névoa que me levava aos tombos. Procurei não dar nota de fraqueza, até atingir a porta envidraçada na qual se encontrava a pessoa responsável por me receber. Senti que uma outra vida começava ali. Detive-me. Baixei os olhos. Entreguei-me.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A multiplicação do corpo

Mal deu para perceber onde tínhamos chegado. Passou um rasgão vermelho diante de nós e ficámos sem ver, sem pensar. Estendi uma mão, mas não me recordo se toquei em alguém. Era-me difícil compreender o que estava a suceder. Dava a nítida sensação de termos caído em qualquer lado, mas isso não constava das possibilidades que nos haviam colocado.
Logo que abri os olhos, verifiquei que havia um corpo a todo o comprido, imóvel, no chão, o que me causou uma preocupação mais forte do que seria de esperar. Antes de partirmos, havíamos recebido treino para enfrentar todo o tipo de situações, favoráveis, ou não, por isso, não me agradava sentir que eu começava a fracassar numa fase crucial da viagem.
De qualquer maneira, não me era possível retroceder. A única hipótese era manter-me onde estava e resistir de todas as formas aos imprevistos.
– Preparem-se para sair – ouvi alguém dizer, no meio da barafunda geral.
– Não consigo mexer-me – protestou uma voz sumida a poucos metros de mim.
Arrastei-me como pude pelo corredor, enquanto procurava perceber a que destino tínhamos chegado. Fiz algumas perguntas, mas ninguém me deu atenção. Pelos vistos, a nossa rota mudara e competia-nos, agora, lidar com uma nova realidade.
Procurei atingir a porta, a ver se era possível chegar a alguma conclusão. Mas, como eu, outras pessoas haviam tido a mesma ideia, o que provocou algazarra e empurrões.
Senti o chão estremecer e, por instinto, deixei-me cair.
Dei prontamente de caras com uma aberta por entre um monte de pernas agitadas e esgueirei-me, antes que alguém tivesse a ideia de se me antecipar.
Rebolei pelas escadas e estatelei-me num chão de pontas aguçadas, moles, movediças, que me faziam deslizar, sem qualquer esforço da minha parte, a uma velocidade apreciável. O meu peso devia ter descido bastante para que umas simples pontas esguias conseguissem fazer-me deslocar com uma rapidez que, na minha estimativa, não andaria longe dos 30 km/hora.
Durante o percurso, senti náuseas, que me pareceram aceitáveis, tendo em conta a forma como faziam transportar o meu corpo. Confortou-me saber que, por mais que demorasse aquela experiência, havia de chegar o momento em que tudo se esclareceria. Podia ser um equívoco da minha parte, uma falsa esperança, mas era o que me animava.
Dei por mim, a certa altura, em posição vertical, de frente para uma espécie de espelho que me reflectia por vezes infinitas. Senti um forte abalo interior, ao verificar que continuava sem informação acerca do que estava a acontecer, mas decidi manter a expectativa. Se não reagisse, se me isentasse de tomar iniciativas, tinha mais hipóteses de os acontecimentos me favorecerem. Por mais que olhasse, só distinguia multiplicações do meu corpo nas mais diversas direcções, posições, cores.
Enquanto me entretinha a admirar tantas facetas de mim, fui percebendo que estava a subir no ar, em linha vertical, sem qualquer suporte sob os pés. Olhei para baixo e calculei que estaria a mais de vinte metros de altura. Não tive sombra de medo. Se me haviam elevado de maneira tão subtil, certamente que me impediriam de cair de forma abrupta.
Quando a ascensão terminou, aguardei que me dissessem alguma coisa. Mas ao fim de uma quase eternidade, concluí que a minha espera era vã. O meu corpo continuava a multiplicar-se sem limites, enquanto, ao longe, por detrás de atmosferas e nuvens, enchendo o espaço todo, um coro de vozes longínquas ocupava o tempo desde o início das suas formas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

E levou-me

Durante a viagem, eu só pensava em outra coisa e DEP sabia-o bem. A minha cabeça não parava. Há anos que era assim. DEP irritava-se, sem o dar a entender. O seu corpo franzino e tenso suportava o meu alheamento, mas logo que tinha oportunidade respondia à altura, respondia calando-se.
Pelas duas da manhã, saímos de um bar, que também era restaurante, e viemos de carro pela estrada húmida, sob movimentos de árvores que o vento agitava. Seguíamos para casa, mas, a qualquer momento, eu sabia que DEP podia mudar de humor e virar noutra direcção. A sua imprevisibilidade obrigava-me a uma permanente atenção. Procurava mostrar calma e segurança, mas só Deus sabia o que me ia na alma. Nem me atrevia a dizer palavra. Por vezes, DEP assobiava ligeiramente, o que aumentava a intensidade do momento a um nível quase insuportável.
Eu tinha a cabeça noutro lado, porque só perseguia uma ideia. Mal podia esperar que chegássemos a casa. Por vezes, DEP punha música a tocar e fixava a estrada como se eu não existisse, como se não estivesse à sua beira a contar pacientemente os minutos.
Enquanto parecia retirar prazeres secretos e indizíveis do comando que tinha sobre o carro, DEP sorria, pontualmente, com leves esgares de boca que me esclareciam sobre o que lhe ia na mente. Pensávamos o mesmo, mas era como se pertencêssemos a dois planetas distintos. A mente de DEP e a minha não coincidiam, ainda que partilhassem idêntica obsessão. DEP considerava que eu me deixava dominar pelo desejo e acusava-me de apenas querer o seu corpo, não escondendo o ressentimento pela minha incapacidade de chegar à sua alma.
Era-me difícil perceber onde pretendia chegar, por isso, perdia-me naquela encruzilhada, como se o carro hesitasse no caminho a seguir. Nunca me tinha acontecido encontrar a alma de alguém. Pelo menos, encontrá-la de forma plausível, sensível. Por isso, durante anos pensei que tal não existia e sempre vivi com a certeza de que DEP gostava de se mortificar.
A certa altura, quando já não me restava qualquer esperança quanto ao que aconteceria naquela noite, logo que terminasse aquela viagem, ouvi DEP dizer:
- É a última vez que te sentas neste carro!
Senti-me estremecer de forma desmedida e não soube que replicar. Receei que o pior estivesse para suceder. Não percebi se DEP me expulsaria do carro ou se apenas pretendia não voltar a ver-me a seu lado. Não demorou muito até que se fizesse luz sobre o que tinha em mente e me ordenasse:
- Sai!
Reagi como se a conversa não fosse comigo e, ao fim de uns segundos de pânico íntimo, ousei proferir:
- Estamos quase em casa…
- Não comeces! - foi a sua resposta implacável, num tom que eu sabia não deixar espaço a qualquer argumento.
Enquanto foi dizendo “não comeces”, DEP desacelerou e estacionou o carro na berma de uma estrada vazia, longa, estreita, arborizada, sem qualquer iluminação. Pensei que não se atreveria a abandonar-me num sítio tão inóspito e inseguro, apenas sobrevoado pelas estrelas. Mas foi o que fez. Deixou-me no meio do nada.
Caminhei, a pé, por mais de uma hora, por entre sombras carregadas e perigosas, até chegar a casa. Meti a chave à porta e fui sentar-me na sala de estar, de olhos fixos na televisão desligada. Tinha o cérebro paralisado. A partir do instante em que DEP me expulsara do carro, não conseguia pensar com lógica. Nem me lembrava do caminho que percorrera. Só tinha uma ideia vaga do pó e de um ou outro carro que passara sem se dar conta da minha existência.
Quando ainda mal tinha aquecido o sofá em que me sentara, DEP veio sentar-se mansamente a meu lado, em silêncio completo, sem sinais de culpa nem de remorso. De forma quase imperceptível, deixou deslizar a sua mão na direcção da minha, agarrou-a, apertou-a, puxou-a e levou-me.