sábado, 6 de dezembro de 2008

Rue des Secrets

Eu tinha na mão o papel com a morada escrita, mas não havia maneira de a encontrar. Rue de Sécrets, número 43, não correspondia à casa que eu procurava. A rua nem existia. No sítio que me haviam indicado estava uma outra artéria, de nome Maupassant, cujo número 43 era uma pequena loja de fruta. A pessoa que ma dera pelo telefone podia ter-se enganado. Ou eu podia ter percebido mal o nome da rua. Eu devia ter telefonado com antecedência a confirmar, mas tinha de tal forma a certeza de que não havia erro, que não hesitei em tomar o comboio e seguir caminho.
Pensei em bater a vária portas e perguntar, mas concluí que não tinha o direito de incomodar ninguém.
Também podia ter-se dado o caso de a rua ter mudado de nome, mas não era muito provável. O endereço tinha-me sido dado há três ou quatro semanas.
Decidi não desistir e esclarecer a confusão. Entrei na loja de fruta, onde não quiseram saber da minha pergunta. Quem me atendeu fez-me uma careta e virou-me as costas sem uma palavra. Mesmo assim, ainda me dei ao trabalho de comprar umas laranjas para levar comigo. Quando me dirigi à caixa para pagar, pus a hipótese de esclarecer o nome da rua com a pessoa que registava os preços, mas preferi desistir a ter de enfrentar uma segunda expressão de antipatia.
De regresso à rua, bati na porta do lado da frutaria, a ver se a sorte me bafejava. Ao terceiro toque, a porta cedeu após um breve ruído eléctrico. Subi umas escadas e fui dar de caras com um monte de gordura, uma pessoa avantajada, desproporcional, que me indagou, com uma voz anormalmente possante, que desejava eu.
- Procuro a rua de Secrets – respondi, sob uma ligeira sensação de alarme.
- Não conheço, nunca ouvi falar – foi a resposta que obtive. Mas logo que as suas palavras terminaram, reparei que um outro rosto me observava do fundo da porta, uns olhos escondidos na sombra, que me fizeram sinal com a mão para entrar.
Entrei, passando ao lado do monstro que quase me vedava a porta, e dei comigo numa sala enorme, de tectos altos e trabalhados, paredes grossas, portas pesadas, janelas altíssimas.
Parecia que eu tinha chegado a outro mundo, onde as coisas tinham uma outra dimensão. E quando a voz, a tremenda voz, se fez ouvir, senti-me estremecer dos pés à cabeça como se não me fosse possível voltar à liberdade.
Eu já me havia dado conta de que tinha caído numa armadilha, mas ainda não tivera tempo de organizar as ideias e reagir.
A tremenda voz falou. Disse que eu me sentisse à vontade, que procedesse como se estivesse em minha casa e ficou à espera da minha resposta. Mas eu calei-me. Não fui capaz de raciocinar, nem de perceber o que estava a acontecer. Depois, sentei-me, sem me preocupar em verificar se havia alguma cadeira atrás de mim. Soçobrei das pernas. E mergulhei no escuro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Faiscante

Era noite no rio e CSG estava sob o luar diante dos meus olhos. Os seus cabelos curtos ondulavam ligeiramente na brisa da viagem, enquanto eu não conseguia desviar a atenção do seu corpo esguio e alto.
O barco deslizava lentamente na ondulação ligeira e fresca, com uma breve inclinação para a Lua que enchia a paisagem.
CSG ia ao leme e eu apenas olhava o tempo que corria sobre nós.
Nada tínhamos para fazer e CSG lembrara-se de usar o barco da família para me mostrar o rio.
Eu queria o seu odor de amêndoa ao pé de mim, mas o leme não dispensava os seus cuidados. Ainda demoraria cerca de uma hora até que o barco parasse e pudéssemos conversar à vontade, sem olhares que nos descobrissem.
CSG contraíra matrimónio com LT, mas desde que nos conhecêramos andávamos às escondidas por aqui e por ali, aos beijos, abraços e amores sem fim. Naquela noite, CSG tivera a ideia do barco. LT tinha-se ausentado para Roma e não daria por nada.
O barco deteve-se na parte mais larga do rio. CSG fez descer a âncora e veio sentar-se junto de mim com um suspiro do tamanho das águas. Abracei-lhe a cintura por baixo da camisola leve. Encostámo-nos mais e desatámos a beijar-nos sofregamente.
Ao fim de uns minutos, porém, eu tive um sobressalto e pensei que LT poderia aparecer a qualquer momento. Vindo de onde, eu não sabia. Mas viria do rio, com certeza. Viria da noite, de dentro de uma nuvem, ou saltando por cima da ondulação ligeira do rio.
CSG sentiu o meu receio, a minha inibição. Afastou a cabeça e fixou-me nos olhos para adivinhar os meus pensamentos.
- Não te preocupes – disse. – Não há hipóteses de nos encontrarem aqui…
Eu ri, mas nem por isso descontraí. Pelo contrário, o à vontade de CSG aumentou a minha preocupação.
- E se tudo isto for uma armadilha? – perguntei.
CSG deu uma gargalhada e voltou a beijar-me, como se não quisesse voltar a ouvir-me.
- Daqui a pouco, vamos descer e tomar uma bebida fresca.
Senti um arrepio. Qualquer coisa começava a não bater certo. Talvez o problema fosse apenas comigo, mas naquele momento não era possível saber. Havia o rio, o barco e nós. Mais nada. Por que razão havíamos de descer? Não poderíamos tomar a bebida no sítio onde estávamos? Haveria no piso inferior algo que pudesse pôr em risco a minha segurança?
Nunca mais serenei. Ainda nos beijámos mais umas vezes, abraçámos, murmurámos palavras melosas, mas o rio já não me parecia mesmo. A tranquilidade tinha desaparecido.
- Vamos embora – pedi.
CSG parecia não acreditar no que ouvia.
- Ainda é tão cedo… - disse, com surpresa.
- Não consigo continuar aqui – repliquei, com o nítido pressentimento de que LT estava cada vez mais próximo e que apareceria de um instante para o outro. – Havemos de voltar noutro dia.
CSG fez-me a vontade. Foi para o leme e pôs o motor a trabalhar, no momento preciso em que um raio faiscante cortou a noite, fazendo estremecer as brisas sobre o rio…