quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Imoderação

Eu sentia a chama da boca imparável sobre o meu lado esquerdo, a pele colada à minha pele, o rosto comprimido contra o meu pescoço, as pestanas humedecidas rente aos meus poros eriçados. SMG respirava, de forma cadenciada, excitando-me, progressivamente, como se pretendesse conquistar-me de forma irremediável, fazendo-me ceder aos seus apetites. E quanto mais aguda era a minha percepção dos seus intentos, mais eu estava na disposição de me entregar, de me abandonar.
Deviam ser umas sete da tarde, mas eu não tinha a certeza de que assim fosse. Não conseguia recordar-me se estávamos na hora de Inverno ou de Verão.
Olhei pela janela que ficava por trás de SMG e não fui capaz de vislumbrar mais do que as luzes rotineiras do fim do dia. Ouvia-se o ruído dos motores nas ruas com filas compactas de carros, dando a ideia de que nenhum alguma vez conseguiria chegar ao destino. Era como se as pessoas pudessem ficar a viver para sempre dentro dos automóveis.
Enquanto eu ia pensando nestas coisas, SMG ia-me percorrendo com os seus lábios de sal, quase os derretendo nas deambulações pelos contornos da minha agitação.
Eu sabia que SMG fazia planos enquanto me tocava, mas não me apetecia falar de nada, nem perceber o que quer que fosse. O que eu desejava era sentir a totalidade daquele momento e contribuir para que ele se prolongasse o mais possível.
Havia a possibilidade de alguém bater à porta, interrompendo o que fazíamos numa casa perdida no centro de Madrid. Se tal acontecesse, eu teria um sobressalto e agarrar-me-ia a SMG, pedindo que não abríssemos a porta. Tínhamos gente amiga que nos convidava para sair e que por vezes nos visitava sem avisar, mas naquele dia eu não trocava SMG por nada do mundo.
A saliva de SMG estava por todo o meu corpo, como dedos liquefeitos que deslizavam ao ritmo dos seus cabelos anelados sobre as minhas pernas, ventre, costas, ombros, seios.
– Pára! – gemi eu, a certa altura. E insisti: – Por favor, não, não faças mais… vais dar cabo de mim… controla-te… espera… – mas SMG não queria mesmo saber do que eu lhe dizia. Pelo contrário, quanto mais lhe pedia que moderasse os seus ímpetos, mais se descontrolava, mais vibrava, mais arriscava. Era uma verdadeira máquina avassaladora sem consciência dos limites.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Rostos nas paredes consecutivas

Recebi um recado com beijos e saudades. Era de D.N.Serra. Disse que apareceria qualquer dia, mas não concretizou a promessa. Apeteceu-me pensar uma quantidade de coisas. Hesitei, vagueando pelas janelas de olhar fixo na luz que me entrava pelos olhos. Não me apetecia retirar conclusões. D.N.Serra nunca me falhara. Sempre se dispusera a estar perto de mim, a compreender, a ouvir, a comentar. A sua sinceridade era uma marca na minha existência. Recordava-me de certa vez termos ido passear no parque Eduardo VII, em Lisboa, sob as árvores frondosas que ondulavam ao ritmo das horas, com os raios de sol atarantados por entre as mãos que apertávamos. Tudo era leve e deslizante. Eu andava com uma tranquilidade que nunca antes sentira e os tempos que se avizinhavam prometiam uma esperança há muito perdida.
Acontecera de repente. Não sei explicar como. Um encontro casual num café despertara a curiosidade mútua. Dali fomos para sua casa, depois para a minha, e andámos desta maneira durante uns dias entre detalhes que considerávamos importantes.
Acabei por tomar avião para os Açores, mas garanti a D.N.Serra que regressaria dentro de pouco tempo. E assim fiz. Ao fim de uma semana nas ilhas, já não suportava o cinzento do mar nos ouvidos.
Comprei passagem aérea de regresso a Lisboa e, logo após ter aterrado, não tive dúvidas de que cairia nos braços de D.N.Serra. Quase não dormimos naquela noite.
Pela madrugada, sem que nada de relevante tivesse ocorrido, demo-nos conta de que faltava qualquer coisa no nosso relacionamento, faltava qualquer coisa em nós, não sei se em mim, se em D.N.Serra. Faltava qualquer chama, qualquer rasgo ou momento que estava para além das nossas faculdades. Era como se esperássemos uma palavra que nenhuma das partes se atrevia a pronunciar. Uma palavra seca, mínima, desconcertante, plena de risco, quase proibida, que equivalia a um silêncio inexplicável.
Após alguns minutos de reflexão, decidi reagir: dei uma desculpa, vesti-me atabalhoadamente, saí e fui falar com G.Mendonça, que até parecia estar à minha espera, tal o sorriso com que me recebeu. Não estive com meias medidas e contei-lhe sobre D.N.Serra, dizendo-lhe que se tratava de alguém fundamental na minha forma de ver, só que o sentimento não crescia, nem transbordava. E faltava a palavra, a tal palavra que insistia em não ser proferida.
G.Mendonça olhava-me e eu notava nos seus olhos um brilho incandescente, que me ofuscava, me confundia, me acendia brilhos na mente entontecida, como em súbitas e intermináveis explosões. Por detrás dos seus olhos, vislumbrei linguagens, pensamentos, águas que me chegavam sem que eu soubesse de onde. Dei por mim incapaz de continuar a discutir o assunto que me fizera bater à sua porta.
Eu só tinha olhos para os olhos de G.Mendonça. E sentia que G.Mendonça também me fulminava. Era um feitiço que nos envolvia e desafiava. Uma espécie de contagem de tempo ao contrário, em aceleração progressiva e incontrolável.
O tempo tinha escurecido para anunciar uma tempestade que estava prestes a rebentar. O negrume matinal viera cheio de presságios, ruídos temerários, arrepios, rumores vibrantes que não levavam direcção.
Pelo canto do olho, espreitei a rua, e vi imagens de azul espremido, balouçando entre rostos desfigurados, que seguiam rente às paredes consecutivas.