quarta-feira, 9 de abril de 2008

Atracção

Eu olhava para o quadro sem poder resistir ao seu poder de atracção. Aconteceu desde que entrei na sala de exposições. Havia nele qualquer coisa que se apoderava do meu ser e que me alterava os sentidos. Não era um quadro famoso ou algo que se parecesse. Para dizer a verdade, nem recordo o nome do seu autor, muito menos de que quadro se tratava. Só sei que era um quadro e isso bastava-me. Foi numa galeria em Madrid. Eu tinha entrado para perguntar qualquer coisa na recepção e de súbito dei por mim de olhos colados na tela que mostrava um rosto distorcido a estrebuchar de dor.
A minha primeira reacção foi sair imediatamente e não voltar a pensar no que vira. Pus a hipótese de o quadro ter sido pintado com intenções subliminares de cativar eventuais compradores e eu não podia correr o risco de fazer uma loucura porque tinha o dinheiro contado até ao dia de chegar a casa. Não me restava um tusto para despesas extraordinárias.
Como não se encontrava ninguém na recepção, acabei por ficar à espera de ser atendido e, ao mesmo tempo, dediquei-me a analisar melhor o rosto deformado para o qual eu não conseguia deixar de olhar por um momento.
Fui andando pela galeria para observar a obra de outros ângulos e quando dei por mim já estava numa sala diferente, embora o quadro continuasse na minha frente, como se eu tivesse passado de uma divisão para outra sem sair do mesmo sítio. Calculei que o erro de percepção tivesse sido meu, preferindo deixar de lado conjecturas.
Esperei que aparecesse alguém na galeria, que se ouvisse um ranger de soalho… uma porta mal fechada. Em vão. Ao fim de um tempo, fui-me habituando à sala e deixei-me ficar por ali na companhia do quadro.
Na convicção de que a galeria estava abandonada, decidi assumir funções de recepcionista, o que ao menos justificaria a minha presença, caso alguém aparecesse e me fizesse alguma pergunta.
Quando chegou a hora de fechar, não hesitei: apaguei as luzes e saí sem dar nas vistas. Pouco depois, dei por mim dentro de um táxi, com o quadro do rosto distorcido bem apertado debaixo do braço.
Fiquei sem saber o que pensar da minha atitude. Incapaz de organizar ideias. Sob um atordoamento completo.
Ao fim de dez minutos, pedi para descer e pus-me a vaguear pelas ruas sem destino. Entrei num supermercado que se preparava para fechar, escolhi duas laranjas, paguei-as, esgueirei-me para a rua e enfiei o quadro dentro do saco de compras.

terça-feira, 25 de março de 2008

Um lado e o outro

De um lado, havia o brilho, o fulgor, o movimento, a excitação. Do outro, tudo era cinzento, triste, morto, apagado, como se ali tivessem sido enterradas milhões de almas. Mas entre os dois lados nada os separava. Nenhum muro, nem palanque, nem rio, nem mar. Talvez apenas uma sombra, não sei bem, uma ideia, um anjo fugaz. O certo é que havia uma diferença demoníaca entre um lado e o outro.
O lado do movimento era o lado do dia, o lado cinzento era o lado da noite. Como o Sol e a Lua quando dividem entre si a rotação da Terra.
Os transeuntes seguiam indiferentes em direcção aos seus destinos, mas quando se aproximavam do limite de um dos lados, afastavam-se, respeitando a divisão imaginária entre a luz e a sombra.
Também as formas de vestir eram diferentes de um lado e do outro. No lado do brilho as roupas eram coloridas e cheias de ar, no lado da tristeza eram escuras e mirradas.
No lado da morte, havia um canto no ar, um canto distante e débil que penetrava nos corações e os partia em bocados; no lado das tropelias e das correrias para os empregos, para as compras, para os namoros, para as visitas aos museus, havia um coaxar de vidro que a todo o instante estalava.
Eu acabara de chegar e só percebia o que via, o que acontecia ante os meus olhos como um véu de chuva. Não havia maneira de descortinar alguma coisa, algum sentido, algum significado por detrás do que deslizava à minha frente, em meu redor.
De súbito, tocaram-me no ombro. Antes de olhar, estremeci. Tinha razão para o meu alerta. Um polícia fazia-me sinais, procurando dar a entender qualquer coisa.
Pus-me a procurar nos bolsos, com embaraço, os meus documentos, mas verifiquei que não os tinha comigo.
O guarda olhou-me com cara de poucos amigos, disse uma série de palavras que não entendi e afastou-se de seguida.
“Devo ter pisado a linha que divide os dois lados”, pensei.