Sob a cadeira havia um som arrastado que dava a impressão de me querer dizer alguma coisa. Era um murmúrio que escorria como um fio de água rente ao chão. Sentara-me para descansar, mas não havia maneira de me deixarem em paz. Havia sempre qualquer coisa que circulava à minha volta incendiando as pequenas atmosferas sob as quais eu me protegia. Era um sinal. O sinal de um som que me invadia desde os fundos por baixo da cadeira na qual eu tinha por hábito descansar.
Ao entrar em casa, se não me apetecia fazer nada, deixava-me cair como um saco, com os braços ao longo do corpo, pernas estendidas, músculos inertes, cabeça caída sobre o queixo, sem pensar no que me acontecera naquele dia.
Surgiam-me sempre coisas nas quais eu evitava pensar: as bichas do supermercado onde eu comprava as sandes do dia, a incompreensão da polícia quando me atrevia a furar entre os carros entupidos, os maus olhares dos traficantes que me assolavam como varejeiras nas esquinas, o vendedor de relógios suado e pegajoso, a chuva que me arreliava os planos, os comboios que não chegavam ao destino, as minhas noites sem rumo entre França e Itália.
Eu regressava à pensão, sentava-me e evitava pensar. Mas a cadeira vomitava por baixo da sombra que havia em mim. Vomitava sons, em contínuo, como arrotos teimosos que se prolongavam.
Pus-me à escuta a ver se entendia. Talvez as paredes cinzentas do quarto quisessem fazer-me chegar alguma mensagem. Há dias que eu não tinha notícias de ninguém. É verdade que tinha mudado de paradeiro, mas também era verdade que qualquer pessoa teria facilidade em encontrar-me. Eu dera o meu nome verdadeiro na pensão e um simples telefonema para a polícia seria suficiente para me localizar.
Então, viera aquele som ininterrupto derramado sobre o chão. Foi por causa dele que deixei Florença e regressei a Lyon sem me preocupar com planos de pormenor. Nunca consegui decifrar a origem do som. Era um ruído manso, contínuo, de sílabas mudas, de cor azul acinzentado escorregando, lentamente, sobre as irregularidades do soalho. Fazia lembrar uma melodia sem voz nem instrumentos, só preenchida por rumores inventados na memória do tempo.
– Não tenho forma de sair daqui – murmurei, sabendo que ninguém me poderia salvar.
Olhei para a mochila e senti que o meu tempo terminara. Há dias que não conseguia serenar, por culpa do som que corria teimoso por baixo da cadeira, apesar dos meus esforços para o travar. Se compreendesse o que se passava, eu tinha a certeza de que impediria o seu avanço. Mas não era o caso.
– Pára… – dizia, em voz alta, como se o simples eco das minhas palavras pudesse refrear a marcha do som dentro do quarto onde eu me afogava aos poucos. Mas de cada vez que eu falava parecia que o som engrossava sob a cadeira. Qualquer movimento que eu fizesse era uma ajuda ao inimigo que acometia contra mim. Sempre que eu abria os olhos, via aquela cara de elefante nas horas distorcidas.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
O papel tremia-me nas mãos
À minha frente havia uma quantidade de gente que me olhava à espera que eu dissesse alguma coisa. Rostos gordos, magros, sérios, perplexos, curiosos, indiferentes, agitados.
Eu estava por trás de uma mesa, de perna cruzada, à espera que a solidez da cadeira me ajudasse a superar aquele momento difícil, com as mãos sobre os papéis colocados à minha frente.
A sala estava cheia, mas eu preferia que não houvesse vivalma num raio de quilómetros à minha volta. Cada pessoa que me olhava esperava que eu fosse ao encontro das suas ideias, só que não era esse o objectivo da minha presença ali. Tinham-me convidado para falar porque partiam do princípio de que eu tinha algo original para dizer. De outra forma, não se teriam dado ao incómodo de me contactar, de me pagar deslocação e hotel.
Eu passava os olhos pela maior quantidade possível de olhares, a ver em qual deles me fixaria, a ver se algum me ajudava a clarificar o turbilhão que me ia na mente, a ver se um qualquer imprevisto alterava o rumo dos acontecimentos, mas acabava por voltar ao início em situação ainda mais hesitante para enfrentar a assistência.
Todos os olhares eram diferentes, por isso eu não considerava possível satisfazê-los individualmente. Em cada rosto havia uma expectativa própria, uma interrogação secreta, uma reflexão específica ou difusa, o que não me ajudava a ganhar coragem para dar início à minha apresentação.
Se cada pessoa presente tinha a sua forma de pensar e de encarar as realidades, eu só podia fracassar no que tinha para dizer, porque não havia maneira de transmitir uma ideia particular a cada olhar que me fixava. Tinha de me agarrar a um tema central e procurar transmiti-lo o melhor que sabia, sem me preocupar com as reacções dos que me tinham vindo ouvir.
Era natural que alguns dos presentes concordassem comigo e outros não. Os primeiros sentir-se-iam compensados por terem comparecido, enquanto os segundos se irritariam e, porventura, me confrontariam com questões a que eu não saberia responder, humilhando-me publicamente.
Só de pensar nesta última possibilidade pus a hipótese de abandonar a sala antes de proferir a primeira palavra. Ainda nem tinha dito “boa noite” e já sentia que a situação me ultrapassava por completo. Tive a nítida impressão de que não haveria entre a assistência uma única alma que se identificasse comigo.
Arrependi-me mil vezes por ter dito que “sim” ao convite. Devia ter dado a desculpa de que não me encontrava bem de saúde ou que a minha ocupação profissional não me permitia brecha alguma.
Não o fiz. Agora, era tarde. Qualquer recuo teria consequências nefastas para todos.
Não valia a pena estar com hesitações. O papel tremia-me nas mãos.
Esforcei-me para dissimular o nervosismo. Olhei a assistência, por uma última vez, pensei que fora um erro ter acordado naquele dia, tossi para aclarar a garganta, levei a mão à boca com o fim de humedecer os lábios, ajustei os papéis à luz forte que caía do tecto e inclinei-me na direcção do microfone…
Eu estava por trás de uma mesa, de perna cruzada, à espera que a solidez da cadeira me ajudasse a superar aquele momento difícil, com as mãos sobre os papéis colocados à minha frente.
A sala estava cheia, mas eu preferia que não houvesse vivalma num raio de quilómetros à minha volta. Cada pessoa que me olhava esperava que eu fosse ao encontro das suas ideias, só que não era esse o objectivo da minha presença ali. Tinham-me convidado para falar porque partiam do princípio de que eu tinha algo original para dizer. De outra forma, não se teriam dado ao incómodo de me contactar, de me pagar deslocação e hotel.
Eu passava os olhos pela maior quantidade possível de olhares, a ver em qual deles me fixaria, a ver se algum me ajudava a clarificar o turbilhão que me ia na mente, a ver se um qualquer imprevisto alterava o rumo dos acontecimentos, mas acabava por voltar ao início em situação ainda mais hesitante para enfrentar a assistência.
Todos os olhares eram diferentes, por isso eu não considerava possível satisfazê-los individualmente. Em cada rosto havia uma expectativa própria, uma interrogação secreta, uma reflexão específica ou difusa, o que não me ajudava a ganhar coragem para dar início à minha apresentação.
Se cada pessoa presente tinha a sua forma de pensar e de encarar as realidades, eu só podia fracassar no que tinha para dizer, porque não havia maneira de transmitir uma ideia particular a cada olhar que me fixava. Tinha de me agarrar a um tema central e procurar transmiti-lo o melhor que sabia, sem me preocupar com as reacções dos que me tinham vindo ouvir.
Era natural que alguns dos presentes concordassem comigo e outros não. Os primeiros sentir-se-iam compensados por terem comparecido, enquanto os segundos se irritariam e, porventura, me confrontariam com questões a que eu não saberia responder, humilhando-me publicamente.
Só de pensar nesta última possibilidade pus a hipótese de abandonar a sala antes de proferir a primeira palavra. Ainda nem tinha dito “boa noite” e já sentia que a situação me ultrapassava por completo. Tive a nítida impressão de que não haveria entre a assistência uma única alma que se identificasse comigo.
Arrependi-me mil vezes por ter dito que “sim” ao convite. Devia ter dado a desculpa de que não me encontrava bem de saúde ou que a minha ocupação profissional não me permitia brecha alguma.
Não o fiz. Agora, era tarde. Qualquer recuo teria consequências nefastas para todos.
Não valia a pena estar com hesitações. O papel tremia-me nas mãos.
Esforcei-me para dissimular o nervosismo. Olhei a assistência, por uma última vez, pensei que fora um erro ter acordado naquele dia, tossi para aclarar a garganta, levei a mão à boca com o fim de humedecer os lábios, ajustei os papéis à luz forte que caía do tecto e inclinei-me na direcção do microfone…