Tinha os cabelos sobre o rosto, cabelos oleosos, desprendidos, escorrendo sobre as sombras da face, onde se viam rugas misturadas com manchas vermelhas de origem difícil de adivinhar. As orelhas roxas de frio e solidão, o pescoço torcido em relação aos ombros. Vestia um casaco andrajoso, amarrotado, roto, desbotado. Unhas por fazer, dedos esqueléticos prolongados sobre o chão. De corpo magro, parecia esperar por alguma coisa que nunca chegaria. Talvez uma última esperança sem lógica nem explicação. Nos pés, uns sapatos rebentados pelas longas caminhadas avessas ao destino, pés nus, tornozelos à mostra. Dava a ideia de se ter esquecido de si. Cintura estreita, ancas espalmadas, costas indecifráveis. Por entre os lábios, via-se a saliva seca, misturada com pequenos cascalhos que abundavam em redor.
Faltavam pouco mais de dez minutos para o jardim fechar ao público e não se via ninguém por perto. A tarde caía de pássaros desaparecidos nos últimos raios de Verão. A minha sombra alongava-se sobre o corpo caído numa ameaça de algo que jamais se concretizaria.
Na mão esquerda, uma carteira, com uma nota ligeiramente saída. Uma nota de vinte esgueirada na frincha do momento que a vertigem trouxera.
A dado passo, notei nos seus olhos um brilho maior, um fulgor surpreendente e inesperado, como se de repente tivesse havido um incêndio na sua alma, um rubor de chama, um vago lampejo.
Aproximei-me e ouvi respirar. Era uma respiração nítida e compassada como a de uma melodia que se recorda para sempre. Sentei-me, à espera de ver o que acontecia. Talvez eu pudesse ser útil. Nem que fosse para simplesmente testemunhar um instante revelador.
As pessoas passavam e olhavam-me, como se eu não pertencesse àquele momento e àquele espaço, como se fosse minha obrigação estar longe dali, noutra circunstância. Eu não tinha casualidade. Nem causalidade. O vento secava nas arestas do dia e eu percebi que a qualquer instante alguém me podia agarrar e fazer de mim o que quisesse.
sábado, 7 de junho de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Cada rumor era um aviso
Não havia amor na sua vida. Não havia luz nem brilho. Só ligeiros movimentos de dedos quando se entretinha a estudar mentalmente as ocorrências que lhe tramavam os dias. Ligeiros murmúrios, breves estalidos de boca que o seu ar carregado não iludia.
Se eu dizia alguma coisa para tentar insuflar a sua alma de algum fulgor, se eu inventava, se gracejava, se conversava, obtinha como resposta: – Não me infernizes a vida!
O meu primeiro impulso ao ouvir as suas palavras, gélidas e cortantes, era recuar, por instinto, inibir-me, recolher-me ao reduto da noite onde sentia maior segurança.
Enrolava-me sobre a cama à espera de ter a sua companhia, a sua respiração, quase inaudível, de tão distante, tão morta, como uma brisa negra no escuro.
Ao fim de horas, eu acordava e não detectava sinais do seu regresso. Sobressaltava-me, olhava o negrume em redor, tacteava o colchão à procura dos seus odores. Não havia diferença entre a sua ausência e a noite oca que me envolvia.
O rumor dos grilos silenciosos inundava o tempo que se arrastava. Eu prometia que a situação não se repetiria. Era a última vez que eu ficava só por tantas horas. Apetecia-me gritar, gritar até assustar as paredes, mas receava que me dessem por doente e me levassem para algum lado.
Sob o efeito da frustração de não saber o que fazer, levantava-me da cama, caminhava aos tombos, tentando organizar as ideias febris. Tinha dormido mal e não vislumbrava saída para a minha dor. Pensava em contactar alguém na esperança de detectar algum fio de luz, mas fazia contas mentais e desistia, acabava sempre por achar que a explicação havia de chegar. Eu resistiria, desse por onde desse, por tanto tempo quanto me fosse possível.
Os seus olhos flamejavam na minha memória. Que fazia eu, afinal, no horizonte da sua visão? Que significado me era atribuído? Quantos anos duraria? Cada rumor que me chegava era uma ameaça, um aviso, um sinal de algo que eu não previa, não adivinhava.
Se eu dizia alguma coisa para tentar insuflar a sua alma de algum fulgor, se eu inventava, se gracejava, se conversava, obtinha como resposta: – Não me infernizes a vida!
O meu primeiro impulso ao ouvir as suas palavras, gélidas e cortantes, era recuar, por instinto, inibir-me, recolher-me ao reduto da noite onde sentia maior segurança.
Enrolava-me sobre a cama à espera de ter a sua companhia, a sua respiração, quase inaudível, de tão distante, tão morta, como uma brisa negra no escuro.
Ao fim de horas, eu acordava e não detectava sinais do seu regresso. Sobressaltava-me, olhava o negrume em redor, tacteava o colchão à procura dos seus odores. Não havia diferença entre a sua ausência e a noite oca que me envolvia.
O rumor dos grilos silenciosos inundava o tempo que se arrastava. Eu prometia que a situação não se repetiria. Era a última vez que eu ficava só por tantas horas. Apetecia-me gritar, gritar até assustar as paredes, mas receava que me dessem por doente e me levassem para algum lado.
Sob o efeito da frustração de não saber o que fazer, levantava-me da cama, caminhava aos tombos, tentando organizar as ideias febris. Tinha dormido mal e não vislumbrava saída para a minha dor. Pensava em contactar alguém na esperança de detectar algum fio de luz, mas fazia contas mentais e desistia, acabava sempre por achar que a explicação havia de chegar. Eu resistiria, desse por onde desse, por tanto tempo quanto me fosse possível.
Os seus olhos flamejavam na minha memória. Que fazia eu, afinal, no horizonte da sua visão? Que significado me era atribuído? Quantos anos duraria? Cada rumor que me chegava era uma ameaça, um aviso, um sinal de algo que eu não previa, não adivinhava.